A rivalidade sino-americana transforma a posição estratégica do Brasil em ativo diplomático — e em pressão crescente sobre sua política externa.
A definição do Brasil sobre a Nova Rota da Seda deixou de ser uma questão econômica. No contexto da crescente rivalidade entre Estados Unidos e China pela influência na América Latina, a decisão tornou-se um dos movimentos geopolíticos mais observados da região.
A disputa pelo Canal do Panamá expôs a nova arquitetura de competição entre Washington e Pequim. Desde 2025, o governo Trump pressiona pela retomada do controle norte-americano sobre o canal, alegando influência indireta chinesa por meio da operação de portos adjacentes pela CK Hutchison, empresa sediada em Hong Kong. A Suprema Corte do Panamá declarou inconstitucionais os contratos da companhia — decisão lida em Pequim como interferência direta de Washington. Para a China, o Panamá era um dos pilares da Iniciativa Cinturão e Rota — o projeto de infraestrutura e conectividade global lançado em 2013 e popularmente chamado de Nova Rota da Seda.
O Brasil e a Nova Rota da Seda: entre barganha e pressão
O Brasil acompanha esse movimento a partir de uma posição singular: segunda maior economia do continente americano, membro de destaque do BRICS e com negociações ainda abertas sobre sua adesão formal à Nova Rota da Seda. Essa indecisão, lida por alguns como hesitação, funciona na prática como instrumento de política externa.
Para Alexandre Coelho, coordenador de pós-graduação em política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e ex-consultor jurídico do Banco da China, a lógica é direta: quanto mais estratégico o Brasil se torna, mais os dois lados esperam sinais de alinhamento. Assinar a iniciativa chinesa agora seria lido como aproximação com Pequim; recusar seria um sinal igualmente carregado para Washington.

Diego Pautasso, doutor em ciência política pela UFRGS e cocriador do projeto Fios de China, avalia que o Brasil reforça, com sua posição atual, o multilateralismo típico de sua diplomacia — não alianças rígidas, mas preservação de margem de manobra. O problema é que essa margem tem prazo. Membro do BRICS e aspirante a maior protagonismo global, o Brasil já enviou sinais. A decisão sobre a Nova Rota da Seda enviará mais.
Geopolítica da América Latina: o peso do fiel da balança
Ao longo das últimas duas décadas, a China consolidou-se como principal parceiro comercial da maioria dos países da região, segundo dados da CEPAL. Vários já aderiram formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota. Os EUA, por sua vez, reafirmam a América Latina como zona de influência prioritária — lógica que remonta à Doutrina Monroe, do século XIX.
A disputa pelo alinhamento regional não ocorre de forma abrupta. Ela se acumula por contratos, rotas, investimentos e adesões. O Brasil, pela escala de sua economia, pela extensão de seu território e pelo peso diplomático, é a peça central desse tabuleiro — e, justamente por isso, a que enfrenta maior pressão para se mover.
O que está em aberto não é se o Brasil precisará se posicionar, mas quando e sob quais condições o fará.
Como evoca Pautasso, a estratégia de “atravessar o rio tateando as pedras” pode ser prudente. Mas rios mudam de curso — e a pedra que sustenta o passo em um momento pode não estar no mesmo lugar no seguinte. A multipolaridade em construção não espera indefinidamente pelos indecisos.
Referências
- COELHO, Alexandre. Entrevista à Sputnik Brasil, fev. 2026. Disponível em: noticiabrasil.net.br
- PAUTASSO, Diego. China e Rússia no Pós-Guerra Fria: Inserção Internacional e Transição Sistêmica. Disponível em: Fios de China
- CEPAL. China y América Latina y el Caribe: hacia una relación económica y comercial estratégica. Disponível em: cepal.org
- Iniciativa Cinturão e Rota — Ministério das Relações Exteriores da China. Disponível em: fmprc.gov.cn



Você precisa fazer login para comentar.