O assassinato do Aiatolá Khamenei por EUA e Israel não enfraqueceu a resistência iraniana — a consagrou. Na fé xiita, o martírio não é derrota: é o combustível do jihad. Enquanto Washington repete a doutrina do choque e pavor, o Irã descentraliza o comando e inunda o campo de batalha com drones que custam 50 vezes menos do que os mísseis usados para abatê-los.
O ataque de decapitação e a criação involuntária de um mártir
Na madrugada de um sábado em Teerã, forças americanas e israelenses bombardearam o local onde se encontrava o Líder Supremo Ali Khamenei, de 86 anos. A mídia estatal iraniana, após negar inicialmente, confirmou a morte — junto com membros da família do líder, incluindo filha, genro e netos. Segundo relatos, Khamenei recusou abrigo em Moscou, optando por permanecer em Teerã.
Para os americanos e israelenses, foi uma vitória de inteligência. Para os iranenses, foi uma consagração. O islamismo xiita — praticado pela minoria historicamente perseguida dentro do mundo muçulmano — tem no martírio seu valor central: o sacrifício pela religião e pelo bem comum que impulsiona a ação coletiva. Como analisa o professor Jiang Xueqin, especialista em teoria dos jogos aplicada à geopolítica, a morte de Khamenei não desorganiza a resistência — ela a transforma em jihad.
No mesmo ataque, um bombardeio atingiu uma escola no sul de Teerã, matando cerca de 150 crianças. Israel negou ter visado o estabelecimento; o Irã insistiu no contrário. Independentemente da autoria direta, o padrão é consistente com o que foi documentado em Gaza e na Palestina: uma escalada que sinaliza comprometimento total com a guerra a qualquer custo.

Por que a doutrina do choque e pavor não funciona contra o Irã
Comando descentralizado: cortar a cabeça não derruba o corpo
A doutrina militar americana herdada da Guerra Fria — o chamado choque e pavor — pressupõe que eliminar a liderança inimiga desintegra a capacidade de resistência. O Irã preparou sua resposta: o comando é descentralizado por regiões, cada uma com autonomia estratégica. Derrubar Teerã não paralisa o país. Ao contrário: sem uma cabeça única a decapitar, a doutrina americana perde seu objeto.
A grande ironia, apontada por Jiang Xueqin, é que os bombardeios americanos destroem exatamente os iranianos urbanos, educados e progressistas que poderiam simpatizar com uma mudança de regime — enquanto deixam intactos os xiitas rurais e militantes, dispostos a lutar até a morte. O exército americano foi estruturado para confrontos convencionais entre superpotências nucleares, não para guerras assimétricas do século XXI.
A equação dos drones Shahed: assimetria de custo como arma estratégica
Cada drone Shahed iraniano custa entre 35 e 50 mil dólares. Cada míssil Patriot americano disparado para abatê-lo custa 1 milhão de dólares — e frequentemente são necessários dois ou três disparos por drone. O Irã produzia, em estimativas de 2024, cerca de 500 drones por dia, com estoque aproximado de 80 mil unidades.
Essa assimetria de custo é uma arma em si mesma. Como documentaram analistas independentes como Seymour Hersh, o complexo industrial-militar americano foi construído para consumir orçamento, não para derrotar adversários que operam com lógicas radicalmente diferentes. Os sistemas de defesa americanos — caros, volumosos e de posicionamento fixo — são facilmente identificados e atacados. Quando explodem, levam consigo investimentos de bilhões de dólares.
A vantagem geográfica iraniana reforça esse quadro. As montanhas do Irã permitem esconder infraestrutura ofensiva — bases de foguetes, drones, mísseis — de forma praticamente indetectável. O Estreito de Ormuz, com apenas 33 km de largura, é o ponto de passagem de 20% de todo o petróleo mundial. Fechá-lo seria devastador: o Japão ficaria sem abastecimento em menos de 9 meses; a Índia perderia 60% de sua energia importada; a China, 40%.
Uma guerra religiosa que Washington não está preparado para entender
A destruição mútua assegurada (MAD) que definiu a Guerra Fria pressupunha adversários racionais, materialmente motivados, avessos à morte. O islamismo xiita opera em outra lógica: a morte em combate não é fim, é consagração. Isso transforma radicalmente o cálculo de risco. Os países do Golfo — majoritariamente sunitas, com populações expatriadas e economias construídas sobre o conforto material — não têm essa disposição. 90% da população de Dubai é estrangeira: ao menor sinal de perigo, vai embora.
Como escreveu Frantz Fanon em Os Condenados da Terra: a violência do colonizador sempre precisa se disfarçar de ordem, desenvolvimento ou segurança — nunca admite ser o que é. O que os EUA chamam de operação de decapitação, o Irã chama de declaração de guerra santa. Essa assimetria de interpretação é tão decisiva quanto a assimetria de armamentos.
Referências
- JIANG, Xueqin. A Tática Genial e Cruel na Guerra EUA e Irã — Aula Completa. YouTube, 2025.
- FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Pluto Press / Civilização Brasileira.
- HERSH, Seymour. Substack — análises sobre o complexo militar-industrial americano.
- KHALIDI, Rashid. The Hundred Years’ War on Palestine. Metropolitan Books, 2020. SIPRI — Stockholm International Peace Research Institute. Military Expenditure Database, 2024. https://www.sipri.org/databases/milex



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