A ONU confirmou crimes de guerra em El-Fasher: a captura pela RSF em outubro de 2024 envolveu milhares de mortes civis, estupros em massa e destruição sistemática. O relatório do Alto Comissariado para os Direitos Humanos não deixa ambiguidade — mas a guerra continua, as armas fluem e a comunidade internacional permanece paralisada. Por quê?
O massacre documentado
Em 25 de outubro de 2024, após meses de cerco, as Forças de Apoio Rápido (RSF) tomaram El-Fasher, capital do Darfur do Norte e último bastião do exército sudanês na região. O relatório divulgado pela ONU em fevereiro de 2026 documenta execuções sumárias, violência sexual generalizada contra mulheres e meninas, saques sistemáticos e destruição deliberada de hospitais, escolas e mesquitas.
As Forças de Apoio Rápido são uma milícia paramilitar sudanesa criada em 2013, originada das Janjaweed — grupos responsáveis pelo genocídio de 2003 no Darfur, que matou cerca de 300 mil pessoas. Hoje, sob comando de Mohamed Hamdan Dagalo (Hemedti), a RSF opera como exército privado com armamento pesado, blindados e financiamento via exportação ilegal de ouro.
Segundo o relatório, pelo menos 2.500 civis foram mortos nos primeiros dias da captura. Centenas de milhares fugiram para o Chade, atravessando o deserto em condições desumanas. A violência não foi acidental — foi sistemática, coordenada e direcionada contra grupos étnicos específicos, sobretudo as comunidades Masalit e Fur.

Crimes de guerra sistemáticos: além da narrativa “exército vs. milícia”
O enquadramento dominante reduz o conflito sudanês a um embate entre forças oficiais e milícia rebelde — uma leitura que obscurece a estrutura real da guerra. A RSF não é força insurgente periférica: é aparato paramilitar institucionalizado, equipado com drones, artilharia pesada e logística transnacional.
Hemedti não é apenas comandante militar — é empresário que controla minas de ouro, operador de rotas migratórias e intermediário de interesses regionais. A RSF não luta por ideologia, mas por controle territorial, econômico e político. E conta com patrocinadores externos decisivos.
Os financiadores da guerra
Enquanto a ONU documenta atrocidades, os Emirados Árabes Unidos fornecem armas, logística e apoio financeiro à RSF. Um relatório de especialistas da ONU de janeiro de 2025 confirmou o fornecimento de drones Calidus B-250 e sistemas antiaéreos pelos Emirados, violando embargo de armas estabelecido em 2004.
Abu Dhabi vê no Sudão peça estratégica: acesso ao ouro, influência no Mar Vermelho, controle de rotas comerciais e contenção de rivais regionais como Egito, Etiópia e Turquia. O tráfico de ouro sudanês — estimado em US$ 3 bilhões anuais — flui principalmente através dos Emirados, financiando a capacidade militar da RSF.
Do outro lado, o exército sudanês recebe apoio do Egito, que teme o avanço da RSF em sua fronteira sul, e suporte logístico da Rússia — interessada em manter o acordo para base naval em Port Sudan e projetos de mineração. O conflito armado que começou em abril de 2023 não é guerra civil: é confronto por procuração, travado com recursos externos, onde sudaneses morrem para servir interesses alheios.
A paralisia institucional
O relatório da ONU é tecnicamente impecável e moralmente inequívoco. E completamente ineficaz. O Conselho de Segurança não consegue aprovar sequer embargo de armas — Rússia e China bloqueiam, protegendo aliados. A União Africana permanece inoperante. A Corte Penal Internacional emitiu mandados de prisão que ninguém cumpre.
A doutrina de “responsabilidade de proteger”, criada justamente para prevenir genocídios após Ruanda e Srebrenica, virou retórica vazia. Porque a arquitetura global de proteção humanitária funciona apenas onde há pressão política suficiente para gerar consequências. No Sudão, não há.
Não há cobertura midiática sustentada. Não há mobilização pública no Ocidente. Não há interesse econômico direto das grandes potências em interromper a guerra — apenas em garantir vitória de seus aliados locais. El-Fasher é descartável. Darfur é descartável. Os 25 milhões de sudaneses que necessitam ajuda humanitária urgente são descartáveis.
Até deixarem de ser. Porque a desestabilização do Sudão alimenta fluxos migratórios para a Europa via Líbia, fortalece redes de tráfico humano no Sahel, e empurra a região inteira para colapso alimentar — com repercussões que Bruxelas e Washington não poderão ignorar indefinidamente.
A farsa exposta
Se a ONU documenta crimes contra a humanidade e nada acontece, para que serve a documentação? Se há embargo de armas no papel mas os Emirados seguem fornecendo drones e o Egito blindados, o que significa “direito internacional”? Se El-Fasher cai, milhares morrem e o mundo continua girando, o que restou da promessa de que “nunca mais” significava algo?
O conflito no Sudão não expõe apenas a brutalidade de atores locais. Expõe a seletividade do sistema inteiro — onde soberania humanitária é privilégio geográfico, responsabilidade internacional é discurso performático, e a ordem global protege não pessoas, mas interesses. A ONU documenta. O mundo ignora. E a guerra segue.
Referências
- Reuters: RSF committed atrocities during El Fasher capture, UN human rights body says
- The New York Times: How the Emirates Fueled Sudan’s War
- UN Security Council: Panel of Experts Report on Sudan
- Human Rights Watch: Sudan – Mass Atrocities in Darfur
- OCHA: Sudan Humanitarian Update
- Al Jazeera: Sudan’s RSF takes control of El-Fasher



Você precisa fazer login para comentar.