A participação do dólar nas reservas globais atingiu 56,9% em 2025 — mínimo histórico em três décadas. Bancos centrais compraram mais ouro do que Treasuries pela primeira vez desde 1996. Esses números confirmam uma transição sistêmica em curso: não um colapso, mas uma reconfiguração estrutural da ordem financeira global.
O dólar americano dominou o sistema monetário internacional por mais de oito décadas. Os dados de 2025, porém, confirmam o que economistas heterodoxos alertavam há anos: a moeda americana perdeu participação nas reservas cambiais globais para o menor patamar em mais de 30 anos — 56,9%, segundo os dados do FMI referentes ao terceiro trimestre. Ao mesmo tempo, bancos centrais acumulam ouro em volumes recordes, e o metal voltou a superar títulos do Tesouro americano como principal ativo de reserva desde 1996. O sistema está mudando — de forma estrutural e persistente.
A arquitetura do privilégio: Bretton Woods e o “exorbitant privilege” do dólar
Para entender o que está em disputa, é preciso retornar a julho de 1944. Na conferência de Bretton Woods, em New Hampshire, 44 nações estabeleceram um novo regime monetário com o dólar como âncora central — lastreado ao ouro na proporção de US$ 35 por onça. O economista John Maynard Keynes propôs uma moeda supranacional, o bancor, para evitar que qualquer nação acumulasse poder excessivo de emissão. Perdeu para a delegação americana.
O resultado foi o que o economista belga Robert Triffin descreveu como um dilema estrutural: o país emissor da moeda de reserva acumula déficits externos permanentes para abastecer o mundo com liquidez — mas esses déficits corroem, com o tempo, a própria confiança na moeda. Em 1971, Richard Nixon encerrou a conversibilidade dólar-ouro — o chamado Nixon Shock — transformando o sistema em regime de moeda fiduciária pura. O “privilégio exorbitante”, expressão cunhada pelo ministro francês Valéry Giscard d’Estaing, se manteve. A vulnerabilidade sistêmica foi institucionalizada junto com ele.
Desdolarização estrutural: o que os dados de 2025 realmente revelam
A desdolarização não é uma narrativa ideológica — é um fenômeno documentado por organismos multilaterais. O relatório COFER do FMI registra uma queda consistente da participação do dólar ao longo de décadas: de cerca de 71% em 2000 para menos de 57% atualmente.
Fato verificado: A participação do dólar nas reservas recuou para 56,92% no terceiro trimestre de 2025, segundo dados do FMI divulgados em dezembro de 2025. O próprio FMI, no entanto, ressalta que grande parte das variações trimestrais reflete efeitos cambiais — o índice do dólar (DXY) caiu mais de 10% no primeiro semestre de 2025, sua maior queda desde 1973 — e não necessariamente realocações ativas de portfólio. A tendência de longo prazo, contudo, é inequívoca: queda de quase 9 pontos percentuais na última década, segundo análise do OMFIF (Official Monetary and Financial Institutions Forum).

Mais revelador é o movimento em direção ao ouro. Em 2025, pela primeira vez desde 1996, bancos centrais detêm mais ouro do que títulos do Tesouro americano como parcela das reservas oficiais — o ouro representa cerca de 27% das reservas totais, contra 23% dos Treasuries. Bancos centrais acumularam mais de 1.000 toneladas de ouro por três anos consecutivos desde 2022, com 2025 encaminhando-se para superar 900 toneladas, segundo projeções do J.P. Morgan Research.
Por que o ouro voltou ao centro das reservas — e o que isso diz sobre o dólar
A acumulação de ouro pelos bancos centrais não é nostalgia monetária. É uma resposta racional a riscos concretos. O ouro não pode ser sancionado, bloqueado ou desvalorizado por decreto de um governo estrangeiro.
Esse fator ganhou peso após 2022, quando os EUA congelaram cerca de US$ 300 bilhões em reservas soberanas russas, sinalizando a outros governos que manter reservas excessivas em dólares era uma vulnerabilidade geopolítica — não apenas financeira. A análise do Bank of America mostra que bancos centrais foram vendedores líquidos de Treasuries desde março de 2025, com aceleração após o episódio tarifário do “Liberation Day” de abril.
Análise: A chamada “armamentização do dólar” — uso do sistema financeiro como instrumento de pressão geopolítica — produziu o efeito colateral de acelerar a diversificação que os EUA pretendiam inibir. Como observa o economista Michael Hudson em Super Imperialism (2021), o privilégio do dólar permitiu aos EUA exportarem dívida ao mundo como se fosse riqueza. A erosão desse privilégio representa uma redistribuição real de poder financeiro global.
Alternativas em construção: BRICS, yuan e os limites do sistema emergente
O bloco BRICS — ampliado com novas adesões a partir de 2024 — tornou-se o principal fórum de articulação de alternativas ao sistema centrado no dólar. A ideia de mecanismos multilaterais de liquidação em moedas nacionais ganhou tração, ainda que enfrente obstáculos significativos.
O yuan chinês avança em acordos bilaterais com Rússia, Brasil, Argentina e países africanos, mas permanece limitado como moeda de reserva: sua participação nas reservas globais ficou estável em 2,12% no segundo trimestre de 2025, em parte pela persistência dos controles de capital da China. O euro detém cerca de 20%, sem demonstrar capacidade de assumir o papel de moeda de reserva universal. Previsões indicam que o dólar pode ceder até 10% de sua participação nas reservas globais ao longo da próxima década, com benefício distribuído entre moedas não-tradicionais — um processo de fragmentação, não de substituição.
Para economias periféricas do sistema, um regime mais multipolar pode representar menor dependência de decisões unilaterais de Washington. O risco simétrico é instabilidade cambial ampliada e ausência de uma arquitetura de referência consolidada.
O sistema que ninguém controla — e todos disputam
O sistema monetário internacional não será substituído por decreto. A desdolarização é um processo de décadas, condicionado por forças políticas, econômicas e geopolíticas que interagem de forma não-linear. O dólar permanece dominante — mas dominância declinante é, historicamente, o prelúdio de reorganizações sistêmicas profundas.
Pesquisa do World Gold Council indica que 73% dos bancos centrais esperam reduzir suas reservas em dólar nos próximos cinco anos, enquanto 76% pretendem ampliar posições em ouro. O que esse dado revela não é o fim do dólar — mas o fim da confiança incondicional nele. A construção de uma ordem monetária multipolar é, ao mesmo tempo, uma aposta de soberania financeira e um campo de disputa geopolítica que definirá as próximas décadas.
Referências
- FMI — COFER: Currency Composition of Official Foreign Exchange Reserves, Q3 2025
- FMI Blog — Dollar’s Share of Reserves Held Steady in Q2 When Adjusted for FX Moves, outubro 2025
- Visual Capitalist — Central Banks Now Hold More Gold Than U.S. Treasuries, outubro 2025
- WisdomTree — Central Banks, Gold and the Shifting Foundation of Reserves, setembro 2025
- OMFIF — Which currencies will benefit from dollar erosion?, janeiro 2025
- Federal Reserve — The International Role of the U.S. Dollar – 2025 Edition, julho 2025
- Michael Hudson — Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire, ISLET, 2021
- Rodrigue Tremblay — The Decline of the U.S. Dollar as World Reserve Currency, fevereiro 2026
- Robert Triffin — Gold and the Dollar Crisis, Yale University Press, 1960
- Barry Eichengreen — Exorbitant Privilege: The Rise and Fall of the Dollar, Oxford University Press, 2011



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