Carne de Canhão no Leste Europeu: o que há por trás dos brasileiros que morrem na guerra da Ucrânia

Ao menos 23 brasileiros morreram e 44 estão desaparecidos na guerra da Ucrânia. Entenda quem são, como foram recrutados e o que o governo não fez.
Voluntários estrangeiros em treinamento militar na Ucrânia durante a guerra contra a Rússia
Brasileiros integraram batalhões estrangeiros na Ucrânia desde 2022 — muitos sem contrato, sem estrutura e sem retorno garantido [Créditos: Mil.gov.ua / Wikimedia Commons]

Desde 2022, ao menos 23 brasileiros morreram e 44 estão desaparecidos na guerra da Ucrânia, segundo o Itamaraty. A maioria foi recrutada por redes informais, sem contrato, sem proteção e sem retorno garantido. O caso expõe como conflitos de grandes potências continuam sendo alimentados por corpos vindos das periferias do sistema internacional.

Quantos brasileiros estão na guerra da Ucrânia — e o que os dados oficiais revelam

O Ministério das Relações Exteriores confirmou ao menos 23 mortos e 44 desaparecidos brasileiros no conflito. Fontes diplomáticas indicam variações entre 22 e 24 mortos confirmados dependendo da data de apuração, com estimativa de que o número real seja maior — já que muitos voluntários entram no conflito sem qualquer registro formal junto às autoridades ucranianas ou brasileiras.

Estima-se que cerca de 500 brasileiros chegaram a se mobilizar em grupos de WhatsApp e Telegram para se alistar desde o início da invasão em larga escala, em fevereiro de 2022, segundo dados iniciais compilados pela Wikipédia sobre a Legião Internacional.

O recrutamento que o Estado brasileiro não controla

A maioria dos voluntários não se alistou diretamente no exército ucraniano. Foi captada por intermediários, ex-combatentes e grupos privados em redes sociais — com promessas de salários de até R$ 25 mil mensais, cidadania estrangeira e “experiência militar”. Na prática, chegavam ao front sem contrato, sem estrutura e sem qualquer proteção jurídica ou consular.

A rota mais comum: voos para Espanha, Portugal ou Polônia, seguidos de entrada terrestre na Ucrânia pelas fronteiras polonesa ou romena, e integração a batalhões estrangeiros — alguns ligados à inteligência militar ucraniana (GUR), outros completamente informais.

soldados estrangeiros em treinamento na Ucrânia durante a guerra contra a Rússia
Voluntários estrangeiros em zona de treinamento na Ucrânia — brasileiros integram esse contingente desde 2022 [Créditos: Mil.gov.ua / International Legion of Ukraine / Wikimedia Commons]

Tortura, extorsão e a morte do recruta brasileiro Bruno Gabriel

Em fevereiro de 2026, uma investigação do Kyiv Independent revelou um dos casos mais graves envolvendo brasileiros na guerra: a morte do recruta Bruno Gabriel Leal da Silva, 23 anos, após punições violentas impostas por superiores dentro de uma unidade composta majoritariamente por estrangeiros — incluindo brasileiros em posição de comando.

Ex-membros relataram violência sistemática, extorsão de salários e ameaças contra quem tentasse desertar. O caso expôs o GUR, inteligência militar ucraniana à qual a unidade estava vinculada, segundo Intelligence Online.

Não se trata de episódio isolado. Relatórios apontam que algumas unidades formadas por latino-americanos desenvolveram cultura interna de disciplina extrema, com punições coletivas e confisco de salários.

Por que periferias fornecem voluntários para guerras do centro

O fenômeno dos brasileiros na guerra da Ucrânia não é acidente. É estrutural.

Como observa o pesquisador Vijay Prashad em The Poorer Nations, países do Sul são historicamente incorporados a conflitos geopolíticos como fornecedores de mão de obra — militar, econômica ou simbólica — sem participar das decisões que os originam. O Brasil não declarou guerra à Rússia. Não tem interesse estratégico direto no Donbass. Mas seus cidadãos estão morrendo lá.

A Legião Internacional criada por Zelensky foi um instrumento eficiente de mobilização global. Seu site chegou a ser traduzido para o português, facilitando o recrutamento em um país sem relação orgânica com o conflito. O convite foi aceito por jovens atraídos pela narrativa de heroísmo — e entregues a estruturas sem controle, sem contrato e sem Estado.

O silêncio do Itamaraty diante do recrutamento ativo

O governo brasileiro emite alertas formais recomendando que cidadãos não participem de conflitos armados no exterior e adverte sobre possíveis consequências jurídicas. A postura, no entanto, é reativa: informa após as mortes, não age sobre o recrutamento.

Famílias descobrem o alistamento de parentes apenas após mortes ou desaparecimentos. Corpos não são repatriados. Desaparecidos podem levar anos para serem oficialmente declarados mortos. O Estado assiste — e contabiliza.

O Brasil entre dois lados de uma guerra que não é sua

Há brasileiros lutando dos dois lados do conflito. O caso mais conhecido do lado russo é o de Rafael Lusvarghi, condenado na Ucrânia por participação em organização paramilitar pró-Rússia no Donbass. A existência de combatentes em ambos os lados revela menos sobre convicção ideológica e mais sobre a lógica do mercado de guerra: onde há demanda por corpos, há oferta — especialmente de países com alta desigualdade, desemprego estrutural e cultura militar difusa.

Quatro anos após a invasão em larga escala, a guerra continua sem solução à vista. E o fluxo de voluntários brasileiros, apesar das mortes documentadas, nunca cessou completamente.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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