O massacre na escola de Minab expõe mais do que uma tragédia: revela uma gramática de guerra em que civis se tornam alvos calculados. Investigações de múltiplos veículos apontam aeronaves dos EUA como as prováveis responsáveis pela morte de ao menos 165 meninas. O que está em jogo é a impunidade estrutural das potências que definem — e violam — as regras do direito internacional humanitário.
O que aconteceu na escola Shajareh Tayyebeh?
Em 5 de março de 2026, a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, na cidade iraniana de Minab, foi destruída em um ataque aéreo que matou pelo menos 165 crianças entre sete e doze anos. Investigadores dos EUA que apuram o ataque acreditam que uma operação militar americana seja a causa mais provável, segundo autoridades que falaram à Reuters. As conclusões são ainda preliminares, mas convergem com as de outros veículos independentes.

Utilizando imagens de satélite e filmagens geolocalizadas, investigadores da Al Jazeera descobriram que a escola estava há muito tempo claramente separada de um local militar próximo, afastando a hipótese de erro de identificação de alvo.
O que é um “ataque duplo” e por que ele configura crime de guerra?
Um ataque duplo é uma tática destinada a maximizar as baixas civis, na qual um segundo míssil atinge o mesmo local logo após o primeiro, matando deliberadamente sobreviventes e socorristas. O Middle East Eye confirmou esse padrão em Minab. A BBC acrescentou que imagens de satélite sugerem múltiplos impactos simultâneos ou quase simultâneos sobre a área.
Sob o Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra (1977), ataques intencionais contra populações civis e operações que causem danos desproporcionais constituem crimes de guerra. O jurista Francis Boyle, referência crítica no direito internacional, sustenta que a doutrina do duplo toque, quando aplicada sistematicamente, aproxima-se do conceito de terror de Estado codificado no direito penal internacional.
Como o padrão de Minab se insere na guerra EUA-Israel contra o Irã?
O ataque à escola não foi episódio isolado. Autoridades iranianas afirmaram que os ataques tiveram como alvo áreas civis e infraestrutura em todo o país, incluindo escolas, hospitais, instalações esportivas, locais históricos e bairros residenciais.
A OMS confirmou pelo menos 13 ataques a instalações de saúde no Irã, enquanto o Crescente Vermelho Iraniano informou que 3.646 casas, 528 unidades comerciais e 14 centros médicos foram danificados, com três hospitais completamente inutilizados.
O padrão repete o documentado na Síria entre 2015 e 2019, quando investigações da ONU registraram dezenas de ataques duplos contra mercados e hospitais, e no Afeganistão, onde o relatório UNAMA de 2019 atribuiu à coalizão liderada pelos EUA a responsabilidade por mais mortes civis do que às forças talibãs naquele ano. A repetição do padrão afasta a categoria do acidente e aproxima a do método.
Por que a ONU pede investigação sem nomear responsáveis?
O escritório de direitos humanos da ONU pediu uma investigação independente, com a porta-voz Ravina Shamdasani declarando que “a responsabilidade de investigar o ataque recai sobre as forças que o realizaram” — sem nomear nenhum responsável. A formulação revela a paralisia institucional característica dos momentos em que o suspeito é um membro permanente do Conselho de Segurança. Como observou o pesquisador Noam Chomsky em Hegemony or Survival (2003), as normas internacionais são aplicadas seletivamente: vinculam os fracos e recomendam os fortes.
A Casa Branca, por sua vez, reverteu o ônus da prova. A secretária de imprensa Karoline Leavitt declarou que “o regime iraniano ataca civis e crianças, não os Estados Unidos” — resposta que ignora as evidências reunidas pelas próprias agências americanas.
Quais as consequências jurídicas e geopolíticas do massacre?
No plano jurídico, o Tribunal Penal Internacional carece de jurisdição direta sobre os EUA, que não ratificaram o Estatuto de Roma. Contudo, o massacre alimenta processos por responsabilidade estatal na Corte Internacional de Justiça e fortalece demandas por um tribunal ad hoc, nos moldes do que foi proposto após Nuremberg para conflitos contemporâneos.
No plano geopolítico, a destruição sistemática de infraestrutura civil iraniana — escolas, hospitais, patrimônio histórico — sinaliza que a campanha ultrapassa objetivos militares táticos. Trata-se de degradação deliberada da capacidade estatal e da moral da população, o que juristas como Richard Falk classificam como coerção estrutural próxima ao conceito de punição coletiva, proibida pela Quarta Convenção de Genebra.
Para os países do Oriente Médio e do eixo Sul-Sul, o silêncio das instituições ocidentais diante de Minab é mais eloquente do que qualquer declaração: confirma que a proteção do direito internacional depende menos de sua letra e mais de quem detém o poder de enforcement. Essa percepção acelera o realinhamento em torno de estruturas alternativas — BRICS, OCS, mecanismos regionais de segurança coletiva — como resposta à assimetria jurídica que Minab torna incontestável.
Referências
- Oriente Mídia — EUA envolvido no massacre na escola de Minab, revela investigação interna (06/03/2026)
- Oriente Mídia — A guerra entre EUA e Israel deixa mais de 1.200 iranianos mortos (05/03/2026)
- Reuters — US investigators believe American military strike likely caused Minab school attack (06/03/2026)
- Al Jazeera — Investigation: Minab school attack analysis (03/03/2026)
- Middle East Eye — Double-tap strike in Minab
- OMS — Confirmed attacks on health facilities in Iran (2026)
- ICRC — Protocolo Adicional I às Convenções de Genebra
- Chomsky, Noam. Hegemony or Survival. Metropolitan Books, 2003.
- Falk, Richard. Illegal War. Princeton University Press, 2017.



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