CRINK: A Nova Convergência de Poderes Globais

O CRINK reuniu seus líderes pela primeira vez em Pequim. China, Rússia, Irã e Coreia do Norte mostram que pressão ocidental tem efeito colateral geopolítico.
Xi Jinping, Vladimir Putin e Kim Jong-un no palanque da Torre Tiananmen durante o desfile militar de 3 de setembro de 2025, com Masoud Pezeshkian entre as delegações presentes
A primeira aparição pública conjunta dos líderes do CRINK tornou-se a imagem-síntese do desafio ao ordenamento internacional liderado pelos Estados Unidos — CC BY 4.0

O primeiro encontro público dos líderes do CRINK — China, Rússia, Irã e Coreia do Norte — em Pequim, em setembro de 2025, não foi protocolo: foi a demonstração mais explícita até hoje de que as sanções ocidentais aceleraram exatamente a coalizão que tentavam conter.

Em 3 de setembro de 2025, pela primeira vez na história, Xi Jinping, Vladimir Putin e Kim Jong-un subiram juntos ao palanque da Torre Tiananmen — evento que celebrou os 80 anos da vitória chinesa na Segunda Guerra Mundial e reuniu 26 líderes estrangeiros. O presidente iraniano Masoud Pezeshkian também estava presente, em posição menos proeminente no palanque, mas igualmente simbólica. Nenhum roteirista geopolítico da última década teria apostado ver essa imagem tão cedo.

O desfile do Dia da Vitória da China de 2025 foi um desfile militar realizado na Avenida Chang'an, em Pequim, no dia 3 de setembro de 2025, para celebrar o 80º aniversário da vitória na Segunda Guerra Sino-Japonesa e na Segunda Guerra Mundial.
O desfile do Dia da Vitória da China de 2025 foi um desfile militar realizado na Avenida Chang’an, em Pequim, no dia 3 de setembro de 2025, para celebrar o 80º aniversário da vitória na Segunda Guerra Sino-Japonesa e na Segunda Guerra Mundial. — CC BY 4.0

Por Que o Evento Importa Além das Câmeras

O desfile expôs ao mundo o arsenal do Exército de Libertação Popular — mísseis nucleares das séries Dongfeng, drones submarinos de grande alcance e o primeiro tanque de quarta geração chinês. Mas a mensagem central não estava nas armas. Estava nas presenças.

Em perspectiva analítica: para Pequim, o evento cumpriu função dupla — projetar capacidade militar e demonstrar que a China consegue reunir uma constelação de países que Washington trata como párias. O resultado foi um enquadramento narrativo alternativo à chamada “ordem baseada em regras”, transmitido em tempo real para bilhões de pessoas.

CRINK: O Que é o Bloco e Por Que Ele Existe

O termo CRINK — sigla em inglês para China, Rússia, Irã e Coreia do Norte — não nomeia uma aliança com cláusulas de defesa mútua. Nomeia uma convergência de interesses construída, em parte considerável, pela própria pressão ocidental. Todos os quatro países operam sob sanções, embargo ou restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos e aliados.

Em janeiro de 2025, Rússia e Irã assinaram uma parceria estratégica de 20 anos cobrindo cooperação bancária, energia, defesa e contorno de sanções. A Coreia do Norte forneceu à Rússia munição e mísseis balísticos; em troca, Pyongyang recebeu acesso a tecnologias militares russas. Tropas norte-coreanas chegaram à Rússia em outubro de 2024 para apoiar a guerra na Ucrânia — violação direta de resoluções do Conselho de Segurança da ONU, cujo mecanismo de monitoramento foi esvaziado após veto russo em 2024.

O Petróleo como Escudo Contra Sanções

O eixo energético é o mais concreto do bloco. A China absorveu, em média, 1,38 milhão de barris diários de petróleo iraniano ao longo de 2025 — mais de 80% de toda a exportação rastreável do Irã, segundo dados da Kpler citados pela Reuters. O petróleo chega às refinarias independentes de Shandong com desconto de US$ 8 a US$ 10 por barril em relação ao mercado internacional.

Fato documentado: a chamada “frota sombra” — petroleiros que transportam petróleo sancionado com documentação de terceiros países, como Malásia e Indonésia — tornou-se mecanismo estrutural de contorno, registrado pelo relatório SHIP Act da Agência de Informação de Energia dos EUA (EIA, 2025). Em fevereiro de 2025, o governo Trump prometeu reduzir as exportações iranianas a 100 mil barris diários. Naquele mesmo mês, o Irã exportava 1,6 milhão.

A Desdolarização como Infraestrutura de Resistência

Além do petróleo, Rússia e Irã já conduzem transações em moedas nacionais. A China desenvolve sistemas de pagamento deliberadamente desconectados do circuito dominado pelo dólar. Não é uma alternativa pronta — é uma infraestrutura em construção cujo objetivo imediato é reduzir a eficácia de sanções futuras.

Os Limites Reais do Bloco

Análise: o encontro de Pequim foi exibição de solidariedade, não declaração de aliança. Os limites são reais e documentados.

O comércio bilateral China-Rússia encerrou 2025 com queda de 6,9% — primeira retração anual em cinco anos, segundo dados alfandegários chineses compilados pela Reuters e pelo instituto MERICS. Empresas chinesas de grande porte continuam evitando contratos diretos com entidades russas sancionadas, por receio de punições secundárias americanas. A posição menos proeminente de Pezeshkian no palanque não passou despercebida por analistas do Instituto RSIS de Singapura: a China calcula riscos de forma distinta de seus parceiros, pois sua prosperidade depende de acesso contínuo ao comércio internacional.

Opinião editorial: o paradoxo estratégico é claro. Quanto mais severa a pressão ocidental, mais coesa tende a se tornar a rede de contorno. A política de sanções máximas tem produzido resultados que contradizem seus próprios objetivos declarados — e os números de exportação iraniana são a evidência mais direta disso.

Potências Médias num Sistema em Bifurcação

O Brasil foi representado em Pequim por Celso Amorim e Dilma Rousseff, à frente do Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS. A presença discreta, mas deliberada, ilustra o dilema de países que não participaram da elaboração das sanções e tampouco se sentem compelidos a respeitá-las — mas que também não querem escolher um dos polos do conflito.

O desfile de 3 de setembro não inaugurou uma nova Guerra Fria. Tornou visível — e fotografável — que as regras do sistema internacional estão sendo reescritas, e que essa reescrita já tem endereço, rosto e câmera apontada.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

Leia os destaques: