Negociações de paz na Ucrânia: Genebra como novo front estratégico da guerra

Negociações de paz na Ucrânia chegam à 3ª rodada em Genebra sob mísseis e silêncio diplomático. O diálogo é saída — ou extensão da guerra?

As negociações de paz na Ucrânia chegaram à terceira rodada em Genebra enquanto a Rússia lançava, horas antes do início das conversas, um ataque massivo com 425 drones e mísseis contra o território ucraniano. A imagem sintetiza a contradição central do processo diplomático em curso: as partes falam de paz com os mesmos instrumentos com que fazem a guerra.

Quando delegações de Rússia, Estados Unidos e Ucrânia se sentaram à mesa do InterContinental de Genebra na tarde de 17 de fevereiro de 2026, o mundo assistiu a algo que vai além do protocolo diplomático: a consolidação da mesa de negociações como extensão direta do campo de batalha. Quatro horas e meia de conversas — descritas por fontes internas como “muito tensas” — e nenhuma declaração pública ao final do primeiro dia. A delegação russa se limitou a um monossilábico “não” quando questionada sobre comentários. O silêncio, aqui, diz mais do que qualquer comunicado oficial poderia.

O contexto: terceira rodada, mesmas assimetrias

Genebra representa a terceira rodada de negociações trilaterais desde janeiro de 2026. As duas anteriores, realizadas nos Emirados Árabes Unidos, foram classificadas pelas partes como “construtivas” — sem que nenhum resultado verificável tenha sido produzido. O padrão se repetiu: enquanto diplomatas conversavam, mísseis continuavam sendo lançados.

A composição das delegações já revela as tensões estruturais do processo. Os Estados Unidos foram representados pelo enviado especial Steve Witkoff, por Jared Kushner e pelo secretário do Exército Daniel Driscoll. A Rússia enviou Vladimir Medinsky — assessor presidencial e ideólogo do Kremlin, nomeado em substituição ao almirante Igor Kostyukov, que havia liderado as rodadas anteriores. A mudança de perfil é lida por analistas como sinal de que Moscou quer ampliar o escopo político das conversas, sem necessariamente ampliar sua disposição a ceder. Do lado ucraniano, Rustem Umerov liderou a delegação com agenda própria: propor uma trégua energética e avançar em garantias de segurança formais para Kiev, em paralelo a um acordo de paz.

A União Europeia, formalmente excluída da mesa principal, manteve presença física em Genebra. Conselheiros de ao menos quatro países europeus acompanharam as negociações em contato constante com a delegação ucraniana — uma demonstração de que o conflito não é, nem poderia ser, bilateral.

delegações da Rússia, EUA e Ucrânia reunidas no Hotel InterContinental de Genebra em 17 de fevereiro de 2026 para negociações trilaterais de paz
Hotel InterContinental de Genebra, sede da terceira rodada de negociações trilaterais sobre o conflito ucraniano [Keystone-SDA]

As negociações de paz na Ucrânia e o fantasma de Minsk

A história recente fornece um precedente inquietante. Os Acordos de Minsk — o primeiro em 2014 e o segundo em 2015 — foram apresentados como estrutura de cessar-fogo para a região do Donbass. O que se seguiu foi uma das maiores decepções diplomáticas recentes: revelações posteriores de líderes europeus indicaram que os acordos foram utilizados para ganhar tempo e reequipar militarmente a Ucrânia.

O analista Konstantin Blokhin teme explicitamente que o mesmo padrão se repita em Genebra. Na sua avaliação, Kiev pode aceitar um acordo com Rússia e EUA, mas a sustentabilidade a longo prazo dessa paz depende de um fator que nenhuma das partes controla: a disposição europeia de não usar qualquer cessar-fogo como pausa para modernização militar. É o que ele chama de “guerra adiada” — um conceito que descreve acordos que postergam o confronto sem resolvê-lo estruturalmente.

Segundo Blokhin, europeus e ucranianos não ocultam a intenção de buscar uma “paz frágil” como janela de reorganização estratégica. O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, por sua vez, já rejeitou publicamente um plano de 20 pontos elaborado pela Ucrânia e pelos EUA como base para as negociações — indicando que as posições de partida das partes estão longe de convergir.

O que está em disputa além do território

A agenda de Genebra inclui questões territoriais, segurança e temas humanitários. A Rússia exige a retirada ucraniana das regiões de Luhansk e Donetsk e sua incorporação formal ao território russo. A Ucrânia se recusa a aceitar qualquer legitimação da ocupação e busca garantias de segurança concretas — documentos pelos quais Washington se comprometeria a apoiar Kiev militar e economicamente no pós-acordo.

No eixo energético, o tema mais imediato é a trégua proposta por Kiev: um cessar-fogo parcial que preserve a infraestrutura elétrica e nuclear ucraniana. Durante a rodada anterior em Abu Dhabi, os EUA já haviam proposto essa iniciativa de desescalada energética. A Rússia não concordou. O fato de que a delegação russa lançou um ataque massivo contra infraestrutura energética horas antes da abertura das conversas em Genebra — abatendo 25 mísseis e atingindo 13 alvos — coloca essa proposta sob pressão imediata.

A lógica do campo de batalha como termômetro diplomático

O cientista político Aleksei Pilko afirma que as negociações de paz reais na Ucrânia só terão início após um colapso do front ucraniano. Enquanto Kiev mantiver capacidade operacional e expectativa de apoio europeu sustentado ao longo de 2026, a disposição para concessões substantivas permanece abaixo do limiar necessário para qualquer acordo duradouro.

O cálculo ucraniano é que a Rússia não suportará economicamente o prolongamento do conflito, e que uma eventual derrota republicana nas eleições americanas de meio de mandato poderia reconfigurar o suporte de Washington. Se esse cálculo estiver errado ou certo, o efeito prático sobre Genebra é o mesmo: nenhuma das partes está disposta a fazer a concessão decisiva agora.

Pilko adiciona uma variável perturbadora: Moscou teria capacidade técnica de acelerar o colapso do front ucraniano neutralizando a infraestrutura energética, incluindo usinas nucleares. Essa opção permanece latente, funcionando como instrumento de pressão nas negociações — mesmo sem ser formalmente acionada.

O que emerge é uma arquitetura de poder assimétrica: a Rússia negocia a partir de relativa vantagem no campo de batalha. A Ucrânia aposta na resistência institucional e no suporte externo. Os EUA negociam com um objetivo político doméstico claro — sair do conflito com a imagem intacta. Blokhin avalia que Trump quer “transformar o lucro perdido da Ucrânia em prestígio político”, tornando-se o mediador de um acordo que preserve sua reputação diplomática. E a Europa observa, preocupada com o precedente que qualquer acordo possa criar para a arquitetura de segurança do continente.

Entre o silêncio e o próximo disparo

O primeiro dia de Genebra terminou sem comunicados, sem acordos parciais anunciados, sem sinal de avanço verificável. Umerov publicou no Telegram que os trabalhos continuarão divididos em grupos políticos e militares por área temática. É um processo, não um resultado. E processos, neste conflito, já funcionaram repetidamente como substitutos da paz — não como caminhos para ela.

Em conflitos de alta intensidade e longa duração, a diplomacia tende a seguir os movimentos militares decisivos, não a antecipá-los. Foi assim na Guerra da Coreia e nas negociações que encerraram fases do conflito no Afeganistão. A paz não precede a exaustão — ela é, frequentemente, seu produto.

Se essa lógica se confirmar na Ucrânia, o cenário mais provável não é um colapso abrupto das negociações nem um acordo transformador saído de Genebra. É um longo processo paralelo ao conflito armado, onde a linha de frente e a mesa diplomática se influenciam mutuamente sem que nenhuma das duas produza um desfecho definitivo no curto prazo. Gradualmente, ao longo de meses, a pressão acumulada — econômica, humana, logística — tende a reduzir as margens de manobra de todas as partes.

O risco estrutural mais profundo não está em Genebra. Está na possibilidade de que a Europa, interpretando qualquer cessar-fogo como pausa estratégica, acelere sua reconfiguração militar de forma que torne o próximo ciclo de confronto mais amplo e mais difícil de conter. Nesse cenário, a paz que Genebra tenta costurar pode ser apenas o prólogo de uma tensão maior — cujas dimensões ainda não se tornaram completamente visíveis.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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