Como a instabilidade global está moldando o discurso eleitoral brasileiro em 2026

Planalto intensifica agenda geopolítica enquanto campanha se aproxima, sinalizando mudança no perfil do debate político nacional

A agenda internacional do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ganhou ritmo acelerado nas primeiras semanas de 2026. Foram 14 telefonemas com chefes de Estado apenas em janeiro — o maior volume de contatos bilaterais em um único mês desde o início de seus mandatos. Entre os interlocutores estavam Vladimir Putin, Xi Jinping, Donald Trump e Emmanuel Macron. No Palácio do Planalto, a leitura é clara: temas de política externa terão protagonismo inédito na próxima campanha eleitoral.

Via GloboNews, 6 de fevereiro de 2026

A avaliação de auxiliares presidenciais considera que a complexidade do cenário geopolítico — marcado por tensões na Venezuela, conflitos na Faixa de Gaza e Ucrânia, além das ameaças territoriais de Trump à Groenlândia — criou um ambiente propício para que questões internacionais deixem de ser periféricas no debate eleitoral brasileiro. Lula tem mencionado esses temas em discursos públicos com frequência crescente, enquanto articula encontros bilaterais e reforça o papel do Brasil como mediador regional.

A agenda desta semana ilustra essa estratégia. No Panamá, onde participou do Fórum Econômico da América Latina, Lula tratou do acordo Mercosul-União Europeia, da proposta de Conselho da Paz apresentada por Trump e da crise venezuelana em reuniões com os presidentes da Bolívia, Rodrigo Paz, e do Panamá, José Raúl Mulino. O encontro com José Antonio Kast, presidente eleito do Chile, também integrou a programação — um sinal de que o Planalto busca consolidar posições antes do recesso eleitoral.

Para março, está previsto um encontro presencial com Trump em Washington. Fontes da diplomacia brasileira indicam três prioridades: combate ao crime organizado, negociações sobre produtos brasileiros afetados pelo “tarifaço” e a situação na América Latina. O governo evita confronto direto com os Estados Unidos, mas Lula tem defendido publicamente a soberania nacional e o direito internacional diante de ameaças tarifárias e territoriais do governo norte-americano.

Essa movimentação reflete uma tendência mais ampla: a crescente interpenetração entre geopolítica e política doméstica. Em eleições anteriores, temas externos raramente ultrapassavam nichos especializados ou serviam como marcadores ideológicos genéricos. Agora, a instabilidade global oferece material concreto para narrativas eleitorais — seja sobre a capacidade de interlocução do Brasil no cenário internacional, seja sobre riscos associados a alinhamentos estratégicos.

A aposta do Planalto é que essa agenda fortaleça a imagem de Lula como estadista capaz de construir parcerias estratégicas em momento de reconfiguração da ordem global. Líderes europeus já mencionaram o Brasil como ator relevante para a estabilidade latino-americana. Resta saber se candidatos de oposição conseguirão artular propostas alternativas que disputem esse terreno ou se a política externa permanecerá como ativo exclusivo do governo.

O fenômeno brasileiro dialoga com processos observados em outras democracias, onde crises geopolíticas — da guerra na Ucrânia às tensões comerciais sino-americanas — têm remodelado campanhas eleitorais e realinhado preferências de eleitores. A novidade, no caso brasileiro, é a velocidade com que essa transformação parece estar ocorrendo.

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