Brasil recusa aliança americana de minerais estratégicos

Decisão expõe divergência sobre modelo de desenvolvimento e controle de recursos naturais em contexto de disputa geopolítica EUA-China

O governo brasileiro decidiu não aderir à aliança proposta pelos Estados Unidos para controlar a produção e comercialização de minerais críticos e terras raras, conforme revelaram auxiliares do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O tema será debatido no encontro previsto entre Lula e Donald Trump para março, na Casa Branca. A decisão foi sinalizada pela presença de apenas um diplomata de baixo escalão na reunião convocada por Washington na quarta-feira (4), que reuniu representantes de 54 países mais a União Europeia.

A versão dominante

O governo americano apresentou a proposta como iniciativa para criar um bloco comercial capaz de romper o domínio chinês sobre minerais essenciais à tecnologia de ponta, chips eletrônicos e transição energética. A Casa Branca argumenta que a concentração do refino e processamento desses recursos na China representa risco à segurança nacional e econômica dos países ocidentais. A narrativa enfatiza a necessidade de “cadeias de suprimento resilientes” e independência estratégica frente a Pequim.

Contextos frequentemente omitidos

O Brasil detém a segunda maior reserva mundial de minerais críticos e terras raras, posição superada apenas pela China. Historicamente, o país exportou matérias-primas sem processamento local — modelo que gerou dependência tecnológica e transferiu valor agregado para economias industrializadas. No caso do nióbio, por exemplo, o Brasil controla 98% das reservas globais mas realiza apenas parte do refino, vendendo o mineral sem transformação industrial completa.

A proposta americana surge em contexto de acirramento da competição tecnológica sino-americana. A China controla atualmente cerca de 70% do refino global de lítio, 60% do cobalto e domina etapas cruciais da cadeia produtiva de baterias e semicondutores. Pequim construiu essa posição através de décadas de investimento em capacidade industrial, acordos bilaterais com países africanos e latino-americanos, e subsídios estatais ao setor.

O governo brasileiro vem desenvolvendo estratégia própria desde 2023, com foco no domínio do ciclo completo de processamento. Essa abordagem busca evitar que o país se torne mero fornecedor de matéria-prima, repetindo padrões históricos de inserção subordinada no comércio internacional.

Versões e contrapontos oficiais

Fontes do Palácio do Planalto classificaram a proposta americana como “camisa de força” destinada a atender exclusivamente interesses de Washington. A avaliação governamental indica preferência por negociações bilaterais que preservem autonomia decisória sobre extração, refino e comercialização.

O Itamaraty mantém postura de “universalidade” nas negociações, privilegiando acordos simultâneos com Estados Unidos, União Europeia, China e Índia. Lula deve assinar acordo sobre minerais críticos durante viagem à Índia prevista para fevereiro, em texto ainda em elaboração final.

A decisão brasileira reflete cálculo que equilibra relações comerciais — a China é o principal parceiro comercial do Brasil — com vínculos políticos ocidentais, evitando alinhamento exclusivo a qualquer bloco. O governo considera que a recusa não comprometerá a relação com Trump, construída através de aproximação diplomática recente.

A questão permanece em aberto quanto aos termos nos quais o Brasil negociará acesso a suas reservas estratégicas, e se conseguirá, de fato, industrializar a cadeia produtiva domesticamente ou será pressionado a escolher entre os blocos em disputa.

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