Radares THAAD destruídos: o escudo americano no Golfo ruiu

O Irã destruiu radares THAAD na Jordânia, EAU e Catar. O que isso significa para a segurança do Golfo e a credibilidade militar dos EUA na região?
Imagem de satélite de alta resolução mostrando a Base Aérea de Muwaffaq Salti (Jordânia) com marcações visíveis dos galpões destruídos que abrigavam os sistemas radar THAAD
Imagens de satélite da Base Aérea de Muwaffaq Salti (Jordânia). [Crédito: imagens de satélite comerciais / reprodução via imprensa internacional e análise OSINT]

A destruição de sistemas de defesa antimísseis THAAD por forças iranianas na Jordânia, nos Emirados Árabes Unidos e no Catar marca uma virada estratégica sem precedentes: pela primeira vez, o Irã demonstrou capacidade de neutralizar a espinha dorsal tecnológica da presença militar dos EUA no Oriente Médio — expondo, diante de aliados e adversários, o vazio por trás da promessa de proteção americana.

O que aconteceu: destruição dos radares THAAD no Golfo

Nos primeiros dias da guerra EUA-Israel contra o Irã — iniciada em 28 de fevereiro de 2026 — a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) lançou uma campanha sistemática contra a infraestrutura de defesa antimíssil americana espalhada pelo Golfo. Imagens de satélite analisadas pela CNN e confirmadas pelo comunicado da IRGC revelaram a extensão do dano: o radar AN/TPY-2, componente central do sistema THAAD na Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia — localizada a mais de 800 km do Irã —, foi completamente destruído. Instalações militares em Ruwais e Sader, nos Emirados Árabes Unidos, sofreram danos severos em estruturas que abrigavam sistemas de radar para baterias THAAD. No Catar, o radar de alerta antecipado FPS-132 (Olho do Deserto), em Umm Dahal, também foi atingido.

O Pentágono recusou-se a comentar “o status de capacidades específicas na região”. O especialista em munições N.R. Jenzen-Jones, diretor da Armament Research Services (ARES), foi mais direto ao avaliar o dano à CNN: o radar destruído na Jordânia representa uma “perda significativa” e não pode ser facilmente reparado. O custo de cada radar transportável AN/TPY-2 gira em torno de meio bilhão de dólares; cada interceptor THAAD, US$ 12,7 milhões. Só nas primeiras 48 horas do conflito, Washington gastou mais de US$ 10 bilhões em sistemas de defesa aérea. Os primeiros quatro dias de guerra somaram pelo menos US$ 2 bilhões em perdas materiais, segundo a Agência Anadolu.

imagem de satélite mostrando danos ao radar THAAD na Base Aérea de Muwaffaq Salti, Jordânia, após ataque iraniano em março de 2026
Imagem de satélite da Base Aérea de Muwaffaq Salti, Jordânia, com danos confirmados ao sistema radar THAAD após ataque iraniano. [Crédito: Reprodução / X (Twitter) – análise OSINT com imagem de satélite comercial]
Base vista anteriormente [Créditos: The Jerusalem Post via Yahoo/ imagem de satélite comercial.

Por que a destruição de radares THAAD muda o cálculo geopolítico

O sistema THAAD — Terminal High Altitude Area Defense — é projetado para interceptar mísseis balísticos em sua fase terminal de voo. Seu radar AN/TPY-2 é o que confere ao sistema alcance e precisão; sem ele, as baterias de interceptores ficam operacionalmente cegas. A destruição desses radares não é apenas uma perda material: é uma demonstração de que o Irã mapeou, priorizou e atacou com êxito o ponto nevrálgico da arquitetura de defesa americana na região — antes mesmo que essa defesa pudesse ser plenamente ativada.

Essa capacidade iraniana desfaz uma ilusão central da ordem de segurança do Golfo desde os anos 1990: a de que a presença militar americana funcionaria como dissuasão suficiente. Como analisa Marc Lynch, professor de relações internacionais da Universidade George Washington e autor de O Oriente Médio Americano: A Ruína de uma Região, as monarquias do Golfo há muito perceberam que Washington não podia ou não queria compensar sua vulnerabilidade real — uma percepção que se aprofundou depois dos ataques às refinarias da Aramco em 2019 e que a guerra atual transformou em certeza política.

A lógica estratégica iraniana, conforme descrita por Mohamad Hasan Sweidan no The Cradle, opera em três eixos: internacionalizar o campo de batalha ao atingir ativos americanos em vários países; pressionar as monarquias do Golfo a reconsiderarem o valor das bases americanas em seus territórios; e criar custos econômicos globais imediatos para forçar negociações. A destruição dos radares THAAD atende simultaneamente aos três objetivos.

O dilema das monarquias do Golfo: proteção ou alvo?

A questão que os ataques iranianos colocaram de forma irreversível às capitais do Golfo é: as bases americanas as protegem ou as tornam alvos? A Dra. Ebtesam al-Ketbi, presidente do Emirates Policy Center, sintetizou essa percepção ao afirmar à Reuters que a região estava “na linha de fogo” — e que o Irã atacou o Golfo antes de qualquer outra frente, usando como pretexto a presença das bases americanas.

Os Emirados Árabes Unidos fecharam sua embaixada em Teerã e retiraram seu embaixador, numa escalada diplomática sem precedentes para um país que construiu sua identidade regional em torno da neutralidade e da atratividade econômica. O Catar, que abriga a maior base aérea dos EUA no Oriente Médio e se posicionava como mediador regional, viu sua infraestrutura civil atacada, suspendeu temporariamente a produção de GNL e declarou força maior em contratos de entrega. A Arábia Saudita, por sua vez, enfrenta o paradoxo de ser forçada a uma cooperação militar aberta com Israel — algo que sua legitimidade doméstica e regional dificulta enormemente — sem ter sido consultada sobre a decisão de ir à guerra.

A lógica da distensão que havia levado Riad e Teerã a restabelecer relações diplomáticas em 2023, sob auspícios chineses, foi varrida pela dinâmica de escalada que Washington e Tel Aviv geraram sem consulta prévia aos aliados do Golfo. Como Lynch observa, os líderes regionais “têm bons motivos para acreditar que os EUA e Israel iniciaram uma guerra que impacta diretamente sua sobrevivência, sem uma consulta séria.”

Consequências: energia, mercados e reordenamento regional

O impacto imediato se fez sentir nos mercados globais de energia. O Catar suspendeu a produção de gás e declarou força maior em contratos de GNL — e o país responde por parcela significativa das exportações globais de gás natural liquefeito. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo, tornou-se zona de risco operacional. Empresas de transporte marítimo passaram a redirecionar rotas; seguros contra riscos de guerra dispararam.

Mais profunda é a fratura geopolítica de longo prazo. A destruição dos radares THAAD sinaliza que nenhum país que hospede infraestrutura militar americana está imune a retaliações iranianas — e que o custo dessa hospedagem pode superar o benefício. Para as economias emergentes que dependem da estabilidade do Golfo para importações de energia, a mensagem é igualmente perturbadora: a ordem que garantia o fluxo de petróleo e gás pela região não é mais garantida pela capacidade americana de dissuasão.

O que está em jogo não é apenas a guerra atual. É a credibilidade do modelo de segurança que os Estados Unidos venderam ao mundo árabe por décadas — e que o Irã, com mísseis e drones de custo relativamente baixo, demonstrou ser perfurado.

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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