O Paquistão bombardeou Cabul e declarou “guerra aberta” contra o governo Talibã — o mesmo que ajudou a criar. O conflito expõe décadas de contradições geopolíticas, o fracasso da doutrina de “profundidade estratégica” de Islamabad e o risco real de escalada regional entre potências nucleares.
A declaração do ministro da Defesa paquistanês, Khawaja Asif — “nossa paciência acabou; agora é guerra aberta entre nós” — marcou, em 27 de fevereiro de 2026, um dos momentos mais críticos da história recente do sul da Ásia. Aviões paquistaneses bombardearam Cabul, Kandahar e Paktia na Operação Ghazab Lil Haqq (“Ira pela Verdade”); o Afeganistão respondeu com drones e ofensivas na Linha Durand. O que parecia tensão crônica tornou-se conflito aberto entre dois Estados que compartilham fronteira, história e, paradoxalmente, décadas de cumplicidade.
A Profundidade Estratégica que se Tornou Armadilha
Para compreender a “guerra aberta” de fevereiro de 2026, é preciso recuar quatro décadas. O Talibã emergiu, em 1994, de grupos mujahidin moldados durante a resistência à ocupação soviética nos anos 1980 — projeto financiado pelos EUA e operacionalizado pela inteligência paquistanesa (ISI). O ISI armou, equipou e forneceu combatentes ao movimento a partir de madrassas deobandis nas áreas tribais, sustentando o Talibã em sua conquista de Cabul em 1996.
O objetivo era preciso: garantir “profundidade estratégica” no Afeganistão — um Estado vizinho permeável à influência de Islamabad, capaz de funcionar como retaguarda no confronto histórico com a Índia. Após 2001, o Paquistão cooperou formalmente com Washington na “Guerra ao Terror”, mas uma pesquisa da OTAN publicada em 2012, baseada em mais de 27.000 interrogatórios de combatentes capturados, concluiu que o apoio do ISI foi determinante para a sobrevivência e a reconstituição do Talibã após a invasão americana.
Com a retirada norte-americana em agosto de 2021 e o retorno do Talibã ao poder, Islamabad aguardava o que julgava ser o resultado natural de décadas de investimento: influência privilegiada sobre Cabul. Não obteve. O retorno do Talibã não estabilizou a fronteira norte do Paquistão; ao contrário, levou a deterioração da segurança em Khyber Pakhtunkhwa e Baluchistão. De acordo com o Instituto Paquistanês para Estudos da Paz (PIPS), os ataques terroristas no Paquistão aumentaram 27% em 2022 e 17% em 2023 em relação ao período anterior à retomada do poder pelo Talibã.
Como a Guerra Aberta entre Paquistão e Afeganistão Chegou a Este Ponto
A escalada seguiu uma progressão documentada. No início de fevereiro de 2026, uma onda de ataques atingiu o Paquistão: um atentado suicida em uma mesquita xiita de Islamabad matou mais de 30 fiéis, reivindicado pelo Estado Islâmico Khorasan (ISKP, filial regional do ISIS); ataques em Bajaur e Bannu mataram soldados e civis. Em 11 de fevereiro, Asif advertiu que o Paquistão agiria contra militantes no Afeganistão antes do início do Ramadã, caso o Talibã não contivesse a atividade insurgente. Em 19 de fevereiro, Islamabad entregou um protesto formal ao embaixador afegão.
Na madrugada de 22 de fevereiro, aviões paquistaneses atacaram Nangarhar e Paktika, matando ao menos 18 pessoas — incluindo mulheres e crianças; uma família em Girdi Kas perdeu 18 de seus 23 membros. O Afeganistão revidou com operações em 26 de fevereiro; o Paquistão respondeu com os bombardeios em Cabul, Kandahar e Paktia em 27 de fevereiro. O porta-voz do exército paquistanês, tenente-general Ahmed Sharif Chaudhry, afirmou que as operações mataram ao menos 274 membros das forças afegãs; o Talibã rejeitou as cifras como falsas, alegando 55 soldados paquistaneses mortos, com corpos de 23 levados ao Afeganistão. As alegações de ambos os lados não puderam ser verificadas de forma independente.

O principal ponto de atrito é o Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) — organização distinta do Talibã afegão, mas com laços ideológicos e operacionais próximos, responsável pela maioria dos ataques em solo paquistanês. Islamabad acusa Cabul de abrigar o TTP; o governo Talibã nega e, por sua vez, acusa o Paquistão de apoiar o ISKP, grupo jihadista rival do Talibã.
O Discurso que Oculta a Responsabilidade Histórica
A narrativa dominante — tanto nos meios paquistaneses quanto em parte da mídia ocidental — enquadra o conflito como “legítima defesa”. O governo dos EUA expressou apoio ao “direito do Paquistão de se defender”. (fato) Essa leitura omite um elemento central: Islamabad é, em larga medida, arquiteto do problema que hoje combate. (análise)
Quando o Talibã retomou Cabul em 2021, generais paquistaneses comemoraram, vendo nisso a vindição de décadas de busca pela “profundidade estratégica”. Em poucos meses, a euforia se evaporou: o Talibã se recusou a reconhecer a Linha Durand, travou confrontos com forças paquistanesas e permitiu que o TTP operasse livremente a partir do solo afegão. O pesquisador Anatol Lieven, em Pakistan: A Hard Country (2011), já descrevia essa dinâmica: o Estado paquistanês não é monolítico — diferentes facções do exército, da ISI e do governo civil mantêm agendas paralelas, frequentemente contraditórias.
Chamar isso apenas de “terrorismo afegão” é analiticamente insuficiente — e politicamente conveniente. (opinião editorial) Permite ao governo de Islamabad mobilizar discurso nacionalista, desviar atenção de uma crise econômica severa e justificar o protagonismo do exército no equilíbrio doméstico de poder.
O Tabuleiro Regional: Índia, China e a Diplomacia em Curso
O conflito não existe num vácuo. Paquistão, Rússia, China, Turquia e Arábia Saudita estão todos envolvidos em esforços de mediação; analistas advertem que a instabilidade gerada pela guerra por procuração entre Islamabad e Cabul representa uma abertura para o ISIS e outros grupos na região.
A China é aliada estratégica do Paquistão — âncora do Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), com mais de US$ 60 bilhões em investimentos —, mas também busca estabilidade no Afeganistão para proteger seus interesses e conter a disseminação de radicalismo que pode alcançar Xinjiang. A Índia é o ator que Islamabad mais teme: o próprio ministro Asif acusou o Talibã de ter transformado o Afeganistão em “colônia indiana”, enquanto Nova Délhi condenou os ataques aéreos paquistaneses que causaram baixas civis.
O chanceler turco Hakan Fidan realizou chamadas com seus homólogos paquistanês, afegão, catariano e saudita em 27 de fevereiro. O Qatar, que mediou o cessar-fogo de outubro de 2025 — rompido meses depois —, retomou os esforços diplomáticos. Ambos os lados são potências nucleares. O risco de que uma escalada mal calculada produza consequências catastróficas não é retórico.
O Preço que os Comunicados Militares Não Contam
A assimetria entre o discurso de “legítima defesa” e a realidade nas aldeias fronteiriças não deveria ser aceita com normalidade analítica. A UNAMA confirmou ao menos 13 civis mortos nos primeiros bombardeios paquistaneses, com sete feridos adicionais. O Talibã afirmou que os ataques mataram 19 civis e feriram 26 outros, com maioria de mulheres e crianças. São os habitantes dos vilarejos fronteiriços — não os estrategistas de Islamabad nem os comandantes talibãs — que pagam o preço mais alto de décadas de erros acumulados.
Da “Profundidade Estratégica” à Profundidade do Fracasso
Três trajetórias são possíveis a partir daqui. A mais provável, no curto prazo, é uma contenção negociada: Qatar, Turquia e China podem produzir um cessar-fogo frágil — semelhante ao de outubro de 2025, que durou poucos meses. Nenhum dos lados tem capacidade de sustentar guerra prolongada: o Paquistão enfrenta crise econômica grave e dependência do FMI; o Talibã governa um Estado sem reconhecimento internacional e com economia em colapso.
A segunda trajetória é a de conflito de baixa intensidade persistente — hostilidades intermitentes que alimentam ciclos de violência e radicalização nas regiões fronteiriças. A terceira, de ruptura sistêmica, envolveria a entrada de outros atores regionais e uma guerra por procuração de maior alcance.
O que está em jogo é a capacidade de dois Estados frágeis de evitar que décadas de erros estratégicos acumulados se tornem uma catástrofe irreversível. A retirada norte-americana de 2021 não apenas devolveu o poder ao Talibã: revelou os limites de qualquer potência que julgue controlar realidades regionais por intervenção externa. O conflito Paquistão-Afeganistão é também um espelho — reflete o custo de usar o extremismo como instrumento de política e a conta que esse instrumento, invariavelmente, apresenta.
Referências
- AL JAZEERA. ‘Open war’: Pakistan and Afghanistan’s Taliban claim major casualties. 27 fev. 2026.
- AL JAZEERA. Pakistan bombs Kabul: Why are Afghanistan and Pakistan fighting?. 27 fev. 2026.
- CBC NEWS. Pakistan and Afghanistan in ‘open war’: How we got here and what might happen next. 27 fev. 2026.
- CNN. Why are Pakistan and Afghanistan launching attacks, with Pakistani official declaring ‘open war’?. 27 fev. 2026.
- NPR. Pakistan and Afghanistan exchanged cross-border attacks overnight. 26/27 fev. 2026.
- PBS NEWSHOUR. Pakistan defense minister says country is in ‘open war’ with Afghanistan. 27 fev. 2026.
- WIKIPEDIA. 2026 Afghanistan–Pakistan conflict.
- WIKIPEDIA. 2026 Pakistani airstrikes in Afghanistan.
- BROOKINGS INSTITUTION. RIEDEL, Bruce. Pakistan, Taliban, and the Afghan Conflict.
- NATIONAL BUREAU OF ASIAN RESEARCH (NBR). REHMAN, Abdul; MINGJIN, Wang. Pakistan and the Taliban: A Strategic Asset Turned Strategic Predicament.
- SOUTH ASIA MONITOR. Pakistan’s Afghanistan aspirations: From strategic depth to strategic despair.
- LIEVEN, Anatol. Pakistan: A Hard Country. Nova York: PublicAffairs, 2011.
- UNAMA (UN Assistance Mission in Afghanistan). Relatórios sobre vítimas civis nos ataques aéreos paquistaneses, fev. 2026.

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