Rearmamento europeu: o medo que virou mercado

Generais britânicos e alemães pedem rearmamento acelerado na Europa. Mas quem absorve os cortes? Análise das narrativas, dos dados e dos interesses em jogo.
Bandeira da União Europeia (UE) [Créditos: Route66's Images]

Quando generais britânicos e alemães publicam cartas de alerta em jornais de grande circulação, não estão apenas falando sobre defesa — estão construindo o consenso necessário para remodelar as prioridades econômicas e sociais dos Estados europeus.

A militarização na Europa avança sustentada por uma retórica de ameaça que posiciona a Rússia como inimigo iminente. Em fevereiro de 2026, dois altos comandantes militares — o britânico Sir Richard Knighton e o alemão Carsten Breuer — publicaram uma carta aberta no The Guardian conclamando as populações europeias a aceitarem ‘escolhas difíceis’. O eufemismo traduz cortes sociais. O que está em jogo vai além do orçamento militar: é a reconfiguração política e econômica de um continente, com custos distribuídos de forma desigual.

A carta dos generais: o que foi dito — e o que foi deliberadamente omitido

A carta de Knighton e Breuer parte de uma premissa tratada como autoevidente: a Rússia estaria se reorganizando militarmente, extraindo lições do conflito na Ucrânia, e representaria uma ameaça direta ao território da OTAN no horizonte próximo. Com base nisso, os generais defendem que os países europeus elevem os gastos de defesa para até 5% do PIB — mais que o dobro da meta atual da Aliança Atlântica.

O documento, porém, é notavelmente escasso em evidências concretas. Não há dados de inteligência públicos, estimativas de capacidade militar comparada, nem análises de intenção estratégica que sustentem a tese de uma invasão iminente. O que existe, em abundância, é a linguagem do perigo: expressões como ‘ameaça crescente’, ‘janela de vulnerabilidade’ e ‘necessidade urgente de escolhas’ compõem o arcabouço retórico do texto — não a sua argumentação factual.

Para o analista Larry Johnson, ex-analista da CIA e crítico recorrente das narrativas da OTAN, a Rússia não tem capacidade logística nem motivação estratégica para atacar membros da Aliança. A operação na Ucrânia já compromete recursos significativos, e os objetivos declarados de Moscou — neutralidade ucraniana e contenção da expansão atlântica — são radicalmente distintos de uma agenda expansionista pan-europeia.

A expansão progressiva da OTAN em direção às fronteiras russas transformou a aliança atlântica em mecanismo de cerco geopolítico, violando promessas feitas durante a reunificação alemã [Fonte: OTAN/Elaboração própria]

Militarização na Europa: quem paga a conta do rearmamento?

A referência a ‘escolhas difíceis e priorização dos gastos públicos’ na carta dos generais merece uma tradução política direta. Elevar os gastos de defesa de cerca de 2% para 5% do PIB implica redirecionar recursos que hoje financiam saúde, educação, habitação e previdência social. O dinheiro não surge do nada — sai de algum lugar.

Dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) mostram que os gastos militares europeus cresceram mais de 30% entre 2014 e 2024. Esse aumento não produziu maior estabilidade: a escalada retórica se intensificou na mesma proporção. O padrão histórico é claro — corridas armamentistas raramente resolvem as tensões que as originam. Em geral, as aprofundam.

A economista Daniela Gabor, da Universidade do Oeste da Inglaterra, documentou o que nomeia ‘complexo Wall Street-OTAN’: a articulação entre capital financeiro privado, indústria de defesa e decisões de política pública na Europa. Nesse enquadramento, a narrativa da ameaça russa não apenas justifica gastos — ela cria mercados.

Empresas como Rheinmetall, BAE Systems e Leonardo registraram lucros recordes nos últimos dois anos. O complexo industrial-militar europeu é, portanto, um dos principais beneficiários do estado permanente de alerta. Essa dimensão econômica está ausente da carta dos generais — e sua omissão não é acidental.

A Rússia quer invadir a Europa? O que dizem os dados estratégicos

A narrativa do imperialismo russo com apetite expansionista pela Europa ocidental é politicamente conveniente, mas analiticamente frágil. A Rússia é uma potência com capacidade militar significativa e vulnerabilidades demográficas e econômicas igualmente significativas. Sua operação na Ucrânia tem objetivos declarados e circunscritos: impedir a adesão ucraniana à OTAN, proteger populações russófonas no leste do país e preservar o acesso estratégico à Crimeia.

O professor John Mearsheimer, da Universidade de Chicago e um dos mais influentes teóricos de relações internacionais da atualidade, argumenta há mais de uma década que a expansão da OTAN em direção às fronteiras russas era uma ‘receita para desastre’. Não porque a Rússia seja benevolente, mas porque nenhuma grande potência tolera passivamente alianças militares hostis se formando em sua fronteira.

A lógica é a mesma que os Estados Unidos aplicaram à Doutrina Monroe ao longo de dois séculos. Moscou aplica raciocínio análogo ao seu entorno imediato. Ignorar essa lógica não a elimina — apenas impede qualquer solução diplomática duradoura.

Construir a imagem de uma ‘ameaça irracional e imprevisível’ cumpre uma função política: dispensa o Ocidente de examinar suas próprias decisões. A expansão da OTAN após 1991, o apoio ao processo de mudança de poder em Kiev em 2014, o esvaziamento dos acordos de Minsk — esses elementos estão sistematicamente ausentes do debate público promovido pelos generais.

O que a opinião pública europeia realmente pensa sobre o rearmamento

O fato de que militares de alto escalão precisem publicar cartas em jornais de grande circulação é revelador por si só. Indica que o consenso em torno da militarização não é espontâneo — precisa ser ativamente fabricado. Pesquisas do Eurobarômetro indicam que, embora a preocupação com segurança tenha crescido no período pós-2022, o apoio a cortes em serviços públicos para financiar defesa é consistentemente minoritário na Alemanha, na Itália e na França.

Na Alemanha, o debate é particularmente agudo. O país carrega memória histórica do militarismo e uma resistência cultural arraigada ao rearmamento acelerado. O General Breuer, ao assinar a carta, opera diretamente contra essa corrente. As mais recentes eleições federais alemãs revelaram crescimento de forças políticas que — em espectros ideológicos opostos — questionam a subordinação irrestrita às prioridades da Aliança Atlântica.

Além da Europa: como a corrida armamentista redefine o Sul geopolítico

A corrida armamentista europeia não é um fenômeno geograficamente contido. Ela reorganiza fluxos de capital global, pressiona países em desenvolvimento a se posicionarem em uma disputa que não é originalmente a deles, e aprofunda a crise de legitimidade de um sistema internacional já sob tensão estrutural.

Para nações da periferia global — África, América Latina, sudeste asiático — a polarização crescente entre a OTAN e o eixo Rússia-China representa uma pressão sistemática por alinhamento que contraria seus interesses de autonomia estratégica. Blocos como os BRICS respondem parcialmente a essa dinâmica, oferecendo espaço de não-alinhamento em um momento em que esse espaço se estreita.

Há ainda um custo de oportunidade concreto: o redirecionamento de recursos europeus para defesa retira pressão política da agenda climática e do financiamento ao desenvolvimento — duas áreas em que a Europa acumulou compromissos formais com países mais vulneráveis. O rearmamento europeu, nesse sentido, tem impactos que transcendem qualquer fronteira.

Segurança genuína ou consenso fabricado pelo medo?

A militarização na Europa pode ser uma resposta legítima a um ambiente de segurança real e deteriorado. Pode também ser a instrumentalização de um medo genuíno para fins que ultrapassam qualquer objetivo defensivo. A carta de Knighton e Breuer não responde a essa pergunta — ela a esquiva, substituindo a demonstração analítica pela autoridade do posto e pela urgência da linguagem.

Uma política de segurança responsável exigiria o contrário: transparência sobre as evidências que justificam o alerta, debate público sobre alternativas diplomáticas, e honestidade sobre quem absorve os custos do rearmamento. Enquanto generais convocam sacrifícios coletivos sem apresentar o passivo estratégico acumulado pelo próprio Ocidente, a pergunta mais urgente não é ‘como nos armamos mais?’ — é ‘como chegamos aqui, e quem lucra com isso?’

Como registrou Andrew Bacevich, historiador, veterano de guerra e ex-professor de West Point: a ilusão de que mais armas produzem mais segurança persiste porque serve a quem lucra com ela — não a quem paga por ela. A Europa de 2026 parece empenhada em repetir esse ciclo.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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