Cruzados do Século XXI: a teologia do Armagedom que comanda o Pentágono

Soldados americanos denunciam comandantes que pregam o Armagedom no Irã. Como a escatologia evangélica infiltrou o alto comando das Forças Armadas dos EUA.
Secretário de Defesa Pete Hegseth participa de uma sessão de treinamento físico com tropas do 75º Regimento de Rangers na Praia de Omaha, Normandia, França
O Secretário de Defesa Pete Hegseth participa de uma sessão de treinamento físico com tropas do 75º Regimento de Rangers na Praia de Omaha, Normandia, França, em 6 de junho de 2025. (Foto do Departamento de Defesa dos EUA, por Alexander Kubitza, Suboficial de 1ª Classe da Marinha dos EUA )

O sionismo cristão chegou à cadeia de comando das Forças Armadas dos EUA. Centenas de militares denunciam que comandantes descrevem a guerra contra o Irã como cumprimento de profecia bíblica — e que Trump foi “ungido por Jesus” para desencadear o Armagedom. O que está em jogo não é apenas a separação entre Igreja e Estado: é a racionalidade que ainda separa a guerra de um ritual apocalíptico.

O que aconteceu: denúncias nas fileiras

A Fundação para a Liberdade Religiosa Militar (MRFF) registrou, entre 2 e 6 de março, mais de 200 queixas de soldados americanos distribuídos por 50 instalações militares de todos os ramos das Forças Armadas. O padrão se repete: comandantes apresentando a campanha contra o Irã como “divinamente ordenada” e conectada ao Livro do Apocalipse.

Uma das denúncias, enviada por um sargento em nome de 15 soldados — entre eles cristãos, um muçulmano e um judeu — descrevia a retórica como tão extrema que “destruiu o moral e a coesão da unidade”. O soldado relatou que um comandante afirmou às tropas que Trump havia sido ungido para “acender a chama no Irã”, provocando o Armagedom e o retorno de Cristo à Terra.

Em 6 de março, dezenas de parlamentares democratas enviaram carta ao Inspetor-Geral do Departamento de Defesa, Platte B. Moring III, pedindo investigação formal. O Congressional Freethought Caucus alertou que justificar operações militares com base em “interpretações de profecias bíblicas” levanta sérias preocupações constitucionais — e solicitou apuração sobre possíveis retaliações contra soldados denunciantes.

O sionismo cristão como doutrina de Estado

As denúncias não emergem do vácuo. Elas se inserem num padrão consistente de teologia política que vem sendo incorporada ao aparato de segurança dos EUA, especialmente após a formação do atual governo.

O secretário de Defesa Pete Hegseth é a figura mais emblemática desse fenômeno. Em seu livro de 2020, American Crusade, Hegseth convocou os americanos a repetirem a “coragem dos cruzados” contra o que chama de ameaça islâmica. Suas tatuagens incluem o lema medieval “Deus Vult” — o grito de guerra das Cruzadas — e a palavra árabe “Kafir” (infiel) gravada no bíceps. Em discurso a generais e almirantes, pediu o abandono de “regras de engajamento estúpidas” em favor da “letalidade máxima”.

Essa linguagem não é metáfora: é enquadramento doutrinário. Quando o secretário de Defesa de uma superpotência nuclear usa a gramática das Cruzadas para descrever conflitos contemporâneos, está redefinindo o inimigo não como adversário geopolítico, mas como obstáculo teológico — o que, por definição, elimina a possibilidade de negociação e legitima a escalada ilimitada.

O embaixador americano em Israel, Mike Huckabee, aprofundou o argumento em entrevista a Tucker Carlson: afirmou que Israel detém “direito bíblico” a um território que se estende do Nilo ao Eufrates — o que abrangeria Egito, Jordânia, Síria, Líbano, Iraque e parte da Arábia Saudita. Perguntado se Israel poderia “tomar tudo”, respondeu: “Não haveria problema.”

Pete Hegseth com suas tatuagens em hebraico  visíveis
Tatuagem do Secretário de Defesa do Pentágono, Pete Hegseth, cuja retórica de “cruzada” permeia o atual comando militar americano vista em uma foto tirada na Base Conjunta Pearl Harbor-Hickam em 26 de março de 2025. (Foto: Secretário de Defesa via X)

Escatologia como estratégia: o que o sionismo cristão legitima

O sionismo cristão — corrente teológica predominante entre evangélicos conservadores americanos — interpreta o retorno de Israel à Terra Santa e os conflitos no Oriente Médio como etapas necessárias ao Armagedão e ao retorno de Cristo. Nessa leitura, a guerra não é um fracasso da diplomacia: é um sacramento.

Essa visão de mundo tem raízes institucionais nos EUA que antecedem Trump. O general William Boykin, subsecretário de Defesa durante o governo George W. Bush, afirmou publicamente que a “guerra ao terror” era uma batalha espiritual contra Satanás. A diferença agora é de escala e de posição hierárquica: o discurso passou das margens para o centro do comando.

Como observa o teólogo político Mark Lewis Taylor, a fusão entre militarismo e escatologia cristã nos EUA não é um desvio, mas uma tradição profunda que conecta o “destino manifesto” do século XIX ao imperialismo contemporâneo. A novidade do momento atual é que essa fusão encontrou, pela primeira vez, um secretário de Defesa que a enuncia abertamente.

O impacto além das fronteiras americanas

Do ponto de vista das nações que estão do outro lado desse cano de fuzil, a questão é de sobrevivência. O Irã, país com 90 milhões de habitantes e civilização milenar, está sendo enquadrado — dentro das próprias Forças Armadas do seu adversário — não como Estado soberano, mas como peça de um drama apocalíptico cujo desfecho já está escrito.

Essa desumanização teológica tem consequências práticas diretas: reduz o custo moral da violência, deslegitima qualquer solução negociada e torna o escalamento uma obrigação de fé. Para as populações do Oriente Médio — árabes, persas, curdos, palestinos — o ressurgimento desse discurso é a confirmação de algo que os povos da região jamais deixaram de sentir: que, para Washington, eles existem menos como sujeitos políticos do que como cenário de uma narrativa que não lhes pertence.

A filósofa Judith Butler argumenta que o enquadramento do “outro” como ameaça existencial — especialmente quando respaldado por linguagem religiosa — é o mecanismo que torna certas vidas mais passíveis de luto do que outras. Quando o comando militar de uma superpotência descreve uma guerra como Armagedom, está dizendo, implicitamente, que as mortes do outro lado são necessárias, predestinadas — e, portanto, não são mortes que precisam ser contadas.

A Constituição como campo de batalha

A Primeira Emenda da Constituição americana proíbe o governo federal de estabelecer uma religião ou de promover crenças religiosas em suas operações. O Código Uniforme de Justiça Militar reforça essa separação no âmbito das Forças Armadas. Mikey Weinstein, da MRFF, foi preciso ao afirmar que comandantes que, em funções oficiais, promovem escatologia religiosa estão sujeitos a processo militar.

A questão constitucional, porém, transcende o plano jurídico. O que está em disputa é o modelo de racionalidade que deve presidir as decisões de guerra e paz de um Estado que possui o maior arsenal nuclear do mundo. Quando essa racionalidade é substituída por teologia apocalíptica, o risco não se limita ao Oriente Médio.


Referências

Autor

  • A Redação da Revista Fronteira é dedicada à análise geopolítica crítica, com foco no Sul Global, energia, economia política e multipolaridade. Mais do que noticiar fatos, contextualiza estruturas de poder e tendências de longo prazo — investigando o que está por trás das manchetes e o que elas sinalizam para o futuro.

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