A guerra na Ucrânia transcendeu há muito sua dimensão local. O que começou como tensões territoriais e identitárias no Leste Europeu converteu-se na mais significativa disputa por hegemonia global desde a Guerra Fria. Washington, Moscou, Pequim e Bruxelas não combatem diretamente em solo ucraniano, mas é lá que testam armamentos, estratégias econômicas, narrativas informacionais e os limites da ordem internacional estabelecida em 1991. Este artigo examina como conflitos periféricos — aqueles que ocorrem fora dos centros tradicionais de poder — tornam-se arenas onde grandes potências disputam influência, recursos e a própria arquitetura do sistema mundial, usando a Ucrânia como caso paradigmático dessa dinâmica.

Por Que Guerras “Locais” Deixaram de Ser Locais

A globalização não uniformizou apenas mercados e comunicações. Ela interconectou geografias estratégicas de modo que nenhum conflito armado significativo permanece isolado. Síria, Iêmen, Líbia, Sudão, Mali e agora Ucrânia compartilham um padrão: Estados fragilizados ou em disputa interna convertem-se em palcos onde potências externas projetam poder, testam alianças e competem por influência sem os custos políticos de um confronto direto.

No caso ucraniano, a guerra iniciada em fevereiro de 2022 — mas cujas raízes remontam ao golpe de Maidan em 2014 e, mais profundamente, ao colapso soviético — materializou tensões acumuladas por três décadas. A expansão contínua da OTAN em direção às fronteiras russas, ignorando advertências de Moscou e analistas ocidentais como George Kennan e John Mearsheimer, criou o contexto estrutural para a escalada.

Mas o conflito interessa às grandes potências por razões que transcendem a Ucrânia. Para os Estados Unidos, trata-se de conter a Rússia, enfraquecer um rival geopolítico e consolidar a dependência europeia da arquitetura de segurança atlântica. Para a Rússia, de impedir o cerco estratégico e demonstrar capacidade de resistência. Para a China, de observar como Washington responde a desafios diretos à sua hegemonia — um ensaio para Taiwan. Para a Europa, de definir se possui autonomia estratégica ou permanece subordinada à agenda norte-americana.

A Ucrânia Como Laboratório: Armamentos, Sanções e Narrativas

Três dimensões transformam a Ucrânia em campo de experimentação geopolítica.

Arsenal em Campo de Provas

O conflito tornou-se o maior teste de sistemas militares desde a Segunda Guerra Mundial. Mísseis HIMARS, tanques Leopard, sistemas antiaéreos Patriot, drones turcos Bayraktar e armamentos de fabricação ucraniana, russa e norte-coreana são avaliados sob fogo real. Fabricantes de defesa ocidentais e russos estudam desempenho, vulnerabilidades e efetividade em combate de alta intensidade — conhecimento que moldará arsenais globais nas próximas décadas.

A assistência militar norte-americana ultrapassa 75 bilhões de dólares desde 2022, segundo dados do Departamento de Estado dos EUA, enquanto a Rússia mobiliza capacidade industrial adormecida desde 1991. Não se trata apenas de apoio humanitário ou solidariedade: é investimento estratégico em dados operacionais e degradação do adversário.

Guerra Econômica Como Instrumento Geopolítico

As sanções ocidentais contra a Rússia constituem o mais ambicioso regime punitivo já implementado contra uma grande potência. Bloqueio de reservas cambiais, exclusão parcial do sistema SWIFT, embargo tecnológico, teto de preços sobre petróleo russo — medidas que visam colapsar a economia russa e forçar capitulação.

Os resultados, contudo, revelam limites do poder econômico ocidental. A Rússia reorientou exportações para Ásia, África e América Latina, consolidou vínculos com China e Índia, e sua economia contraiu menos que projeções catastrofistas previam. Simultâneamente, Europa enfrenta crise energética, desindustrialização parcial e inflação — custos que Washington não compartilha na mesma proporção.

Para países africanos, latino-americanos e asiáticos, a mensagem é clara: dependência de sistemas financeiros e tecnológicos ocidentais representa vulnerabilidade estratégica. O episódio acelera esforços de desdolarização, sistemas de pagamento alternativos e busca por autonomia econômica.

Batalha Informacional e Produção de Consenso

Mídia corporativa ocidental construiu narrativa quase monolítica: Putin como agressor irracional, Ucrânia como democracia heroica, OTAN como aliança defensiva. Vozes dissidentes — que apontam expansionismo atlântico, golpe de 2014, repressão a minorias russófonas no Donbass ou interesses geoeconômicos norte-americanos — são marginalizadas como “pró-Kremlin” ou “desinformação”.

Paradoxalmente, em grande parte da Ásia, África e América Latina, essa narrativa não encontra adesão automática. A abstenção de países como Brasil, Índia, África do Sul e México em votações da ONU condenando a Rússia — representando mais da metade da população mundial — revela fissura entre discurso hegemônico e percepções periféricas.

Para essas sociedades, a guerra ucraniana evoca memórias históricas: invasões “humanitárias” norte-americanas no Iraque, Líbia, Afeganistão; sanções unilaterais contra Cuba, Venezuela, Irã; golpes apoiados por Washington na América Latina; duplos padrões sobre ocupações territoriais quando envolvem aliados como Israel. A relutância em condenar Moscou não significa apoio a Putin, but recusa em validar seletividade moral ocidental.

O Que a Periferia Enxerga e a Potência Ignora

A divergência interpretativa não é acidental. Deriva de experiências históricas distintas com intervencionismo das grandes potências.

Seletividade das Indignações

Por que Ucrânia mobiliza dezenas de bilhões em assistência militar e pacotes de reconstrução, enquanto Iêmen — onde guerra saudita apoiada por EUA e Reino Unido gerou catástrofe humanitária documentada pela ONU — permanece invisível? Por que ocupação russa de territórios ucranianos provoca sanções massivas, mas décadas de ocupação israelense na Palestina recebem proteção diplomática norte-americana no Conselho de Segurança?

Para observadores no mundo árabe, africano ou latino-americano, a resposta é evidente: hierarquização racial e geográfica das vidas. Ucranianos brancos europeus merecem solidariedade, iemenitas ou palestinos não.

Autonomia Estratégica Como Imperativo

A guerra ucraniana ensina às periferias que nenhuma potência age por altruísmo. Estados Unidos instrumentalizam a Ucrânia para enfraquecer rival geopolítico; Rússia a utiliza para impedir expansão adversária; Europa sacrifica interesses econômicos próprios por subordinação atlântica; China observa e se prepara.

Países da América Latina, África e Ásia extraem conclusão pragmática: fortalecer soberania, diversificar parcerias, evitar alinhamentos exclusivos. A multipolaridade não é ideal abstrato, mas estratégia de sobrevivência diante de competição entre blocos que ignora interesses locais.

Entre Hegemonia Fraturada e Multipolaridade Incerta

O conflito ucraniano não criou a crise da hegemonia norte-americana, mas a tornou visível. Washington ainda detém supremacia militar convencional, domínio do dólar e capacidade de mobilizar aliados europeus. Porém, três décadas de unipolarismo pós-Guerra Fria chegam ao fim.

IMAGEM ÚNICA; meta-descrição: Mapa-múndi analítico mostrando principais zonas de conflitos periféricos (Ucrânia, Síria, Iêmen, Taiwan) com linhas indicando influência de grandes potências (EUA, Rússia, China, União Europeia), design sóbrio e institucional; legenda: Conflitos periféricos transformam-se em arenas de disputa geopolítica entre potências globais, evidenciando transição de ordem unipolar para multipolar [Elaboração: Revista Fronteira]

A recusa de boa parte do mundo em seguir automaticamente a agenda ocidental contra a Rússia; a consolidação do eixo Moscou-Pequim; a emergência de mecanismos como BRICS, Organização de Cooperação de Xangai e bancos de desenvolvimento alternativos; a aceleração da desdolarização — todos são sintomas de transição sistêmica.

Não se trata de celebrar multipolaridade romantizada. China e Rússia não são libertadoras, mas potências que perseguem interesses próprios, frequentemente reprimindo direitos internamente e manipulando parceiros menores. A questão é que ordem mundial unipolar também não trouxe paz, democracia ou justiça — apenas hegemonia ocidental reconfigurada.

Periferia Como Sujeito ou Objeto da História?

A guerra na Ucrânia expõe contradição estrutural: enquanto potências disputam hegemonia global, periferias permanecem majoritariamente objetos, não sujeitos, dessa competição. Africanos não decidem se europeus terão gás russo ou não; latino-americanos não determinam se haverá escalada nuclear; asiáticos não definem termos de eventual acordo de paz.

Mas essa condição pode ser alterada. A relativa autonomia demonstrada por Índia, Brasil, África do Sul e outros ao recusarem alinhamento automático sugere margem de manobra. Não se trata de ilusão terceiro-mundista sobre neutralidade moral, mas de cálculo estratégico: usar competição entre potências para ampliar margem de negociação e extrair concessões.

Historicamente, periferias avançaram quando souberam aproveitar fissuras hegemônicas — movimento não alinhado na Guerra Fria, autonomia relativa de alguns Estados durante multipolaridade do século XIX. O desafio atual é converter fragmentação da ordem mundial em oportunidade para fortalecer soberania, integração regional e projetos de desenvolvimento autocentrados.

Laboratórios de Guerra e Futuros em Disputa

Conflitos como o ucraniano não encerram quando armas silenciam. Seus efeitos reverberam por décadas: refugiados, traumas, reconfiguração territorial, precedentes jurídicos, evolução doutrinária militar, reestruturação de alianças.

Para potências, a Ucrânia oferece lições sobre limites do poder militar (Rússia), eficácia de sanções econômicas (EUA e Europa), resiliência de sociedades sob bombardeio (Ucrânia), e viabilidade de conflitos prolongados de alta intensidade na era nuclear (todos).

Para periferias, a lição é mais sombria: quando grandes potências competem, os mais fracos pagam o preço. Seja em solo ucraniano destruído, economia europeia fragilizada, ou países africanos e latino-americanos enfrentando inflação alimentar derivada de bloqueios agrícolas.

O Preço da Perifericidade e os Caminhos Possíveis

A guerra na Ucrânia não é ucraniana. É confronto entre visões de ordem mundial, teste de força entre blocos reconstituídos, e experimento sobre governança global no século XXI. Ucranianos morrem, mas as decisões estratégicas são tomadas em Washington, Moscou e Bruxelas.

Essa dinâmica coloca questões estruturais: É possível construir ordem internacional que não dependa de hegemonia única ou competição destrutiva entre potências? Pode a periferia do sistema — África, América Latina, partes da Ásia — afirmar-se como força autônoma, ou está condenada a escolher entre hegemonias rivais? Como evitar que próximos conflitos periféricos (Taiwan, Saara Ocidental, Mar do Sul da China) repitam o padrão ucraniano?

As respostas não virão de apelos morais ou boa vontade das potências. Virão de correlações de força, capacidade de articulação regional, construção de alternativas institucionais, e lucidez estratégica para navegar transição sistêmica sem subordinação automática.

A tragédia ucraniana deveria ensinar que nenhuma potência, ocidental ou oriental, opera por solidariedade desinteressada. Ensinam, também, que periferias que internalizam essa verdade e agem consequentemente podem ampliar suas margens de autonomia — pequenas, sempre limitadas, mas reais.

O tabuleiro está montado. As peças se movem. Resta saber se aqueles historicamente relegados à condição de casas do jogo conseguirão, desta vez, jogar.


Referências e Leituras Complementares: