O Memorando que Ninguém Deveria Ver: Quem Realmente Ordena as Guerras no Oriente Médio?

Um memorando do Pentágono listou 7 países para destruir. Quase todos foram. O Irã era o último. Entenda quem financia essas guerras — e por quê.
General Wesley Clark fala em painel na Clinton Global Initiative em Nova York em 2015, anos após revelar o memorando do Pentágono sobre o plano americano para o Oriente Médio
General Wesley Clark durante painel na reunião anual da Clinton Global Initiative, em Nova York. Foi Clark quem revelou publicamente a existência de um memorando do Pentágono que listava sete países a serem destruídos após o 11 de setembro — o Irã como destino final. [Crédito: Lucas Jackson/Reuters, 29 set. 2015]

O memorando do Pentágono que descrevia a destruição de sete países em cinco anos nunca foi desmentido. Quando Israel atacou o Irã em junho de 2025 e os EUA bombardearam suas instalações nucleares dias depois, esse plano voltou ao centro do debate geopolítico — junto com uma pergunta que os meios hegemônicos evitam responder: quem, de fato, se beneficia dessas guerras?

O Memorando do Pentágono e o Plano para Sete Países

Em setembro de 2001, dias após o 11 de setembro, o general Wesley Clark visitou o Pentágono. Um oficial de confiança lhe revelou a existência de um memorando interno do gabinete do Secretário de Defesa descrevendo planos para “eliminar 7 países em 5 anos”: Iraque, Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão — e, por último, o Irã.

Clark relatou o episódio publicamente em diversas ocasiões. Com a exceção do Irã, todos os países da lista foram devastados por intervenções militares diretas ou guerras por procuração ao longo das duas décadas seguintes.

Nenhum responsável foi juridicamente processado. E o Irã permaneceu como objetivo final — adiado, mas não abandonado.

O ataque de 2025 como conclusão de um projeto

O ataque israelense ao Irã em 13 de junho de 2025, seguido pela ofensiva americana contra instalações nucleares iranianas em 22 de junho, não foi uma reação espontânea. Analistas como Michel Chossudovsky e Drago Bosnic apontam que operações dessa complexidade exigem meses de planejamento — o que situa a decisão muito antes dos eventos imediatos que a “justificaram”.

A Estrutura Financeira por Trás das Guerras

Para o analista e ex-funcionário do Departamento do Tesouro dos EUA Paul Craig Roberts, a questão é direta: “Trilhões de dólares gastos destruindo o Iraque, a Líbia, a Síria e a Somália sem nenhum ganho. QUEM SE BENEFICIOU?”

Responder essa pergunta exige sair da geopolítica superficial e entrar na estrutura do capitalismo financeiro internacional.

O historiador Carroll Quigley, em Tragedy and Hope (1966), descreveu com precisão o objetivo central desse sistema: criar um controle financeiro privado capaz de dominar o sistema político de cada país. No topo estaria o Banco de Compensações Internacionais (BIS), em Basileia — controlado pelos bancos centrais, que por sua vez operavam como instrumentos dos grandes banqueiros de investimento privados.

O professor Antony Sutton, em Wall Street and the Rise of Hitler, identificou o poder político real nos EUA não no Congresso, mas nas instituições financeiras de Nova York: J.P. Morgan, o Chase Manhattan dos Rockefeller e os Warburg.

Os Rothschild e o complexo militar-industrial

Nessa rede, a família Rothschild ocupa posição central desde o século XVIII. O biógrafo oficial Niall Ferguson, em The House of Rothschild – Volume 2, reconhece que o investimento direto da família em corporações de armamentos no final do século XIX era substancial. Sua conclusão é direta: “Se o imperialismo do final do século XIX tinha seu ‘complexo militar-industrial’, os Rothschild eram inquestionavelmente parte dele.”

Financiar ambos os lados de um conflito — e lucrar com a venda de armas e com empréstimos para reconstrução — é uma prática documentada desde as Guerras Napoleônicas.

Por que o Irã é o Alvo que Restou

Dois interesses estruturais explicam a persistência do Irã como objetivo estratégico.

Petróleo e controle de recursos. Após a Revolução Iraniana de 1979, todos os ativos de empresas petrolíferas estrangeiras foram nacionalizados. Os Rothschild, com participações relevantes na exploração iraniana, perderam esse acesso. Uma mudança de regime — termo técnico para a derrubada de um governo por pressão externa, militar ou econômica — reabriria esse mercado.

O sistema bancário fora do controle do BIS. O Banco Central do Irã não integra o sistema de compensações internacionais controlado pelos grandes banqueiros privados. Dos poucos países do mundo nessa condição, o Irã é o mais estratégico geopoliticamente.

O mesmo padrão aparece em Gaza: a destruição do território palestino abre caminho para a exploração do campo de gás natural Leviatã, no Mediterrâneo, avaliado em bilhões de dólares — um recurso que empresas vinculadas a essa rede já disputam.

Trump, Netanyahu e a Lógica dos Agentes

O argumento central da análise de Robert J. Burrowes é que Trump e Netanyahu não são protagonistas — são agentes de uma estrutura que os antecede e os excede.

No caso de Trump, há documentação. Em 1990, à beira da falência com o cassino Taj Mahal em Atlantic City, ele foi salvo por um acordo de reestruturação negociado por Wilbur Ross — então representando interesses ligados aos Rothschild. Trump cedeu 50% de sua participação em troca de melhores condições de pagamento. Acordos semelhantes se repetiram com outras propriedades. A reportagem da Bloomberg detalha esses vínculos.

Netanyahu, por sua vez, teve sua sobrevivência política sustentada por décadas pelo casal Sheldon e Miriam Adelson. O Jerusalem Post descreveu sua influência sem eufemismos: quando se tem os recursos e o acesso dos Adelson, não se apenas influencia a política — você a reescreve.

“Teatro político” ou guerra real?

Chossudovsky e Bosnic levantaram outra hipótese: a de que parte da operação de 2025 foi encenada — um “teatro político” destinado a sinalizar força sem destruir completamente as instalações iranianas, preservando a possibilidade de negociação futura com um governo mais favorável aos interesses ocidentais.

Se confirmada, a tese aprofunda ainda mais a distância entre o conflito visível — transmitido em tempo real pela mídia global — e o conflito real, travado em outra dimensão de poder.

O Que o Movimento Antiguerra Não Compreende

O movimento pacifista internacional acumula mais de um século de protestos, declarações e apelos a organismos internacionais. E os conflitos continuam.

Burrowes argumenta que o problema é estrutural: sem identificar quem financia e quem lucra com as guerras, qualquer ação política se torna simbólica. Manifestações dirigidas a governos que são, eles próprios, instrumentos de poderes financeiros supranacionais produzem pressão sem resultado.

A ONU, o direito internacional e os tribunais globais não têm jurisdição — nem poder de enforcement — sobre os atores que operam nos bastidores dessas guerras. Enquanto essa realidade não for nomeada com precisão, o debate público sobre paz permanecerá dentro dos limites que o próprio sistema estabelece.

A pergunta de Roberts continua sem resposta oficial: quem se beneficiou? A resposta, documentada e verificável, está nos livros que os currículos de relações internacionais raramente incluem.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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