Um campo secreto instalado na Etiópia está treinando combatentes das Forças de Apoio Rápido (RSF) do Sudão, com financiamento alegado dos Emirados Árabes Unidos, segundo investigação da Reuters publicada recentemente. O caso expõe um padrão cada vez mais comum no continente africano: conflitos internos transformados em guerras por procuração, financiadas e operadas por atores regionais e extrarregionais que atuam nas sombras, longe do escrutínio internacional. Enquanto o Sudão sangra em uma guerra civil devastadora desde abril de 2023, potências do Golfo e governos vizinhos exportam violência sem assumir responsabilidade formal, corroendo a soberania de estados já fragilizados pelo legado colonial e pelas intervenções estrangeiras.
O que revela a investigação sobre o campo secreto na Etiópia
Fontes de inteligência citadas pela Reuters indicam que a Etiópia está abrigando uma instalação clandestina dedicada ao treinamento de milicianos das RSF, grupo paramilitar sudanês envolvido em confrontos brutais contra o exército regular do país. O financiamento dessa operação teria origem nos Emirados Árabes Unidos, potência do Golfo com histórico de intervenções diretas e indiretas em conflitos africanos — da Líbia ao Iêmen, passando pela Somália.
A RSF, liderada por Mohamed Hamdan Dagalo, conhecido como Hemedti, tem sido acusada de crimes de guerra e limpeza étnica no Darfur. O grupo, que emergiu das milícias Janjaweed responsáveis pelo genocídio de 2003, consolidou-se como força paramilitar poderosa, com interesses em mineração de ouro e controle de rotas comerciais estratégicas.
Seu fortalecimento ocorre justamente pela injeção de recursos externos e pela lógica de privatização da violência que marca os conflitos contemporâneos no continente.

Guerras terceirizadas no Sudão: como empresas militares privadas redesenham conflitos africanos
O caso etíope-sudanês ilustra um fenômeno estrutural: a externalização de conflitos armados por meio de proxies, empresas militares privadas e financiamento opaco. Os Emirados Árabes Unidos não são novidade nesse cenário. Abu Dhabi já atuou militarmente na Líbia apoiando o general Khalifa Haftar, mantém presença na Somália e no Iêmen, e utiliza portos estratégicos no Mar Vermelho para projetar poder além de suas fronteiras.
Segundo dados da Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), os Emirados expandiram suas exportações de armamentos para a África em 340% entre 2015 e 2023, com foco particular no Chifre da África e no Sahel.
Essa dinâmica não é exclusiva dos Emirados. Rússia (via Grupo Wagner), Turquia, França e até mesmo China têm expandido influência militar na África por meio de acordos de segurança, venda de armas e treinamento de forças locais.
O que diferencia o caso sudanês é a escala da privatização: milícias como a RSF operam como quase-estados, com capacidade bélica, controle territorial e recursos próprios derivados de economia de pilhagem — ouro, gado, terras.
A Etiópia, por sua vez, vive uma crise interna após dois anos de guerra em Tigray e tensões étnicas persistentes. Aceitar ou facilitar campos de treinamento estrangeiros em seu território revela fragilidade estatal e dependência de alianças regionais instáveis. Adis Abeba precisa dos Emirados como parceiro comercial e investidor, especialmente após o isolamento diplomático decorrente do conflito em Tigray.
Soberania em leilão: o legado pós-colonial sob nova ameaça
A infiltração de interesses externos nos conflitos africanos não é novidade histórica. O que muda é a arquitetura: no lugar de exércitos coloniais diretos ou intervenções da ONU, surgem arranjos híbridos — atores estatais que financiam, atores não-estatais que executam, Estados anfitriões que facilitam.
O resultado é a erosão contínua da soberania nacional, agora não apenas por pressão econômica (dívida, ajuste estrutural), mas por dependência militar e securitária.
Países como Sudão e Etiópia, com instituições frágeis e economias dependentes, tornam-se palcos de disputas alheias. O Sudão, rico em ouro e posicionado estrategicamente entre o Sahel e o Mar Vermelho, atrai interesses concorrentes: Emirados, Rússia, Egito, Arábia Saudita. Cada um com seus proxies, cada um vendendo armas, treinando milícias, comprando lealdades.
Essa “internacionalização” dos conflitos africanos esvazia qualquer possibilidade de paz negociada localmente. As partes beligerantes tornam-se reféns de seus financiadores externos, prolongando guerras que já ceifaram centenas de milhares de vidas.
No Sudão, segundo estimativas da Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), mais de 15 mil pessoas morreram desde abril de 2023, com mais de 7 milhões deslocadas internamente. Darfur vive um retorno ao pesadelo humanitário dos anos 2000.
Quem lucra com a economia de pilhagem e a guerra permanente?
A lógica da guerra privatizada é também uma lógica econômica. Grupos como a RSF não dependem apenas de financiamento externo — controlam minas de ouro, taxam comércio transfronteiriço, extorquem populações civis. Esse modelo híbrido entre milícia e empresa cria incentivos perversos: a guerra torna-se fonte de renda, e a paz, uma ameaça aos negócios.
Segundo relatório da Global Witness de 2024, a RSF controla aproximadamente 80% da produção de ouro no Sudão, gerando receitas estimadas em US$ 1 bilhão anuais — recursos que alimentam a compra de armamentos e a manutenção de operações militares.
Os Emirados lucram com acesso privilegiado a recursos naturais, portos estratégicos e influência geopolítica. A Etiópia ganha investimentos e proteção diplomática. A RSF consolida poder militar e econômico.
Quem perde? A população sudanesa, refém de uma guerra sem fim à vista, e a própria ideia de Estado soberano na África pós-colonial.
Organizações internacionais como a União Africana e a ONU têm se mostrado incapazes de conter essa dinâmica. Falta vontade política das grandes potências, que muitas vezes alimentam esses mesmos conflitos. O Conselho de Segurança da ONU está paralisado por interesses contraditórios: Rússia bloqueia sanções porque apoia atores armados no Sudão; países ocidentais hesitam em pressionar os Emirados, aliado estratégico no Golfo.
O Chifre da África como laboratório do caos controlado
O caso do campo de treinamento etíope insere-se em um padrão mais amplo de militarização do Chifre da África. A região, que conecta África, Oriente Médio e rotas marítimas globais, tornou-se zona de competição estratégica.
Bases militares estrangeiras proliferam: Djibuti abriga instalações da França, EUA, China, Itália e Japão. Eritreia flerta com Rússia e Emirados. Somália permanece território contestado por Al-Shabaab, forças internacionais e governos regionais fragmentados.
Esse xadrez geopolítico transforma Estados em meros territórios onde se disputa influência, recursos e posição estratégica. A soberania torna-se ficção jurídica, enquanto a realidade é governada por alianças fluidas, mercenários bem pagos e elites locais dispostas a vender acesso em troca de proteção ou enriquecimento.
Perguntas que o mainstream não faz
Quem realmente governa o Sudão — o Estado, ou constelações de interesses privados e externos? Até que ponto a chamada “comunidade internacional” tolera guerras por procuração porque elas mantêm regiões periféricas instáveis, mas controláveis?
Por que países que condenam intervencionismo russo na Ucrânia silenciam diante da intromissão emirati e turca na África?
A resposta passa por uma constatação incômoda: o sistema internacional não foi desenhado para proteger a soberania de Estados fracos. Foi desenhado para administrá-la. E quando convém às grandes e médias potências, essa soberania é simplesmente terceirizada — para milícias, empresas militares privadas e Estados anfitriões que lucram com a instabilidade alheia.
Referências:
- Reuters. “Ethiopia builds secret camp to train Sudan RSF fighters, sources say“. 10 de fevereiro de 2026.
- Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI). “Arms Transfers Database“. Acesso em 2026.
- Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED). “Sudan Crisis Data“. Atualizado em 2026.
- Global Witness. “Gold, Guns and Governance: How Armed Groups Control Sudan’s Resources“. 2024.



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