Atacar o Irã foi um erro — e Washington já sabe disso

Análise do ataque EUA-Israel ao Irã: objetivos fracassados, civis mortos e a pergunta que Washington não quer responder — quem manda em sua política externa?
Tel Aviv atacada por drones iranianos - Reprodução
Tel Aviv atacada por drones iranianos - Reprodução

O ataque conjunto de Estados Unidos e Israel ao Irã, iniciado sem provocação documentada, já revelou suas contradições estratégicas em menos de duas semanas de operações. Além dos danos militares recíprocos, a ofensiva reacendeu o debate sobre até onde vai a autonomia da política externa norte-americana — e quem, de fato, a determina.

O que aconteceu: a operação e seus resultados imediatos

Na primeira semana de março de 2026, os Estados Unidos e Israel lançaram uma ação militar conjunta contra o Irã, batizada pelo Pentágono de Operation Epic Fury — uma guerra preventiva cujos objetivos declarados incluíam destruir o programa de mísseis iraniano, neutralizar supostas capacidades nucleares e provocar uma mudança de regime. O presidente Donald Trump anunciou a operação pelo Truth Social, prometendo “aniquilar a marinha” iraniana e “obliterar” sua indústria de mísseis.

O resultado imediato esteve longe de ser uma vitória inequívoca. Mísseis e drones iranianos causaram danos em território israelense e em bases militares norte-americanas no Golfo Pérsico. Um bombardeio norte-americano matou 165 estudantes — majoritariamente meninas —, alimentando manifestações massivas no Irã e em comunidades xiitas em países vizinhos.

A morte de civis e a resposta militar iraniana confirmaram o que analistas como Trita Parsi, do Quincy Institute for Responsible Statecraft, alertavam: uma guerra com o Irã dificilmente produziria a capitulação rápida que Washington e Tel Aviv projetavam.

Captura institucional: quem define a política externa dos EUA?

A pergunta que o ataque ao Irã recoloca é estrutural: a política externa norte-americana ainda serve aos cidadãos dos EUA — ou foi capturada por uma agenda que beneficia primariamente Israel? O analista Philip Giraldi, ex-oficial da CIA e diretor do Council for the National Interest, aponta para um fenômeno documentado: a influência desproporcional do lobby pró-Israel sobre o Congresso, o Executivo e a mídia — tese desenvolvida por John Mearsheimer e Stephen Walt em The Israel Lobby and U.S. Foreign Policy (2007).

O Sionismo Cristão como doutrina de Estado

Dois nomes sintetizam a fusão entre teologia apocalíptica e política de Estado nos EUA atuais: Pete Hegseth, Secretário de Defesa, e Mike Huckabee, embaixador em Israel. Hegseth enxerga o conflito no Oriente Médio como prelúdio do Armagedom bíblico — evento que levaria os fiéis ao Rapture. Huckabee declarou a Tucker Carlson que seria “ótimo” se Israel tomasse a Grande Israel — do Nilo ao Eufrates — adicionando que “a Carta da ONU não conta porque Deus disse”.

Essa ideologia não é periférica: ela molda a política de colonização nos territórios palestinos ocupados e fornece cobertura moral para o que organismos internacionais classificam como crimes de guerra. O relatório da ONU de 2025 registrou mais de 1.800 ataques de colonos israelenses — violência, incêndios criminosos, furto de gado e assassinatos.

Impunidade seletiva: cidadãos norte-americanos mortos sem responsabilização

Desde 2022, pelo menos nove cidadãos dos EUA foram mortos por forças israelenses ou colonos — sem acusações criminais e sem investigações independentes. Entre as vítimas: Amer Rabee, 14, de New Jersey, baleado por soldados; Aysenur Ezgi Eygi, 26, de Seattle, alvejada durante protesto contra assentamentos; e Shireen Abu Akleh, jornalista morta em 2022 que a ONU concluiu ter sido deliberadamente alvejada.

Mais de 30 senadores exigiram investigações independentes. O Departamento de Estado delegou o caso às próprias autoridades israelenses. O padrão revela o que Giraldi chama de “impunidade seletiva”: um Estado que pune seus inimigos com precisão cirúrgica e absolve seus aliados com igual eficiência.

Impactos: escalada regional e erosão da legitimidade multilateral

A morte das 165 estudantes e a resposta iraniana com mísseis e drones indicam que o Irã não entrará em colapso rápido. Ao contrário, a ofensiva pode ter acelerado a consolidação da resistência popular — reproduzindo o padrão do Iraque pós-2003 e da Líbia pós-2011: intervenções que destroem estruturas de Estado sem construir alternativas, gerando caos prolongado.

Para as comunidades xiitas no Iraque, no Líbano, no Iêmen e na Síria, o bombardeio a civis iranianos funciona como combustível para o recrutamento e como legitimação da resistência armada. O risco de uma proxy war de alcance regional — com múltiplos atores e frentes abertas — é concreto e documentado.

No plano sistêmico, o ataque aprofunda o isolamento diplomático dos EUA. Rússia, China e grande parte da Ásia, África e América Latina já vinham distanciando-se da narrativa ocidental sobre o conflito israelo-palestino desde outubro de 2023. A Operation Epic Fury tende a acelerar a erosão da legitimidade norte-americana nas instâncias multilaterais — e a consolidar blocos alternativos de influência geopolítica.

No plano interno dos EUA, Trump admitiu que “americanos corajosos podem morrer” — reconhecimento politicamente calculado de que o custo humano da guerra recairá, como sempre, sobre as classes trabalhadoras, enquanto as famílias que financiam as campanhas permanecem distantes do front.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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