A expiração do tratado entre EUA e Rússia encerra meio século de controle mútuo de arsenais e abre caminho para nova corrida armamentista — com China no centro do debate
O tratado New START, que durante 15 anos limitou os arsenais nucleares estratégicos de Estados Unidos e Rússia, expirou oficialmente em 6 de fevereiro de 2026. Pela primeira vez desde 1972, as duas maiores potências nucleares do mundo ficam sem qualquer restrição vinculante sobre o número de ogivas e sistemas de lançamento que podem manter operacionais. A data marca não apenas o fim de um acordo específico, mas o colapso de uma arquitetura de segurança internacional construída ao longo de cinco décadas.
Assinado em 2010 por Barack Obama e Dmitri Medvedev, então presidente russo, o New START estabelecia limites claros: cada país poderia manter no máximo 1.550 ogivas nucleares estratégicas implantadas e 800 sistemas de lançamento (mísseis ou bombardeiros). Além dos tetos numéricos, o tratado criava um robusto sistema de monitoramento mútuo, com compartilhamento de dados e inspeções recíprocas — mecanismos que a Rússia suspendeu unilateralmente em 2023, alegando apoio americano à Ucrânia.
A tentativa de salvar o acordo fracassou. Em setembro de 2025, Vladimir Putin propôs extensão por um ano, ideia que Donald Trump classificou como “boa” mas que não gerou negociações concretas. Em janeiro de 2026, Trump foi categórico: “Se expirar, expirar. Faremos um acordo melhor”. Moscou confirmou não ter recebido resposta formal à proposta russa. “A falta de resposta também é uma resposta”, declarou o vice-ministro das Relações Exteriores russo, Sergei Ryabkov.
Por que o fim do New START importa
O término do tratado representa o último suspiro de um sistema de controle de armas que vinha se desintegrando há anos. Acordos anteriores sobre defesa antimísseis, forças de alcance intermediário e direitos de sobrevoo mútuo já haviam colapsado. Agora, sem limites impostos, EUA e Rússia — que possuem cerca de 4.000 ogivas cada, segundo estimativas — estarão livres para expandir arsenais sem freios diplomáticos.
“Este é um momento novo, uma realidade nova — estamos prontos para ela”, afirmou Ryabkov durante visita a Pequim. Do lado americano, o secretário de Estado Marco Rubio foi igualmente direto: “Rússia e China não devem esperar que os Estados Unidos fiquem parados enquanto eles negligenciam obrigações e expandem suas forças nucleares. Manteremos um dissuasor nuclear robusto, credível e modernizado”.
A tensão escalou em conferência de desarmamento em Genebra, quando Washington acusou a China de ter realizado teste nuclear secreto em junho de 2020. Thomas DiNanno, subsecretário de Estado americano, afirmou que Pequim usou técnicas de “desacoplamento” para ocultar a explosão de sistemas de monitoramento sísmico. A China rejeitou as acusações como “narrativas falsas” destinadas a exagerar ameaças. O órgão de monitoramento do Tratado de Proibição Total de Testes Nucleares (CTBT) declarou não ter detectado qualquer evento compatível com teste nuclear na data indicada.
China como novo eixo estratégico
Trump condicionou qualquer novo pacto de controle de armas à inclusão da China, que possui arsenal estimado em 600 ogivas — fração dos números russo e americano — mas em rápida expansão. Projeções dos EUA apontam que Pequim terá mais de 1.000 ogivas até 2030. Pequim, contudo, rejeita participar de negociações trilaterais neste momento, argumentando que a disparidade numérica com Washington e Moscou não justifica sua inclusão.
“Nesta nova era, esperamos que os EUA abandonem a mentalidade da Guerra Fria e abrace segurança comum e cooperativa”, declarou Shen Jian, embaixador chinês para desarmamento. A Rússia, por sua vez, insiste que qualquer negociação deve incluir também os arsenais nucleares de Reino Unido e França, aliados da OTAN — proposta que Londres e Paris rejeitam.
Analistas de segurança projetam que um novo acordo levaria anos para ser negociado, enquanto as três potências desenvolvem armas de nova geração. Sem transparência mútua, cada lado será forçado a presumir o pior sobre as intenções dos rivais, criando incentivo para aumentar arsenais preventivamente. “Muitos no establishment de armas nucleares querem expandir rapidamente a força americana para conter o crescimento estratégico da China”, alertou Daryl Kimball, diretor da Arms Control Association.
O fim do New START também ameaça o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) de 1970, pelo qual estados não nucleares se comprometeram a não adquirir armas em troca de esforços de desarmamento pelas potências nucleares. O TNP será revisado em 2026. Sem sinais de contenção pelos grandes arsenais, o acordo corre risco de erosão — com consequências imprevisíveis para a estabilidade global.
Fontes: Reuters e The Guardian