Guerra ao Irã: a ofensiva sem estratégia de saída

EUA e Israel atacam o Irã sem aprovação do Congresso, sem saída clara e com o direito internacional em colapso. O que vem depois dos bombardeios?
Bandeiras mescladas dos EUA e do Irã [Créditos: Getty Images]

A ofensiva militar conjunta dos EUA e Israel contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro de 2026, recoloca no centro do debate internacional uma pergunta que ninguém em Washington parece querer responder: e depois? O conflito expõe não apenas a fragilidade do direito internacional, mas os limites reais do poder militar unilateral — e as consequências para países que não têm voto nessa guerra.

O pretexto nuclear que não se sustenta

A guerra ao Irã foi justificada, mais uma vez, pela ameaça nuclear. O presidente Trump insistiu que Teerã se recusava a renunciar às armas atômicas. O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, respondeu publicamente que o país jamais desenvolveria esse tipo de armamento — posição reiterada ao longo de décadas. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) encerrou sua investigação sobre o programa nuclear iraniano em 2015 sem encontrar evidências de um programa bélico ativo, e monitorou o cumprimento do acordo JCPOA até o momento em que os próprios EUA, sob Trump, abandonaram o tratado em 2018.

Há ainda uma contradição interna irrefutável: em junho de 2025, ao encerrar a chamada “Operação Midnight Hammer”, o governo americano declarou ter “completamente obliterado” as instalações de enriquecimento iranianas. Se isso fosse verdade, como o mesmo Irã poderia representar uma ameaça nuclear iminente seis meses depois? O pretexto é o mesmo de sempre — e, como em 2003 no Iraque, não resiste ao escrutínio mínimo.

Como observa o historiador Lawrence S. Wittner, o assessor de política externa do Catar, Majed al-Ansari, resumiu com precisão o momento atual: estamos caminhando para um sistema onde qualquer um pode fazer o que quiser, desde que tenha capacidade de causar estragos — pois ninguém será responsabilizado.

O crime supremo sem tribunal

Sob o direito internacional, a agressão não é um crime qualquer. O Tribunal de Nuremberg a classificou como o crime supremo — aquele que “contém em si o mal acumulado do todo”. A Carta da ONU, no Artigo 2, proíbe explicitamente o uso da força contra a integridade territorial de qualquer Estado. A ofensiva foi lançada sem declaração de guerra pelo Congresso americano, sem mandato do Conselho de Segurança, sobre um país que não atacou os EUA.

O pesquisador Nolan Higdon aponta que a expressão “ataque preemptivo” — usada pela Casa Branca — camufla o que especialistas e membros do próprio Congresso identificam como uma “guerra de escolha”, construída sobre inteligência israelense não verificada. O economista Jeffrey Sachs foi direto: quem se beneficia não é a segurança americana, mas a hegemonia regional de Israel.

Imagens de satélite confirmam destruição de radar THAAD na Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia — a mais de 800 km do Irã. [Crédito: CNN / Shutterstock]

A proteção que não protege: bases do Golfo sob fogo

Washington vende sua presença militar no Golfo como garantia de segurança regional. O conflito atual expõe o quanto essa narrativa é frágil. Segundo o ORIENTE mídia, a Guarda Revolucionária Islâmica destruiu radares THAAD na Jordânia e nos Emirados Árabes Unidos, além do sistema de alerta antecipado FPS-132 no Catar — confirmado por imagens de satélite analisadas pela CNN. Na Base Aérea de Muwaffaq Salti, a mais de 800 km do Irã, “tudo parecia destruído ou seriamente danificado”. Cada interceptor THAAD custa US$ 12,7 milhões; cada radar transportável AN/TPY-2, cerca de meio bilhão de dólares.

Os primeiros quatro dias de guerra custaram a Washington pelo menos US$ 2 bilhões em perdas de equipamentos. Os ataques iranianos também danificaram o quartel-general da 5ª Frota dos EUA no Bahrein. O Catar interrompeu a produção de GNL após ataques a instalações de gás, retirando cerca de 20% do gás natural comercializado globalmente do mercado e fazendo os preços na Europa dispararem.

A pergunta que ninguém responde: qual é a estratégia de saída?

Medea Benjamin e Nicolas J.S. Davies identificam o núcleo do problema: numa coletiva do Pentágono em 2 de março, um repórter perguntou diretamente ao secretário Pete Hegseth qual era a estratégia de saída. A resposta foi um desvio retórico — o mesmo argumento das armas de destruição em massa, reciclado do roteiro iraquiano de 2003.

O Irã não é o Iêmen. É doze vezes maior que o território controlado pelos Houthis, com mísseis dispersos em instalações endurecidas e lançadores móveis camuflados como veículos civis. A campanha de bombardeios contra o Iêmen, sob Biden e Trump, não eliminou as capacidades de ataque dos Houthis nem reabriu o Mar Vermelho ao comércio. A aposta de que o Irã pode ser “desarmado” por via aérea em semanas não tem base estratégica sólida.

Washington enfrenta ainda uma restrição de arsenal: após anos de transferência massiva de armas para Ucrânia e Israel, os estoques americanos de interceptores e mísseis de cruzeiro já chegam ao conflito depletados. O Irã, que compreende essa lógica, declarou explicitamente que seu objetivo é infligir custos reais — baixas americanas, desgaste político interno, ruptura econômica global — para tornar qualquer nova ofensiva inviável.

O colapso silencioso das normas internacionais

A guerra ao Irã é também um sintoma de algo mais amplo: a erosão sistemática do arcabouço jurídico construído após 1945. O governo Trump retirou os EUA de dezenas de agências da ONU, bloqueou o pagamento de bilhões em contribuições obrigatórias e impôs sanções aos juízes do Tribunal Penal Internacional que emitiram mandados de prisão contra líderes aliados. O assessor da Casa Branca Stephen Miller foi explícito: o mundo é governado pela força, não por “sutilezas internacionais”.

Essa postura não é nova, mas sua radicalização atual é inédita. O professor Wittner lembra que apenas 75 dos 193 membros da ONU aceitam a jurisdição compulsória da Corte Internacional de Justiça, e que EUA, Rússia, China e Israel não são signatários do Estatuto do Tribunal Penal Internacional. O direito existe. A execução, não.

Para os países que não têm assento no Conselho de Segurança, que não possuem veto e dependem dessas normas para sobreviver às pressões das potências, a mensagem é inequívoca: a ordem internacional baseada em regras só vale quando convém às potências que a criaram.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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