O conflito entre EUA, Israel e Irã ultrapassou o campo militar e chegou ao mercado de energia global. Com o Brent superando US$ 90 por barril e o Estreito de Ormuz operando perto de um paralisia — rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial —, o que está em jogo não é apenas o preço do combustível, mas a própria arquitetura da ordem internacional.
O petróleo como arma geopolítica no conflito Irã-EUA
Após oito dias de conflito aberto, o Estreito de Ormuz permanece em semiparalisação. Segundo dados rastreados pela Bloomberg, o tráfego marítimo caiu a um mínimo histórico: apenas petroleiros com vínculos iranianos seguem cruzando o estreito, enquanto o resto permanece à distância por causa do risco de mísseis e drones. O resultado direto é que países como Iraque e Kuwait reduziram a produção, com tanques de armazenamento transbordando sem escoamento possível.
O Brent encerrou a semana a mais de US$ 90 por barril, com analistas de mercado alertando que US$ 100 pode ser questão de tempo se o conflito persistir. A Morgan Stanley avalia que um choque de 75% a 100% nos preços do petróleo teria impacto severo sobre mercados acionários globais — uma deterioração que afetaria especialmente economias dependentes de importação de energia, da Ásia ao Sul da Europa.
A resposta da administração Trump revelou mais sobre o estado de desorientação estratégica de Washington do que sobre qualquer plano coerente: o Secretário do Tesouro Scott Bessent sugeriu a liberação temporária de sanções ao petróleo russo para compensar o déficit de oferta — uma admissão tácita de que a política de pressão máxima contra Moscou e Teerã está produzindo contradições insustentáveis.

A “ordem baseada em regras” e seus dois pesos, duas medidas
É aqui que a análise do economista Michael Hudson oferece o enquadramento mais preciso. Para Hudson, existe uma distinção fundamental entre o que os EUA chamam de “ordem baseada em regras” — expressão que aparece em cada comunicado do Departamento de Estado — e o direito internacional codificado desde a Paz de Vestfália (1648) e reafirmado na Carta da ONU (1945).
O princípio fundador desse ordenamento é a soberania nacional livre de interferência e coerção externas. Os EUA, argumenta Hudson, abandonaram qualquer pretensão de respeitar esse princípio. A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 estende a Doutrina Monroe a escala planetária, reivindicando o mundo inteiro como esfera de influência americana. O Secretário de Estado Marco Rubio chegou a classificar o Tribunal Penal Internacional como “ameaça à segurança nacional” — precisamente porque o TPI ousou acusar aliados americanos de crimes de guerra.
O ataque ao Irã se insere nessa lógica. Não se trata de legítima defesa nem de execução de uma resolução multilateral: trata-se de uma operação unilateral de “mudança de regime por pressão cinética”, que desconsidera soberania, direito humanitário e a própria estabilidade do sistema energético global. As alegações de sucesso militar, como aponta a análise de Yves Smith no Naked Capitalism, são em grande parte fabricadas por fontes do próprio IDF — e contradizidas por dados independentes, como os da própria defesa antiaérea dos Emirados Árabes Unidos, que reportou interceptar 15 mísseis balísticos e 119 drones num único dia, enquanto estatísticas “oficiais” americanas indicavam volumes muito menores para toda a região.
Narrativa de vitória, realidade de impasse
A dinâmica militar expõe uma contradição central: Washington e Tel Aviv precisam vender a narrativa de vitória para manter suporte doméstico, enquanto os fatos no campo apontam para um impasse crescente. Os estoques de armamento americano e israelense estão se estreitando. Planos vazados para enviar forças especiais a instalações nucleares iranianas — reportados pelo Axios — sugerem improvisação, não estratégia.
O Irã, por sua vez, adota uma lógica diferente. A chamada “diminuição das salvas” de mísseis, interpretada pela mídia pró-ocidental como sinal de derrota, é na verdade — como argumenta o analista Philip Pilkington — uma transição para volume sustentável de longo prazo: dezenas de hipersônicos não interceptáveis por dia, indefinidamente. O general iraniano afirmou que desde o início do conflito o país acelerou a produção de mísseis em escala de anos. Se verdadeiro, a equação militar se inverte progressivamente.
A Arábia Saudita, por sua vez, busca mediação com Teerã — sinal de que os próprios aliados regionais de Washington calculam que o custo do conflito prolongado os prejudica mais do que qualquer ganho geopolítico prometido pelos americanos.
Quando a periferia paga a conta do centro
O impacto mais imediato e brutal recai sobre países que não têm qualquer papel na disputa. Economias asiáticas dependentes de importação, nações africanas com orçamentos energéticos estreitos, refinarias indianas forçadas a renegociar suprimentos de emergência: todos absorvem o choque de preço produzido por uma guerra travada pelo centro do sistema internacional para manutenção de sua própria hegemonia.
A crise do Estreito de Ormuz recoloca, em termos concretos, o debate que Hudson articula em termos teóricos: ou o mundo aceita que as “regras” são aquelas que Washington decide, caso a caso, conforme seus interesses — ou a comunidade internacional reafirma que o direito internacional existe para proteger todos os Estados, não apenas os poderosos. O preço do barril acima de US$ 90 é, por ora, a cotação mais honesta desse dilema.
Referências
- Yves Smith, “Iran War: Brent Ends Week at Over $90 a Barrel”, Naked Capitalism, 7 mar. 2026.
- Yves Smith, “Iran War: More Trump Bluster as US and Israel Weapon Stocks Thin”, Naked Capitalism, 8 mar. 2026.
- Michael Hudson, “Today’s Global Choice – A U.S. Ruler-Based Order or International Law”, Naked Capitalism, 7 mar. 2026.
- Morgan Stanley Research, “Iran Conflict: What Escalation Could Mean for Global Markets”, mar. 2026.
- Bloomberg HORMUZ TRACKER, “Iran-Linked Ships Transit as Others Stay Away”, mar. 2026.
- Michael Hudson, The Destiny of Civilization (2022), Democracy Collaborative Press.



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