O Brasil chega a 2026 com uma economia em recuperação que ainda não chegou ao bolso do trabalhador, um presidente com rejeição histórica e um herdeiro político que aposta no sobrenome mais polarizador do país. Os dados do Datafolha divulgados em março revelam algo mais profundo que uma disputa eleitoral: revelam que o próximo pleito presidencial não será sobre candidatos, mas sobre projetos de país radicalmente opostos.
O que os números do Datafolha revelam sobre as eleições 2026
A pesquisa Datafolha divulgada entre os dias 6 e 7 de março de 2026 estabeleceu o novo ponto de partida da corrida presidencial. Lula lidera o primeiro turno com folga, mas enfrenta uma rejeição de 46% — praticamente empatada com os 45% registrados por Flávio Bolsonaro. No segundo turno simulado, a vantagem petista ainda existe: 51% a 36% em um recorte, e 46% a 43% em outro — empate técnico dentro da margem de erro.
O dado que mais incomoda o campo governista, porém, não está na disputa direta. Está no cenário alternativo: sem Lula, Fernando Haddad empata com Flávio, na casa dos 41% a 43%. A rejeição de Haddad é de apenas 27% — quase metade da de Lula. Esse contraste não é um detalhe estatístico. É um mapa de vulnerabilidades.

A ascensão de Flávio Bolsonaro: o bolsonarismo sem Bolsonaro
A oficialização da candidatura de Flávio Bolsonaro, anunciada pelo pai com o PL de pano de fundo, foi recebida com desconfiança pelo mercado financeiro: a Bolsa caiu 3,96% e o dólar disparou 2,35% no mesmo dia. O sinal é claro — para o capital financeiro, Flávio representa risco, não estabilidade. A reação contrasta com a recepção que Tarcísio de Freitas costuma receber nos mesmos ambientes.
Mas a candidatura de Flávio não foi feita para o mercado. Foi feita para o núcleo duro do bolsonarismo — estimado entre 25% e 30% do eleitorado —, para preservar o controle familiar sobre o movimento político construído pelo pai e para impedir que Tarcísio herde a sigla sem passar pela família. A declaração do próprio Flávio é emblemática: “O fato de eu ser Bolsonaro é uma vantagem.”
Isso é verdade dentro do ecossistema que criou o bolsonarismo. Fora dele, é uma prisão. Para chegar ao segundo turno com chances reais, Flávio precisaria ampliar sua base para além dos convertidos. Isso exige projeto econômico claro, ancoragem programática e capacidade de dialogar com o eleitorado de centro — justamente onde sua austeridade neoliberal encontra mais resistência entre aqueles que dependem de políticas públicas para sobreviver.
A analista política e colunista do GGN Maria Luiza Falcão sintetizou o dilema: Flávio carrega o sobrenome como capital eleitoral, mas o sobrenome é também seu teto. O movimento não tem projeto; tem ressentimento. E ressentimento, por si só, não governa.
O desafio de Lula: macroeconomia positiva, percepção popular negativa
O paradoxo do governo Lula em 2026 é estrutural: os indicadores macroeconômicos apontam recuperação — crescimento do PIB, queda do desemprego, valorização do salário mínimo — enquanto a percepção popular permanece negativa. A rejeição de 46% não é irracional. Ela reflete o hiato entre o que os números mostram e o que o trabalhador sente no fim do mês.
Esse fenômeno não é exclusivo do Brasil. É o mesmo que derrubou governos europeus que apresentavam dados macroeconômicos “saudáveis” enquanto parte significativa da população vivia sob pressão de preços, aluguel e endividamento. A macroeconomia favorável não se traduz automaticamente em melhoria da vida cotidiana, especialmente quando a recuperação concentra ganhos e distribui sacrifícios de forma desigual.
O governo aposta em dois ativos para superar esse hiato até outubro: o reposicionamento internacional do Brasil — protagonismo nos BRICS, inserção soberana na transição energética, aproximação com o Oriente Médio e o continente africano — e a continuidade de programas sociais que, mesmo com críticas, sustentam a base eleitoral petista nas regiões Norte e Nordeste. Entre os católicos, que representam 48% do eleitorado, Lula mantém 45% de intenção de voto. Entre os evangélicos (28% do eleitorado), Flávio já ultrapassa os 50%.
A disputa religiosa não é acidental. É a expressão de uma guerra cultural que os setores conservadores souberam instrumentalizar melhor que a esquerda. O campo progressista ainda não encontrou linguagem eficaz para falar com a pentecostalização do Brasil popular.
O tabuleiro da esquerda: PSOL diz não à federação, mas diz sim a Lula
Por 47 votos a 15, o PSOL rejeitou a proposta de federação com o PT. A decisão foi lida por alguns analistas como racha, mas é mais preciso interpretá-la como afirmação de identidade. O PSOL mantém a federação com a Rede, reafirma apoio a Lula no primeiro turno e preserva autonomia programática — especialmente nas disputas municipais e estaduais onde sua identidade importa mais que o palanque presidencial.
O papel de Guilherme Boulos nas negociações evidenciou as tensões internas entre uma ala que defende integração tática com o PT e outra que teme a dissolução da identidade psolista em uma legenda maior. A resistência venceu, mas não sem custo: a fragmentação do campo progressista em palanques regionais pode abrir espaços para o bolsonarismo em estados onde a esquerda dividida perde força.
Modelo de país em disputa: produtivismo versus austeridade
O que realmente está em jogo nas eleições 2026 transcende a disputa entre Lula e Flávio. É, como aponta a análise de Maria Luiza Falcão no GGN, uma disputa entre dois modelos econômicos incompatíveis: o modelo produtivista de Lula — que aposta em investimento público, reindustrialização, soberania energética e inserção autônoma no comércio global — versus a austeridade de Flávio, que repete a cartilha que o Brasil já testou entre 2016 e 2022 e que resultou em desindustrialização, precarização e retrocesso social.
O contexto internacional reforça essa disputa interna. O Brasil de Lula tem sido um dos principais articuladores da ampliação dos BRICS, da reforma da arquitetura financeira internacional e de uma ordem multipolar que reduza a dependência do dólar e das instituições de Bretton Woods. Uma vitória de Flávio significaria, na prática, o retorno ao alinhamento automático com Washington e o abandono da política externa independente que o país construiu desde a primeira metade do século XXI.
Como disse o economista Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP e autor de A Era do Capital Improdutivo: “A questão não é mais esquerda ou direita no sentido ideológico clássico. É entre quem produz riqueza real e quem extrai renda financeira.” Nessa chave, a disputa eleitoral de 2026 é também um campo de batalha entre economias de produção e economias de extração.
Por que o primeiro turno é a chave estratégica das eleições 2026
A estratégia do campo lulista é clara: vencer no primeiro turno. Não por conforto, mas por necessidade. Um segundo turno com Flávio Bolsonaro seria automaticamente uma guerra cultural de alta intensidade, com mobilização das bases mais radicais, contestação de resultados e risco real de instabilidade institucional — exatamente o roteiro de 2022, mas com um candidato que tem sobrenome e sem a desvantagem do incumbente desgastado.
Vencer no primeiro turno encerra o ciclo antes que ele se radicalice. Exige, no entanto, que o governo consiga traduzir recuperação macroeconômica em percepção popular de melhoria — tarefa que os próximos seis meses tornarão decisiva. O hiato entre indicadores e percepção não fecha sozinho. Fecha com comunicação eficaz, com transferência de renda, com emprego formal e com a sensação — não apenas o fato — de que o Brasil está melhorando.
A eleição de 2026 já tem seus contornos definidos. O que ainda não tem definição é se o Brasil vai escolher por aquilo que os números mostram ou por aquilo que o eleitor sente. Essa diferença, historicamente, decide presidências.
Referências
- BRASIL 247. Lula e Flávio Bolsonaro também empatam em rejeição, indica Datafolha. 07 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-e-flavio-bolsonaro-tambem-empatam-em-rejeicao-indica-datafolha
- BRASIL 247. Datafolha: Lula vence Flávio Bolsonaro por 15 pontos. 06 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/datafolha-lula-vence-flavio-bolsonaro-por-15-pontos
- BRASIL 247. Datafolha aponta empate entre Haddad e Flávio Bolsonaro em 2º turno sem Lula. 07 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/datafolha-aponta-empate-entre-haddad-e-flavio-bolsonaro-em-2-turno-sem-lula
- BRASIL 247. Lula lidera entre católicos e Flávio Bolsonaro avança entre evangélicos. 07 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/lula-lidera-entre-catolicos-e-flavio-bolsonaro-avanca-entre-evangelicos
- BRASIL 247. Por 47 a 15, Psol rejeita federação com o PT. 07 mar. 2026. Disponível em: https://www.brasil247.com/brasil/por-47-a-15-psol-rejeita-federacao-com-o-pt
- FALCÃO, Maria Luiza. O que está em jogo em 2026 — e por que a definição no primeiro turno é estratégica. Jornal GGN, 08 mar. 2026. Disponível em: https://jornalggn.com.br/opiniao/o-que-esta-em-jogo-em-2026-por-maria-luiza-falcao/
- FALCÃO, Maria Luiza. 2026: entre a reorganização da direita, a estabilidade econômica e o lugar do Brasil no mundo. Jornal GGN, 08 mar. 2026. Disponível em: https://jornalggn.com.br/opiniao/2026-pais-retoma-a-discussao-sobre-a-eleicao-presidencial-por-maria-luiza-falcao/
- JORNAL GGN. Bolsonaro oficializa Flávio como candidato em 2026; decisão derruba mercado. 08 mar. 2026. Disponível em: https://jornalggn.com.br/politica/bolsonaro-flavio-2026-mercado-queda/
- JORNAL GGN. Candidato “irreversível”: Flávio Bolsonaro exalta sobrenome e pressiona Tarcísio. 08 mar. 2026. Disponível em: https://jornalggn.com.br/politica/flavio-bolsonaro-candidatura-irreversivel/
- DOWBOR, Ladislau. A Era do Capital Improdutivo. São Paulo: Autonomia Literária, 2017.



Você precisa fazer login para comentar.