Conflito Irã-EUA: Análise de Jiang Xueqin e Previsões

O ataque ao Irã confirmou previsão de Jiang Xueqin feita em janeiro. O paradoxo imperial americano que tornou a guerra estruturalmente inevitável.
Pessoas observam a fumaça subir no horizonte após uma explosão em Teerã, Irã, no sábado, 28 de fevereiro de 2026. — AP
Coluna de fumaça na capital iraniana — marco visual das explosões reportadas. [AP]

Em janeiro de 2026, o acadêmico sino-canadense Jiang Xueqin descreveu com precisão o roteiro do conflito que eclodiu em 28 de fevereiro. Sua metodologia, sua tese sobre colapso imperial americano e o dilema estrutural que nenhum lado consegue resolver.

O ataque dos EUA e Israel ao Irã — iniciado na madrugada de 28 de fevereiro com a “Operation Epic Fury” americana e a “Roaring Lion” israelense — confirmou ponto a ponto uma análise feita um mês antes pelo professor Jiang Xueqin: a guerra era estruturalmente inevitável. O paradoxo que ele identificou, porém, persiste intacto. Washington não pode não atacar. E pode não conseguir vencer.

O ataque ao Irã que um professor havia descrito em janeiro

O ataque dos EUA e Israel ao Irã foi anunciado ao mundo pelo próprio Donald Trump no dia 28 de fevereiro. A operação americana recebeu o nome “Operation Epic Fury”; a israelense, coordenada simultaneamente, foi chamada de “Roaring Lion” pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. As primeiras explosões foram registradas em Teerã, Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah. Poucas horas depois, o Irã retaliou com dezenas de mísseis balísticos contra Israel e bases militares dos EUA na Jordânia, Síria, Kuwait, Barém, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Esse roteiro havia sido descrito com precisão desconcertante em uma entrevista publicada em janeiro no canal do jornalista Danny Haiphong, no YouTube. O interlocutor era Jiang Xueqin — acadêmico sino-canadense radicado em Xangai, conhecido por combinar teoria dos jogos, realismo estrutural e o que ele mesmo chama de “psico-história aplicada”, em referência ao universo ficcional de Isaac Asimov. Jiang previu não apenas o conflito, mas o paradoxo central que o estrutura: os EUA não podem permitir que o Irã permaneça intacto, mas tampouco podem vencê-lo com facilidade. Esse dilema, segundo ele, é a chave de toda a crise.

mapa do Estreito de Hormuz ataque EUA Israel Irã
O Estreito de Hormuz — por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial — é o gargalo energético que transforma o conflito regional em risco sistêmico global.

Por que o contexto iraniano tornava o confronto previsível

A análise de Jiang não partiu do nada. Ela se articulava sobre uma crise real e documentada. A partir de dezembro de 2025, o rial iraniano atingiu a mínima histórica de 1,45 milhão por dólar — uma desvalorização de 40% em relação ao período anterior à guerra de doze dias com Israel, em junho de 2025. Os preços ao consumidor subiram 52% em termos anuais, segundo o Centro Estatístico do Irã, tornando bens essenciais inacessíveis para amplas camadas da população.

As manifestações, que começaram com lojistas do bazar eletrônico de Teerã, rapidamente incorporaram demandas políticas e se espalharam por todos os 31 províncias do país — tornando-se as mais extensas desde a revolução de 1979. O cenário parecia o de uma “revolução colorida” em curso, como Jiang havia descrito: crise econômica gerando protestos, protestos sendo amplificados por campanha informacional, e a tentativa de criação de justificativa moral para intervenção externa. A diferença, segundo o professor, era que o regime iraniano tinha aprendido com ciclos anteriores — e sabia como resistir.

“Os EUA não podem permitir que o Irã permaneça intacto — mas também não podem vencê-lo com facilidade. É esse paradoxo que estrutura tudo.” – Jiang Xueqin, janeiro de 2026

A diplomacia ainda tentou uma saída. Em 6 de fevereiro, EUA e Irã realizaram negociações nucleares indiretas em Muscat, capital de Omã. Uma segunda rodada estava prevista para Genebra. Mas os termos americanos — fim completo do enriquecimento de urânio, limites severos ao programa de mísseis e suspensão do apoio a grupos como Hamas, Hezbollah e Houthis — eram inaceitáveis para Teerã. As negociações colapsaram. Os bombardeios começaram na manhã seguinte.

O método de Jiang Xueqin e a lógica do colapso imperial americano

Jiang encerra sua análise com uma analogia ao livro A Guerra do Peloponeso, de Tucídides: Atenas tornou-se imperialista após as Guerras Médicas, superestendeu recursos em conflitos externos, gerou guerra civil interna e foi derrotada quando seus rivais se uniram. Para o professor, os EUA repetem esse padrão — conceito que o historiador Paul Kennedy sistematizou em Ascensão e Queda das Grandes Potências como imperial overstretch: a superextensão militar e financeira que precede historicamente o declínio das potências hegemônicas.

Ao lançar ataques ao Irã enquanto mantém tropas na Ucrânia, tensiona o Caribe e avança sobre a Groenlândia, Washington acumula frentes simultâneas que, segundo esse diagnóstico, aceleram a erosão de capacidade e credibilidade. O paradoxo é estrutural: não atacar mina a Pax Americana. Atacar pode minar o próprio império.

Por que o ataque ao Irã é diferente do Iraque e da Líbia

Ideologia, terreno e descentralização do poder

Um dos argumentos centrais de Jiang é que o Irã não pode ser tratado como o Iraque de 2003 ou a Líbia de 2011. Três vantagens estruturais o diferenciam. Primeiro, a base ideológica do clero xiita, com legitimidade popular e cultura de martírio que historicamente fortalece a coesão interna sob pressão externa — fator documentado pelo especialista Michael Axworthy em Irã: Uma História. Segundo, a extensão territorial e o relevo montanhoso, que tornam uma invasão terrestre logisticamente inviável. Terceiro, a descentralização do poder entre Guardas da Revolução, estruturas regionais e autoridades religiosas: a eliminação da liderança central não resolve o conflito — pode amplificá-lo.

Os primeiros dados do ataque de 28 de fevereiro já ilustram essa resistência. O paradeiro do líder supremo Ali Khamenei, 86 anos, tornou-se incerto após ataques israelenses ao seu complexo em Teerã; autoridades israelenses avaliaram que ele poderia ter sido ferido, sem confirmação de nenhuma das partes. Mesmo diante disso, a retaliação iraniana — batizada de “True Promise 4” pelo IRGC — foi descrita pelo próprio Corpo da Guarda Revolucionária como a “primeira fase” de uma resposta organizada e progressiva.

O Estreito de Hormuz: quando o conflito regional vira choque sistêmico

O elemento mais subestimado da cobertura convencional é o Estreito de Hormuz. Por ali passa aproximadamente 20% do petróleo comercializado no planeta. Um fechamento — mesmo parcial — geraria crise energética imediata no Japão, na Coreia do Sul e na China, nações com alta dependência de importações do Golfo. Esse impacto em cascata é o que transforma, na análise de Jiang, um conflito regional em risco de ruptura sistêmica global.

A tese converge com o conceito de weaponized interdependence, desenvolvido por Henry Farrell e Abraham Newman: o controle de gargalos logísticos e energéticos é uma forma de coerção que os EUA têm exercido sistematicamente — e que o Irã, pela primeira vez desde 1979, ameaça virar contra o sistema. Netanyahu afirmou que a operação militar “continuará pelo tempo que for necessário.” Os mercados já reagiram com alta do petróleo e aumento da volatilidade cambial.

Israel e EUA: convergência estratégica, não subordinação

A entrevista de Jiang é precisa em um ponto que leituras simplistas distorcem: Israel não aparece em sua análise como o ator que “controla” Washington por via de lobby doméstico. Aparece como parceiro operacional estratégico — com interesses próprios na neutralização do regime iraniano e dependência do poder militar americano para qualquer confronto decisivo. Fontes israelenses descreveram a operação como planejada por meses e com coordenação “excepcionalmente estreita” entre o IDF e o Comando Central americano. Essa distinção é analiticamente relevante: atribui a Washington responsabilidade própria pela escalada — não a desvia para dinâmicas de influência política doméstica.

O que esse conflito significa para quem está fora do tabuleiro

Para países que não são parte direta do confronto, o cenário combina oportunidade e risco de forma incômoda. A alta do petróleo beneficia exportadores como o Brasil, mas um choque energético global pressiona inflação e câmbio ao mesmo tempo. A fragmentação diplomática cria espaço para posições de neutralidade pragmática — mas também gera pressão crescente por alinhamento. As reações globais ao ataque foram polarizadas: países europeus pediram contenção, enquanto o paradeiro do líder iraniano permanecia incerto. A Rússia condenou os ataques como ato de agressão; a China permaneceu em silêncio calculado.

Esse silêncio chinês é, ele mesmo, um dado analítico. Pequim tem interesse direto na estabilidade iraniana como parte do corredor eurasiático de sua Iniciativa Cinturão e Rota. Não pode ignorar o ataque, mas também não pode escalar verbalmente sem custos. Como escreveu Vijay Prashad sobre conflitos anteriores no arco que vai do Mediterrâneo ao Golfo, as economias periféricas pagam o preço, em inflação e desestabilização, das guerras que os centros de poder projetam.

Vetor de RiscoNível (1–5)Status (28 fev. 2026)
Escalada militar◉◉◉◉◉Combate direto em curso; retaliação iraniana em múltiplos países
Choque energético◉◉◉◉◉Mercados em alta; Hormuz sob ameaça latente
Ruptura diplomática◉◉◉◉◉Negociações em Omã encerradas; 2ª rodada cancelada
Contágio financeiro◉◉◉◉Volatilidade elevada; câmbio e petróleo pressionados
Conflito entre potências◉◉◉◉Rússia condenou; China em silêncio estratégico

O que a entrevista de Jiang Xueqin oferece não é profecia. É estrutura analítica. O ataque ao Irã materializa o cenário que ele descreveu — mas não resolve o paradoxo que o gerou. Se Washington vencer rapidamente, legitima a hegemonia ao custo de abrir precedente para escalada futura. Se o conflito se prolongar, valida exatamente o diagnóstico de overstretch que Jiang invoca. O dilema não começou em 28 de fevereiro. E não termina com os primeiros mísseis.


Referências

  1. Axios. U.S. and Israel begin “major combat operations” in Iran. 28 fev. 2026. axios.com
  2. Fox News. US, Israel launch attack on Iran — Operation Epic Fury. 28 fev. 2026. foxnews.com
  3. CBS News. Live Updates: Iran retaliates after U.S.-Israel strikes. 28 fev. 2026. cbsnews.com
  4. Al Jazeera. Why are the US and Israel attacking Iran? What we know so far. 28 fev. 2026. aljazeera.com
  5. The Jerusalem Post. Ali Khamenei cut off from contact as Israel, US strike Iran. 28 fev. 2026. jpost.com
  6. AP News. Russia condemns US-Israel strikes on Iran as ‘unprovoked act of armed aggression’. 28 fev. 2026. apnews.com
  7. Wikipedia. 2026 Israeli–United States strikes on Iran. en.wikipedia.org
  8. GlobalSecurity.org. Operation Roaring Lion. globalsecurity.org
  9. Wikipedia. 2025–2026 Iranian protests. en.wikipedia.org
  10. The Soufan Center. Eruption of Iran Unrest Scrambles U.S. and Regional Calculations. 7 jan. 2026. thesoufancenter.org
  11. House of Commons Library. Iran: What challenges face the country in 2026? commonslibrary.parliament.uk
  12. Le Monde. US strikes on Iran reignite fears of rising oil prices. 28 fev. 2026. lemonde.fr
  13. Kennedy, Paul. Ascensão e Queda das Grandes Potências. Rio de Janeiro: Campus, 1989.
  14. Axworthy, Michael. Irã: Uma História. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
  15. Mearsheimer, John. A Tragédia da Política das Grandes Potências. Rio de Janeiro: Odisseia Editorial, 2007.
  16. Prashad, Vijay. Nações Escuras: Uma Biografia do Mundo Afro-Asiático. São Paulo: Boitempo, 2012.
  17. Farrell, H.; Newman, A. Weaponized Interdependence. International Security, Vol. 44, No. 1, 2019.
  18. Canal Danny Haiphong (YouTube). Entrevista com Jiang Xueqin, janeiro de 2026.

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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