Narrativas de Guerra e Hierarquias de Visibilidade

Enquanto guerras devastam territórios e populações, uma segunda batalha se trava nos meios de comunicação: a disputa pela narrativa. O enquadramento midiático dos conflitos contemporâneos revela estruturas de poder que determinam quais vidas importam, quais violências merecem cobertura e quais versões da história serão legitimadas. Da Palestina à Ucrânia, do Iêmen ao Sudão, a geografia da atenção midiática expõe hierarquias globais que vão muito além do jornalismo — refletindo e reforçando a própria arquitetura do sistema internacional.

O Filtro Ocidental: Quando a Guerra Vira Notícia

A cobertura midiática de conflitos armados não é neutra nem acidental. Pesquisas acadêmicas demonstram que guerras envolvendo potências ocidentais ou seus aliados estratégicos recebem até dez vezes mais atenção das principais redes de notícias internacionais do que conflitos de magnitude similar em outras regiões. Este fenômeno não resulta apenas de limitações logísticas, mas de escolhas editoriais estruturadas por interesses geopolíticos e proximidade cultural percebida.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, a cobertura midiática ocidental foi imediata, massiva e emocionalmente carregada. Jornalistas da CBS, BBC e Al Jazeera English não esconderam o choque: como poderia uma guerra acontecer em um país “civilizado”, “europeu”, onde as pessoas “têm olhos azuis e cabelos loiros”? Essas declarações, amplamente criticadas mas reveladoras, explicitaram o que geralmente permanece implícito nas redações: existe uma hierarquia de humanidade que determina qual sofrimento merece luto coletivo.

IMAGEM 1; meta-descrição: Comparação de capas de jornais ocidentais sobre diferentes conflitos; legenda: A discrepância na cobertura midiática revela hierarquias geopolíticas [Montagem]

Contraste-se com a guerra no Iêmen, onde uma coalizão liderada pela Arábia Saudita — com armamento americano e apoio logístico ocidental — conduziu bombardeios que mataram mais de 377 mil pessoas entre 2014 e 2021, segundo estimativas da ONU. A fome induzida pelo bloqueio saudita ameaçou milhões. No entanto, o conflito raramente alcançou manchetes internacionais. Não houve corrente de solidariedade global, não houve bandeiras iemenitas iluminando monumentos europeus, não houve debates acalorados sobre sanções aos agressores.

A Gramática da Violência Legitimada

O linguajar utilizado para descrever conflitos também obedece a padrões reveladores. Quando forças ocidentais ou aliadas realizam operações militares, predominam termos técnicos e assépticos: “operação de precisão”, “dano colateral”, “neutralização de alvos”. Quando adversários geopolíticos agem, o vocabulário se torna moralmente carregado: “massacre”, “atrocidade”, “crime de guerra”.

Durante a invasão americana do Iraque em 2003, a operação foi amplamente apresentada como uma missão de “libertação” e “democratização”, apesar da ausência de armas de destruição em massa — o pretexto oficial. Estimativas acadêmicas, como o Lancet Study, apontam mais de 600 mil mortes iraquianas na primeira fase da ocupação. Contudo, raramente se discutiu responsabilização criminal de lideranças ocidentais pelos mesmos padrões aplicados a outros atores internacionais.

A guerra da Palestina oferece exemplo ainda mais cristalino. Quando grupos palestinos realizam ataques, a mídia ocidental predominantemente os classifica como “terrorismo”. Quando Israel bombardeia Gaza — matando mais de 45 mil pessoas desde outubro de 2023, segundo autoridades de saúde locais, incluindo milhares de crianças — o enquadramento hegemônico é de “autodefesa” ou “resposta a provocações”, mesmo quando organizações de direitos humanos como Amnistia Internacional e Human Rights Watch documentam crimes de guerra e políticas de apartheid.

IMAGEM 2; meta-descrição: Manifestação pró-Palestina em cidade ocidental; legenda: Movimentos sociais desafiam narrativas hegemônicas sobre a Palestina [Fonte: Reuters]

Infraestrutura da Narrativa: Quem Controla a História

A concentração de agências de notícias globais em países do Norte Global não é coincidência histórica, mas resultado de estruturas coloniais e neocoloniais. As três principais agências — Associated Press (AP), Reuters e Agence France-Presse (AFP) — baseadas nos EUA, Reino Unido e França, fornecem a maior parte do conteúdo internacional consumido mundialmente. Esta centralização significa que mesmo veículos de países periféricos frequentemente reproduzem enquadramentos produzidos nesses centros.

Think tanks e centros de pesquisa financiados por governos ocidentais ou complexos militar-industriais também moldam narrativas. O Council on Foreign Relations, a RAND Corporation e institutos atlânticos produzem análises que circulam como referências “neutras” e “técnicas”, embora operem dentro de premissas ideológicas específicas sobre ordem mundial, interesses nacionais e ameaças à segurança — quase sempre alinhadas aos interesses das potências estabelecidas.

Plataformas digitais adicionam nova camada de complexidade. Algoritmos do YouTube, Facebook e Google privilegiam conteúdos de veículos estabelecidos, frequentemente ocidentais, em detrimento de mídias locais ou contra-hegemônicas. Durante conflitos, moderação de conteúdo frequentemente remove narrativas palestinas classificando-as como “incitação à violência”, enquanto preserva discursos que justificam ações militares israelenses.

Vozes Silenciadas: Mídia e Perspectivas Locais

Enquanto correspondentes ocidentais entram e saem de zonas de conflito com proteção institucional, jornalistas locais arriscam vidas com pouquíssima visibilidade internacional. Segundo o Comitê para Proteção dos Jornalistas, mais de 60 jornalistas palestinos foram mortos desde o início da atual guerra em Gaza — a maioria enquanto documentava bombardeios israelenses. Suas mortes raramente geram comoção proporcional à de repórteres ocidentais em situações de risco.

Mídias locais de países periféricos enfrentam ainda barreiras estruturais: falta de financiamento, infraestrutura precária, bloqueios de internet impostos por governos, e deslegitimação prévia por serem consideradas “parciais” — um luxo de suposta imparcialidade que raramente se exige de veículos ocidentais.

IMAGEM 3; meta-descrição: Jornalista local documentando destruição em zona de conflito; legenda: Profissionais locais arriscam vidas para documentar guerras esquecidas pelo Norte Global [Fonte: CPJ]

Iniciativas como Al Jazeera, apesar de também possuírem suas próprias agendas geopolíticas vinculadas ao Qatar, conseguiram apresentar perspectivas alternativas que desafiam hegemonias narrativas — razão pela qual enfrentam pressões diplomáticas constantes e, em Israel, foram objeto de tentativas de banimento.

Duplos Padrões: Refugiados, Sanções e Indignação Seletiva

A reação europeia à crise de refugiados ucranianos versus sírios ilustra dramaticamente hierarquias racializadas. Refugiados ucranianos foram recebidos com isenção de vistos, acolhimento estatal e solidariedade popular em países da União Europeia. Refugiados sírios, fugindo de guerra igualmente devastadora, enfrentaram muros, gás lacrimogêneo, campos de detenção e retórica xenofóbica — a mesma Europa que agora se orgulha de sua humanidade.

Sanções econômicas seguem lógica similar. A Rússia enfrentou o pacote de sanções mais abrangente da história moderna após invadir a Ucrânia. Israel, apesar de décadas de ocupação militar, expansão de assentamentos ilegais e bloqueio a Gaza, jamais enfrentou sanções significativas de potências ocidentais — pelo contrário, recebe bilhões em ajuda militar dos Estados Unidos anualmente.

A Contra-Narrativa: Resistências e Alternativas

Apesar da hegemonia midiática ocidental, resistências emergem. Movimentos sociais globais, especialmente entre juventudes, questionam narrativas estabelecidas através de redes sociais. A campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra Israel, embora criminalizada em vários países ocidentais, ganhou força global. Coletivos de jornalismo independente multiplicam-se em África, América Latina e Oriente Médio, produzindo coberturas que centram experiências locais.

Acadêmicos do campo dos estudos pós-coloniais e decoloniais, como Edward Said em “Covering Islam” ou Vijay Prashad em suas análises sobre neoliberalismo e imperialismo, fornecem ferramentas teóricas para desmontar enquadramentos hegemônicos. Organizações como Fairness & Accuracy In Reporting (FAIR) documentam sistematicamente vieses e distorções da mídia corporativa.

IMAGEM 4; meta-descrição: Ativistas seguram cartazes questionando cobertura midiática; legenda: Movimentos sociais pressionam por narrativas mais justas sobre conflitos [Fonte: Arquivo]

Para Além da Informação: Guerra Cognitiva e Legitimação

O que está em jogo transcende informação: trata-se de legitimação política. Narrativas midiáticas não apenas descrevem conflitos, mas determinam quais guerras são justas, quais resistências são legítimas, quais vítimas merecem compaixão. Essa função ideológica sustenta estruturas de dominação global.

Quando mídia ocidental apresenta bombardeios da OTAN como “intervenções humanitárias” mas operações russas como “agressões imperialistas” — independentemente de análises sobre a validade de cada caso — ela não está fazendo jornalismo neutro, mas geopolítica narrativa. Está consolidando consensos que facilitam certas políticas externas enquanto dificultam outras.

A Guerra ao Terror exemplifica isso perfeitamente. Durante duas décadas, mídia mainstream reproduziu enquadramentos governamentais sobre “ameaças terroristas” que justificaram invasões, torturas, vigilância em massa e morte de centenas de milhares. Vozes dissidentes foram marginalizadas como antipatrióticas ou ingênuas. Somente anos depois, quando consensos políticos mudaram, críticas à invasão do Iraque se tornaram aceitáveis no debate público.

O Espelho Partido: Refletindo Sobre Nosso Consumo

Que responsabilidade carregam consumidores de notícias nesse sistema? A resposta não é simples. Audiências são simultaneamente vítimas e cúmplices de estruturas midiáticas que filtram realidade através de interesses específicos. A solução não está apenas em buscar “fontes alternativas” — que também possuem suas próprias agendas — mas em desenvolver literacia crítica sobre como narrativas são construídas.

Perguntas essenciais ao consumir cobertura de conflitos: Quem financia este veículo? Quais fontes são citadas e quais são ignoradas? Que linguagem se usa para descrever diferentes atores? Quais contextos históricos são omitidos? Vítimas de qual lado recebem nomes, rostos e histórias individualizadas, enquanto outras permanecem estatísticas abstratas?

Diversificar radicalmente consumo de mídia — incluindo veículos de regiões afetadas, análises acadêmicas independentes, relatórios de organizações de direitos humanos — não garante verdade absoluta, mas oferece perspectivas múltiplas que revelam os silêncios e ênfases de cada narrativa.

Entre a Crítica e a Paralisia: Caminhos Possíveis

Reconhecer manipulação midiática não deve levar ao cinismo paralisante de que “toda mídia mente igualmente”. Existem diferenças substantivas entre jornalismo investigativo rigoroso e propaganda estatal, entre análise fundamentada e especulação sensacionalista, entre veículos que admitem e corrigem erros e aqueles que operam impermeáveis a evidências.

O desafio está em recusar tanto a ingenuidade de aceitar narrativas hegemônicas acriticamente quanto o niilismo de rejeitar toda possibilidade de conhecimento sobre conflitos distantes. Construir entendimento mais próximo da realidade exige esforço: comparar múltiplas fontes, compreender contextos históricos, reconhecer que toda narrativa possui ponto de vista — incluindo aquelas que se apresentam como objetivas.

Significa também reconhecer nossa própria posição no sistema de poder global. Leitores no Norte Global consomem notícias produzidas por estruturas que historicamente serviram interesses coloniais e neocoloniais. Leitores em regiões periféricas enfrentam o desafio de narrativas que frequentemente os desumanizam ou ignoram. Ambos precisam de ferramentas críticas para navegar este terreno.

Desmontar o Consenso Fabricado

Se guerras são continuações da política por outros meios, narrativas de guerra são continuações da dominação por meios discursivos. A disputa sobre como conflitos são enquadrados não é secundária à guerra material — é parte constituinte dela. Sem legitimação narrativa, torna-se politicamente difícil sustentar operações militares prolongadas em democracias; sem desumanização midiática do inimigo, resistências internas crescem.

Por isso, desafiar enquadramentos hegemônicos sobre conflitos não é exercício acadêmico abstrato, mas ato político concreto. Cada vez que audiências questionam por que certas mortes recebem minutos de cobertura e outras nem menção, por que certos agressores enfrentam sanções enquanto outros recebem armas, estão corroendo consensos fabricados que sustentam sistemas de poder.

A pergunta que permanece não é apenas “como conflitos são enquadrados”, mas: em um mundo onde informação é abundante mas atenção é escassa, quem decide o que merece ser visto? E mais importante: como podemos, coletivamente, desafiar essas hierarquias de visibilidade que refletem e perpetuam hierarquias de poder? A resposta começa com a recusa em aceitar que qualquer narrativa — especialmente aquela que se apresenta como universal e neutra — esteja acima do escrutínio crítico. Porque no fim, toda história de guerra é também uma história sobre quem tem o poder de contá-la.


Referências:

  • Said, Edward W. Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How We See the Rest of the World. Vintage, 1997.
  • Herman, Edward S., e Noam Chomsky. Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. Pantheon Books, 1988.
  • Amnesty International. “Israel’s Apartheid Against Palestinians: A Cruel System of Domination and a Crime Against Humanity”, 2022.
  • Human Rights Watch. “A Threshold Crossed: Israeli Authorities and the Crimes of Apartheid and Persecution”, 2021.
  • Committee to Protect Journalists. Annual Reports on Journalist Safety, 2023-2024.
  • Roberts, Les et al. “Mortality before and after the 2003 invasion of Iraq: cluster sample survey”. The Lancet, 2006.

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