“Essas questões são importantes demais para serem deixadas nas mãos dos eleitores.”— Henry Kissinger, sobre a eleição chilena de 1970
Quem Decide Antes de Você Votar
As pesquisas eleitorais brasileiras de 2026 não apenas registram a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro — elas a constroem. Com dinheiro de campanha concentrado, tempo de TV distribuído por bancada e ciclos de agenda midiática que decidem quem é “viável”, o resultado começa a ser fabricado muito antes de outubro.
O que a pesquisa do Datafolha revela — e o que ela oculta
Em 7 de março de 2026, o Datafolha divulgou uma sondagem que concentrou o debate eleitoral em dois nomes: Lula (PT) com 38–39% e Flávio Bolsonaro (PL) com 32–34% no primeiro turno. Somados, os dois candidatos detêm cerca de 73% das intenções de voto declaradas. Nenhum terceiro nome supera 10%.
| Candidato | Intenção (1º turno) | Rejeição |
|---|---|---|
| Lula (PT) | ~39% | ~46% |
| Flávio Bolsonaro (PL) | ~34% | ~45% |
| Demais candidatos | < 10% cada | — |
O dado mais revelador não é a intenção de voto — é a rejeição. Os dois candidatos mais votados são também os mais rejeitados do país, ambos acima de 45%. É o que a ciência política denomina polarização negativa: uma eleição em que cada bloco se sustenta não pelo entusiasmo com o próprio candidato, mas pelo medo do adversário.
Mas esse cenário bipolar representa o eleitorado real? Um estudo da organização More in Common com o instituto Quaest identificou que apenas 11% dos eleitores brasileiros estão nos extremos ideológicos. A maioria ocupa posições intermediárias ou está pouco engajada na disputa binária dominante. O duelo que as pesquisas projetam é, em parte, um artefato do instrumento que o mede.

Como as pesquisas eleitorais constroem a percepção de quem pode vencer
A teoria do agenda-setting, formulada por Maxwell McCombs e Donald Shaw, estabelece que a mídia não diz às pessoas o que pensar — mas determina sobre o que pensar. Quanto mais um candidato aparece no noticiário, mais sua imagem se consolida como “viável”. Estudos comparando a agenda midiática e a agenda pública em ciclos eleitorais encontraram correlações significativas entre cobertura e posição nas pesquisas.
O ciclo fecha com precisão: a pesquisa é publicada destacando dois líderes; a imprensa amplifica o duelo; o eleitor internaliza que a disputa é apenas entre dois nomes; a sondagem seguinte confirma essa percepção. A agenda eleitoral não é descoberta — é iterada.
“As pesquisas de opinião tratam a opinião pública como um dado quando ela é, na verdade, um produto.”— Pierre Bourdieu, A opinião pública não existe, 1973
O cientista político Jens Olav Dahlgaard, da Copenhagen Business School, quantificou o chamado bandwagon effect: a exposição a pesquisas que mostram um candidato em ascensão aumenta em cerca de 7% os votos pela opção majoritária em experimentos controlados. Em uma eleição em que o segundo turno empata tecnicamente a 3 pontos percentuais — como mostra o Datafolha —, essa margem não é irrelevante.
Dinheiro e antena: a desigualdade que precede a campanha
Antes de qualquer pesquisa, a Lei das Eleições (Lei nº 9.504/1997) já distribui 90% do Horário Eleitoral Gratuito proporcionalmente ao tamanho das bancadas na Câmara. O Fundo Eleitoral segue a mesma lógica: o PL recebeu cerca de R$ 886 milhões na distribuição mais recente; partidos pequenos, aproximadamente R$ 3 milhões — uma diferença de quase 300 vezes. Quem já é grande recebe mais visibilidade para continuar grande. A polarização que as pesquisas registram começa nessa arquitetura legal.
O voto que pune, não escolhe
Christopher Achen e Larry Bartels, em Democracy for Realists, demonstraram empiricamente que eleitores raramente decidem avaliando propostas. Decidem por identidade de grupo e antagonismo ao campo rival — o chamado negative partisanship. No Brasil, os dados confirmam: rejeições de 46% e 45% para os dois líderes indicam que grande parte do eleitorado não vai às urnas para dizer sim a alguém. Vai para impedir o outro.
Profecia autorrealizável (Robert Merton): quando pesquisas projetam dois líderes absolutos, o financiamento migra para eles, a cobertura os privilegia, o voto estratégico os alimenta — e a sondagem seguinte confirma o que a anterior havia sugerido. A previsão produz o resultado que prevê.
O que a bipolarização fabricada custa à democracia
A pesquisadora Noam Chomsky, em Necessary Illusions, argumentou que sistemas de mídia corporativos simplificam conflitos e privilegiam narrativas de alto rendimento emocional. Uma eleição narrada como duelo entre dois rivais históricos é mais fácil de vender do que um debate sobre soberania energética, política industrial ou reforma tributária. O horse-race journalism — a cobertura-corrida-de-cavalos — não é distorção acidental: é produto de uma indústria que confunde engajamento com profundidade.
As consequências são mensuráveis. Primeiro, a alienação política: ao perceber que a disputa já está definida, parte do eleitorado desengaja. Segundo, a radicalização emocional: sem debate programático, a política migra para o terreno do medo e da identidade. Terceiro, a despolitização temática: questões estruturais saem da agenda pública quando a cobertura se concentra nos números da semana.
O analista estatístico Nate Silver alertou para o fenômeno do herding: institutos de pesquisa tendem a ajustar resultados para ficarem próximos de outros polls, evitando erros públicos mas comprometendo a independência metodológica. A convergência artificial reforça a narrativa dominante — não porque o eleitorado convirja, mas porque os institutos têm medo de divergir.
As redes sociais abriram uma brecha real nesse circuito fechado. Em 2018, Bolsonaro demonstrou que era possível chegar à presidência compensando déficit de tempo de TV com mobilização digital. O surgimento de um mapa ideológico tripolar — globalismo institucional, soberanismo nacional-populista e tecnocracia digital — introduz tensões que não cabem no binômio das pesquisas. Mas o algoritmo também polariza. A bolha digital pode ser diferente da bolha televisiva; não é necessariamente menos bolha.
Kissinger dizia que as questões eram importantes demais para serem deixadas aos eleitores. Hoje esse julgamento não precisa ser declarado: ele opera silenciosamente, distribuído em planilhas de fundo eleitoral, grades de horário eleitoral e ciclos de agenda-setting que desenham o campo do possível antes que o eleitor chegue à urna. Reconhecer esse mecanismo é o primeiro gesto de autonomia dentro de um sistema desenhado para prescindi-la.
Referências
- Datafolha (mar. 2026). Pesquisa eleitoral presidencial — março de 2026. Poder360 | Reuters
- McCombs, M.; Shaw, D. (1972). The Agenda-Setting Function of Mass Media. Public Opinion Quarterly, 36(2), 176–187. Wikipedia – Agenda-setting theory
- Bourdieu, P. (1973). L’opinion publique n’existe pas. Les Temps Modernes. Análise sobre Bourdieu e pesquisas
- Dahlgaard, J. O. (2017). How are Voters Influenced by Opinion Polls? jodahlgaard.com
- Achen, C.; Bartels, L. (2016). Democracy for Realists. Princeton University Press. Princeton UP
- Chomsky, N. (1989). Necessary Illusions: Thought Control in Democratic Societies. South End Press. Wikipedia
- Silver, N. (2023). Cheating Pollsters Are Putting a Finger on the Scale. Yahoo News
- More in Common / Quaest. Segmentos do eleitorado brasileiro. moreincommon.com
- Brasil. Lei nº 9.504/1997. Lei das Eleições — distribuição do horário eleitoral gratuito. Planalto.gov.br
- Kissinger, H. (1970). Declaração sobre a eleição chilena — reunião da Casa Branca. Registrada em: Wikipedia – Henry Kissinger
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