A questão curda voltou ao centro do tabuleiro geopolítico do Oriente Médio — não por iniciativa própria, mas arrastada pelo confronto entre Estados Unidos, Israel e Irã. O povo mais numeroso do mundo sem Estado vê-se, mais uma vez, convocado a lutar guerras alheias em troca de promessas que a história já mostrou nunca serem cumpridas.
O que está acontecendo agora com os curdos
A CIA está trabalhando para armar forças curdas com o objetivo de fomentar um levante popular no Irã. A administração Trump manteve discussões ativas com grupos de oposição iraniana e líderes curdos no Iraque sobre fornecimento de apoio militar. Ao mesmo tempo, em janeiro de 2026, o governo de transição sírio lançou uma ofensiva militar contra os territórios controlados pelos curdos no nordeste da Síria, confinando as Forças Democráticas Sírias (FDS) a enclaves progressivamente menores.
O padrão é antigo e bem documentado. Os curdos da Síria foram aliados dos EUA desde outubro de 2014, quando combatentes curdos começaram a auxiliar forças especiais americanas contra o Estado Islâmico. Ao longo de uma década, as FDS montaram e policiaram grandes centros de detenção para combatentes capturados do ISIS. Quando Washington não precisou mais deles na Síria, o envolvimento estratégico dos EUA deslocou-se para Damasco, e o papel e sacrifício das FDS como parceiros na luta contra o ISIS não foi levado em conta no momento mais crítico.

Por que a questão curda é estrutural, não conjuntural
Os curdos são um grupo étnico espalhado pelas montanhas da Turquia, Irã, Iraque, Síria e Armênia, deixados sem Estado há mais de um século, navegando entre fronteiras e disputas de poder que repetidamente minaram suas aspirações de autonomia. Com uma população estimada entre 30 e 40 milhões de pessoas, são amplamente reconhecidos como o maior povo sem Estado do mundo.
Essa condição não é acidente histórico — é resultado de uma decisão política deliberada. O Tratado de Lausanne (1923) dividiu as terras habitadas pelos curdos entre as recém-formadas fronteiras de Turquia, Iraque, Síria e Irã, deixando-os como minorias em todos os países que habitavam. As potências ocidentais — as mesmas que hoje os recrutam — foram as arquitetas desse desmembramento.
A lógica do uso instrumental: aliados quando conveniente, descartados quando incômodos
A frase do ex-enviado especial dos EUA James Jeffrey resume com precisão o que Washington pensa de seus parceiros curdos: a aliança com as FDS sempre foi considerada “temporária, tática e transacional”, com comprometimento apenas para defendê-los militarmente do Estado Islâmico — não das forças sírias, russas, iranianas ou turcas.
Muitos funcionários da administração Trump alertaram privadamente sobre a desilusão que as forças curdas sentiram ao trabalhar com os EUA no passado, e suas frequentes queixas de terem sido “deixadas para trás” pelos americanos. Um funcionário sênior do Governo Regional do Curdistão foi mais direto: “Um dia Trump diz que vamos derrubar o regime, no outro diz algo diferente. A política não é clara.”
No campo sírio, meses de negociações mediadas pelos EUA falharam em conciliar as exigências curdas de autonomia com as demandas de Damasco — e, sobretudo, com os requisitos da Turquia, que pressionou por uma zona de influência no norte da Síria livre de grupos curdos armados. Ancara prevaleceu. Os curdos cederam território.
O conflito Irã–EUA e o novo ciclo de instrumentalização
O atual confronto entre Washington e Teerã reativa a mesma lógica. Relatórios de que a CIA está recrutando grupos armados curdos no Irã e no Iraque colocaram os curdos novamente no centro das tensões geopolíticas. As dinâmicas regionais são amplificadas pela pressão militar dos EUA e de Israel sobre Teerã, criando um ambiente em que milícias curdas consideram ação direta contra forças de segurança iranianas.
O risco é imenso e historicamente previsível. Se o levante falhar — ou se Washington mudar de prioridade —, há a preocupação de que isso reforce a narrativa de abandono dos curdos. Não seria a primeira vez: da Revolta de Barzani em 1975, financiada pela CIA e abortada após o Acordo de Argel entre EUA e Irã, ao abandono das FDS na Síria em 2019 e novamente em 2026, o ciclo se repete com precisão cruel.
O que resta aos curdos
Apesar dos retrocessos recentes, líderes políticos curdos demonstraram que permanecem relevantes e capazes de cooperação transfronteiriça. Relações entre o comandante das FDS, Mazloum Abdi, e o presidente do Governo Regional do Curdistão, Masoud Barzani, se aprofundaram — e esse fortalecimento de laços pode ajudar a preservar direitos curdos à medida que acordos são implementados.
A pergunta que o momento impõe não é se os curdos devem lutar, mas por quem e em nome de quê. A integração nos países onde vivem — Turquia, Síria, Iraque, Irã — é um caminho espinhoso, mas é o único que não depende de promessas de potências que historicamente os usaram como peças descartáveis em jogos maiores. Como escreveu o geógrafo Mehmet Uzun: “Os curdos não têm amigos além das montanhas.” O momento exige que construam também alianças dentro dos vales.
Referências
- CNN — CIA working to arm Kurdish forces to spark uprising in Iran (03/03/2026)
- Chatham House — What recent developments in Syria mean for the Kurds (fev. 2026)
- Wikipedia — 2026 northeastern Syria offensive
- The Soufan Center — Syrian Offensive Against Kurds in Aleppo (jan. 2026)
- Modern Diplomacy — The Kurds: A Century-Long Struggle (05/03/2026)
- Quillette — How the West Betrayed Its Kurdish Allies—Again (fev. 2026)
- Manara Magazine — The Future of Rojava: Kurdish Autonomy Under Threat in Syria (jan. 2026)
- Business Standard — Israel-Iran conflict: Who are the Kurds (05/03/2026)



Você precisa fazer login para comentar.