EUA e Israel atacam o Irã: a guerra que a diplomacia não impediu

EUA e Israel atacam o Irã após negociações em Genebra fracassarem. Análise do conflito, da morte de Khamenei e de quem realmente decidiu esta guerra.
Trabalhadores de resgate e militares no local do ataque com míssil iraniano em Beit Shemesh, Israel, em 1º de março de 2026
Equipes de resgate e militares trabalham no local atingido por míssil iraniano em Beit Shemesh, Israel, em 1º de março de 2026 — resposta de Teerã aos ataques conjuntos de EUA e Israel. [Foto: AP/Leo Correa]

O ataque dos EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro de 2026 chegou dias depois de negociadores debaterem paz em Genebra. Trump hesitou — e cedeu. O que as bombas revelam sobre quem, de fato, decide as guerras no Ocidente.

Por que os EUA e Israel atacaram o Irã após as negociações de Genebra

As ofensivas ocorreram apenas dois dias após as negociações nucleares de alto risco entre EUA e Irã em Genebra, mediadas por Omã, encerrarem sem acordo. O paradoxo é brutal: na véspera do ataque, o ministro das Relações Exteriores de Omã declarou que o Irã havia concordado em nunca estocar urânio enriquecido — concessão descrita como de “progresso significativo” nas tratativas sobre o programa nuclear iraniano.

A operação foi batizada de “Roaring Lion” por Israel e “Operation Epic Fury” pelos EUA. Teve como alvo comandantes militares, instalações estratégicas e altos funcionários do regime. Entre os assassinados estava o líder supremo Ali Khamenei — o maior abalo na estrutura de poder iraniana desde a Revolução de 1979.

Pessoas observam do telhado enquanto uma coluna de fumaça sobe após um ataque em Teerã, Irã, domingo, 1º de março de 2026. [Foto AP/Vahid Salemi]

Mearsheimer estava certo sobre os riscos — e sobre quem os ignorou

Publicada em 25 de fevereiro, a análise de John J. Mearsheimer identificou com precisão as forças contrárias à guerra: o isolamento internacional, a avaliação militar desfavorável e o risco político doméstico para Trump. O próprio autor admitia o limite de sua leitura — “não se pode ter certeza” — mas havia enunciado, como advertência final, o fator que viria a ser decisivo: a pressão de Israel e seu lobby nos EUA.

Netanyahu há muito via o Irã como a ameaça existencial central. Após desmantelar o Hamas em Gaza e o Hezbollah no Líbano, Israel havia travado uma guerra de 12 dias contra o próprio Irã em 2025. A janela diplomática aberta por Trump foi, na prática, o intervalo entre uma ofensiva e a seguinte.

Com eleições previstas para outubro em Israel, Netanyahu pode ter visto o retorno ao conflito como uma oportunidade de consolidar sua posição interna. A mesma lógica de sobrevivência política que Mearsheimer apontava como freio para Trump operava, em sentido contrário, como motor para Netanyahu.

Guerra EUA-Irã-Israel 2026: uma mudança de regime declarada abertamente

Os EUA e Israel lançaram o ataque de grande escala com o objetivo declarado de derrubar o regime em Teerã. Trump afirmou que a operação buscaria eliminar o programa nuclear e de mísseis do Irã, destruir sua marinha e promover uma mudança de liderança. Dirigiu-se diretamente ao povo iraniano: “a hora de sua liberdade chegou”.

A retórica da libertação é antiga. Em 1953, a CIA orquestrou um golpe contra o premier eleito Mohammad Mosaddegh. Desta vez, como observou um correspondente da Al Jazeera em Washington, o objetivo é o mesmo — controlar quem governa o Irã — mas os instrumentos mudaram: não há mais operação encoberta. Há bombardeios.

O ataque foi precedido pelo maior acúmulo militar americano na região desde a invasão do Iraque em 2003. A hesitação foi encenada enquanto os porta-viões navegavam.

Resposta iraniana e escalada regional: o Oriente Médio em guerra aberta

O Irã revidou com mísseis balísticos contra Israel e instalações militares americanas no Bahrain, Kuwait, Qatar e Emirados Árabes Unidos. A escalada regional no Oriente Médio entrou em fase crítica.

A Rússia solicitou sessão especial do Conselho de Governadores da AIEA, alertando para o risco de “catástrofe humanitária, econômica e possivelmente radiológica”, e acusou EUA e Israel de mergulhar a região num “abismo de escalada descontrolada”. A questão central nos dias seguintes será se o Hezbollah responde ao chamado iraniano — o movimento, por ora, parece calcular seus próprios custos antes de entrar abertamente no conflito.

O porta-voz iraniano acusou Trump de ter sido “arrastado” para uma guerra cujo “único beneficiário” é Israel, e defendeu os contra-ataques como exercício do “direito legítimo de autodefesa”.

O impacto humanitário dos ataques ao Irã e o padrão que se repete

Entre as vítimas já confirmadas estão 148 mortos num ataque a uma escola de ensino fundamental em Minab. Explosões foram relatadas próximas a hospitais em Teerã e à Cruz Vermelha Iraniana. A crise se aprofunda sobre um país já em colapso econômico desde o fim de 2025, exausto por décadas de sanções e agitação interna.

O padrão não é novo. No Iraque pós-2003, no Líbano de 2006, na Síria pós-2011: as decisões são tomadas em Washington e Tel Aviv; os corpos ficam em outro lugar. Um povo recebe, como “libertação”, bombas sobre suas cidades.

O que resta quando a diplomacia falha sob pressão

A análise de Mearsheimer permanece como documento valioso — não por ter previsto o desfecho, mas por ter mapeado com precisão o que poderia ter acontecido e quais forças o impediram. Que essas forças tenham sido insuficientes revela algo mais profundo sobre quem organiza as decisões de guerra no Ocidente.

A hesitação existiu. A diplomacia foi tentada. O Irã fez concessões sobre a crise nuclear. E, ainda assim, os ataques vieram. A conclusão implícita de Mearsheimer — que o lobby israelense pode arrastar os EUA para guerras que sua própria racionalidade desaconselha — encontrou, em 28 de fevereiro de 2026, sua confirmação mais devastadora.

A ordem que emerge dessas ruínas não foi escolhida pelos iranianos, pelos libaneses, pelos iemenitas ou pelos palestinos. Foi imposta, mais uma vez, de fora.


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  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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