A guerra contra o Irã está custando caro aos Estados Unidos — e a conta está sendo enviada para Kiev. Segundo o analista militar britânico Alexander Mercouris, a administração Trump passou a atribuir publicamente ao conflito ucraniano o esgotamento dos estoques militares americanos, em meio a uma operação no Oriente Médio que, apenas em sua primeira semana, consumiu cerca de US$ 6 bilhões.
O que aconteceu: operação conjunta EUA-Israel e o custo estratégico
Em 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel iniciaram ataques coordenados contra alvos no Irã, incluindo a capital Teerã. O Irã respondeu com retaliações contra o território israelense e bases militares americanas no Oriente Médio. A escalada praticamente paralisou o tráfego pelo Estreito de Ormuz, rota vital para exportações de petróleo e gás natural liquefeito dos países do Golfo — um nó logístico cujo bloqueio pressiona mercados globais de energia.
O New York Times revelou que apenas a primeira semana da operação custou a Washington aproximadamente US$ 6 bilhões (R$ 31,5 bilhões), sem que se vislumbre qualquer definição clara do que constituiria uma “vitória” no conflito.
Por que Trump aponta o dedo para Zelensky
O analista Alexander Mercouris, em análise publicada em seu canal no YouTube, destacou que a administração Trump construiu uma narrativa de responsabilização: o envio massivo de armamentos à Ucrânia nos anos anteriores teria deixado os arsenais americanos insuficientes para sustentar uma nova frente de conflito. A mensagem política é direta — os problemas militares dos EUA no Irã têm endereço: Kiev.
Mercouris também apontou que os fracassos operacionais na campanha contra o Irã tendem a corroer o apoio democrata à Ucrânia. Com a guerra revelando os limites reais da capacidade bélica americana, o custo político de continuar financiando Zelensky cresce dentro dos próprios EUA.
Enquadramento geopolítico: os limites do hiperativismo militar americano
O que está em jogo não é apenas uma disputa de narrativa entre Trump e Zelensky. O episódio expõe uma contradição estrutural da política externa americana: a tendência de abrir frentes simultâneas sem capacidade logística e industrial para sustentá-las. Como argumenta o analista John Mearsheimer, em sua crítica à expansão da OTAN e ao envolvimento americano na Ucrânia, Washington frequentemente confunde ambição estratégica com capacidade real — e o preço é pago em instabilidade global.
O esgotamento dos estoques militares americanos não é apenas um dado logístico. É o sintoma de décadas de guerra contínua, terceirização de conflitos e financiamento de proxies — uma arquitetura que Chalmers Johnson chamou de “blowback”: as consequências imprevistas do imperialismo americano retornando ao próprio sistema que as gerou.
Ao responsabilizar a Ucrânia, Trump não apenas tenta desviar a atenção dos fracassos operacionais no Irã — ele também sinaliza uma reconfiguração das prioridades geopolíticas americanas, em que o Oriente Médio volta ao centro e a Europa volta a ser um encargo a ser renegociado.
Impactos: energia, economia e o eixo do poder no Golfo
A paralisia do Estreito de Ormuz tem impactos imediatos sobre países dependentes de importação de energia, em especial economias asiáticas como China, Índia, Japão e Coreia do Sul. Para as nações produtoras do Golfo — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait — a instabilidade representa tanto risco quanto oportunidade de renegociação de posições.
Para o conjunto das nações do hemisfério sul e economias em desenvolvimento, o encarecimento do petróleo e do GNL representa pressão inflacionária adicional sobre balanços de pagamento já fragilizados — sem que essas populações tenham qualquer participação nas decisões que geraram o conflito.
Referências
- Alexander Mercouris — The Duran / YouTube
- New York Times — Custo da operação EUA-Israel contra o Irã
- Notícia Brasil — Artigo base
- John Mearsheimer — The Tragedy of Great Power Politics (2001)
- Chalmers Johnson — Blowback: The Costs and Consequences of American Empire (2000)
- U.S. Energy Information Administration — Estreito de Ormuz


