Como a guerra entre EUA e Irã ameaça a política externa da Turquia

Ancara se recusa a abrir bases para o ataque EUA-Israel ao Irã. A resposta veio rápido: mísseis fantasmas, drones sem autoria e pressão pelo Azerbaijão. Análise.
Retrato aproximado de Recep Tayyip Erdoğan olhando à frente.
Retrato do presidente turco Recep Tayyip Erdoğan em Istambul. [Tom Page / Flickr – CC BY-SA 2.0]

A política externa turca enfrenta seu maior teste em décadas. Com os Estados Unidos e Israel intensificando o ataque aéreo contra o Irã, Ancara recusa alinhar-se ao eixo ocidental — mas a pressão para romper sua postura de equilíbrio cresce por meio de provocações fabricadas e da reativação do tabuleiro curdo e azerbaijano.

O que está em jogo na ofensiva contra o Irã

O objetivo estratégico de Washington no Oriente Médio é a construção de uma ordem regional assentada na hegemonia israelense. O principal obstáculo a esse projeto é Teerã. Por isso, enfraquecer o Irã e desmantelar sua rede de influência regional permanece uma prioridade para os planejadores norte-americanos — e a Turquia ocupa, nesse cálculo, uma posição-chave.

Washington projeta uma arquitetura regional possível em torno de dois eixos alternativos: Israel–Turquia–Arábia Saudita ou Israel–Arábia Saudita–Egito. Nos últimos dois anos, a estratégia norte-americana avançou de forma sequencial: o Hamas foi gravemente enfraquecido; o Hezbollah viu suas capacidades militares pressionadas no Líbano; o governo de Assad caiu na Síria; e tentativas foram feitas para bloquear o retorno de Nouri al-Maliki ao governo no Iraque.

Encorajados por esses avanços, Washington e Tel Aviv apostaram que uma campanha aérea intensiva contra o Irã poderia desencadear uma mudança de regime. A aposta se mostrou equivocada: a expectativa de que ataques externos reacenderiam a instabilidade interna iraniana não se materializou.

Política externa turca: equilíbrio entre dois mundos

Desde 1991, as intervenções militares e políticas dos EUA no Oriente Médio produziram consequências negativas recorrentes para Ancara. A invasão do Iraque criou, na fronteira turca, uma região autônoma curda liderada por Masoud Barzani. O apoio à política norte-americana na Síria trouxe um influxo massivo de refugiados e o surgimento de estruturas autônomas curdas ao longo do flanco sul da Turquia.

O conflito sírio produziu ainda uma nova realidade geopolítica: ao se engajar naquele teatro, a Turquia tornou-se, de fato, vizinha de Israel. Embora Ancara se apresente como uma das vencedoras no pós-Assad, a Síria caminha para uma estrutura que se assemelha a um mandato informal EUA-Israel, reforçada pela “carta curda” — uma alavanca que pode ser acionada novamente no futuro.

A política externa turca tem na fórmula “paz em casa, paz no mundo” — legada por Mustafá Kemal Atatürk — seu princípio fundador. Ironicamente, a dinâmica atual colocaria a Turquia em vizinhança direta com Israel, contrariando essa tradição. Washington promoveu a queda de Assad e a ascensão de Ahmad al-Sharaa (ex-Abu Mohammad al-Julani), líder do Hayat Tahrir al-Sham (HTS), como passo para viabilizar a cooperação turco-israelense. O embaixador norte-americano em Ancara e enviado especial para a Síria, Tom Barrack, declarou abertamente que Turquia e Israel cooperariam em toda a faixa que vai do Cáspio ao Mediterrâneo.

O projeto de integração regional e a pressão sobre Ancara

O projeto norte-americano extrapola a Síria. O chamado “Corredor Trump” — uma versão do Corredor de Zangezur ligando Azerbaijão e Armênia em uma concessão de 99 anos — é apresentado como parte desse arco estratégico mais amplo. No seu núcleo está a formação de uma frente Turquia–Israel contra o Irã, com a participação da Síria de Sharaa, dos estados árabes do Golfo e das forças curdas no norte do Iraque.

Mesmo a iniciativa doméstica turca promovida sob o slogan de “aliança turco-curdo-árabe” converge, estruturalmente, com essa agenda. Isso coloca Ancara numa contradição difícil: ganhos táticos na Síria podem consolidar uma arquitetura regional que, a médio prazo, subordina a Turquia aos interesses de Washington e Tel Aviv.

Ancara resiste — e as provocações se multiplicam

Quando a operação EUA-Israel contra o Irã foi deflagrada, a Turquia não se alinhou imediatamente. Na primeira semana do conflito, Ancara adotou um equilíbrio cauteloso: criticou o ataque ao Irã, mas também objetou às ameaças iranianas contra os estados do Golfo. Sinais anteriores já indicavam essa postura — uma fotografia divulgada pela Casa Branca mostrando Trump e Netanyahu reunidos exibia, ao fundo, um mapa das bases utilizadas na operação. Bases turcas estavam visivelmente ausentes.

Esse equilíbrio foi rapidamente desafiado. Relatórios alegaram que um míssil iraniano havia sido interceptado ao sobrevoar território turco — detectado pelo radar da OTAN em Kürecik e abatido por unidades aliadas no Mediterrâneo. A narrativa desmoronou em poucas horas: o Estado-Maior iraniano negou ter disparado qualquer míssil em direção à Turquia, posição reiterada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi.

Um detalhe do próprio Ministério da Defesa turco lacrou o argumento: os destroços encontrados na província de Hatay pertenciam ao míssil interceptor, não ao suposto projétil iraniano. Três fatos coexistiam: o Irã negou; radares da OTAN registraram um lançamento; os destroços não eram iranianos. A tentativa de arrastar Ancara para o conflito havia falhado.

O ângulo azerbaijano: uma segunda frente

No dia seguinte, emergiu uma narrativa análoga envolvendo o Azerbaijão. Reportagens afirmavam que drones iranianos haviam atacado a República Autônoma de Nakhchivan. O Irã novamente negou qualquer operação. Ao contrário de Ancara, Baku mostrou-se mais disposta a adotar uma postura confrontacional: o presidente Ilham Aliyev — que mantém relações próximas com Israel mesmo durante o genocídio em Gaza — declarou que as Forças Armadas azerbaijanas estavam sendo instruídas a preparar retaliação.

A contradição é reveladora: Aliyev qualificou o incidente de “não provocado” ao mesmo tempo em que o Irã afirmava não ter realizado nenhum ataque. Após sua declaração, vozes azerbaijanas e turcas passaram a invocar o acordo de defesa mútua entre os dois países para pressionar por uma ação conjunta contra Teerã — alavancando a política externa turca para além dos limites que Ancara havia estabelecido.

Consequências para a ordem regional e a autonomia periférica

O padrão de provocações revela a lógica do projeto hegemônico: quando um ator regional resiste à incorporação ao bloco liderado pelos EUA-Israel, instrumentos de pressão são acionados — incidentes fabricados, aliados regionais mobilizados, narrativas de ameaça construídas. A Turquia, país de renda média com ambições de potência regional, experimenta em tempo real as limitações impostas à autonomia de Estados que operam na semiperiferia do sistema internacional.

O analista político turco Mehmet Ali Güller, autor do artigo base desta análise, observa que cada intervenção norte-americana no Oriente Médio desde 1991 produziu consequências negativas para Ancara — e que uma guerra prolongada contra o Irã as amplificaria dramaticamente. A resistência turca, portanto, não é apenas uma postura tática: é uma tentativa de preservar margem de manobra em um ambiente crescentemente hostil à multipolaridade.

Para os países que buscam escapar da lógica de blocos impostos pelos centros de poder, o caso turco é um alerta: a resistência à incorporação é possível, mas cara. E as ferramentas de coerção — mísseis que “erram” de destino, drones que “surgem” sem autoria — tornaram-se parte do repertório de pressão da ordem unipolar em declínio.


Referências

GÜLLER, Mehmet Ali. “Can Turkiye sustain its policy of ‘controlled neighborhood’?” The Cradle, 10 mar. 2026.

Crisis Group. “Hayat Tahrir al-Sham”. International Crisis Group.

WALLERSTEIN, Immanuel. The Modern World-System. Academic Press, 1974.

AMIN, Samir. Eurocentrism. Monthly Review Press, 1989.

BARAKAT, Sultan. “Post-Assad Syria and the risk of fragmentation”. Brookings Institution, 2025.

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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