O colapso das infraestruturas fósseis europeias expõe vulnerabilidades estruturais — mas a solução hegemônica ameaça perpetuar dependências históricas sob nova roupagem verde
A interrupção dos fluxos de gás russo para a Europa, provocada pela invasão da Ucrânia em fevereiro de 2022, não apenas desestabilizou mercados energéticos globais — converteu a transição energética de pauta climática em imperativo de segurança nacional. Quando o gasoduto Nord Stream foi sabotado e Moscou cortou o fornecimento para países europeus, a fragilidade de décadas de dependência energética se materializou em apagões, racionamentos e inflação galopante. A crise revelou uma verdade incômoda: a arquitetura energética ocidental permaneceu refém de um único fornecedor hostil, mesmo após advertências ignoradas desde a anexação da Crimeia em 2014.
No entanto, a resposta europeia — aceleração da transição para fontes renováveis — mascara uma questão estrutural mais profunda: até que ponto essa “solução” não representa apenas a substituição de uma dependência por outra? Para as periferias do capitalismo global, especialmente na América Latina e África, o discurso da transição energética como caminho para autonomia estratégica pode se revelar, na prática, uma nova fronteira de extração e subordinação.
Da Vulnerabilidade Fóssil à Urgência Geopolítica
A Europa construiu sua prosperidade pós-Guerra Fria sobre uma premissa que se revelaria catastroficamente equivocada: que interdependência econômica preveniria conflitos. A liberalização dos mercados de gás e eletricidade desde os anos 1990 transferiu a responsabilidade pela segurança energética das mãos do Estado para corporações privadas em busca de maximização de lucros. O resultado foi previsível: contratos de longo prazo com a Rússia — cujo gás chegava mais barato que qualquer alternativa — tornaram-se o pilar de uma infraestrutura crítica.
Quando Putin invadiu a Ucrânia, essa arquitetura desmoronou. Países como Alemanha e Itália, que importavam respectivamente 55% e 40% de seu gás da Rússia, enfrentaram uma crise sem precedentes. Preços dispararam — o mercado europeu TTF chegou a registrar aumentos de 300% —, famílias tiveram que racionar aquecimento no inverno, e indústrias energointensivas paralisaram operações. A Agência Internacional de Energia declarou tratar-se da “primeira crise energética verdadeiramente global”.
A resposta inicial foi paradoxal: acelerar a compra de combustíveis fósseis de outras fontes — gás natural liquefeito (GNL) dos Estados Unidos, petróleo do Golfo Pérsico — enquanto simultaneamente anunciava-se o REPowerEU, plano de €300 bilhões para acelerar a transição verde. Como observam analistas, “enquanto seria necessário investir em alguma oferta de hidrocarbonetos para compensar as falhas russas, essa estratégia teria que ser reconciliada com estruturas ambientais cada vez mais ambiciosas”. O choque energético, portanto, não eliminou os fósseis — apenas reorganizou suas cadeias de fornecimento, beneficiando outros produtores enquanto impulsionava retóricamente a urgência da descarbonização.

A Transição Energética como Novo Campo de Disputa Hegemônica
A crise russo-ucraniana acelerou uma transformação já em curso, mas também expôs suas contradições fundamentais. Longe de representar ruptura com a ordem energética fóssil, a transição para renováveis está redesenhando os eixos de poder sem necessariamente democratizá-los. A mudança do foco em recursos primários para tecnologias e capital transfere o centro gravitacional da geopolítica energética — mas não dissolve as assimetrias estruturais que a definem.
A questão dos materiais críticos ilustra essa dinâmica. A transição para fontes limpas exige volumes massivos de lítio, cobalto, cobre, terras raras — elementos cuja extração está geograficamente concentrada e politicamente estratificada. Chile e Argentina detêm as maiores reservas de lítio do mundo; Congo controla 70% do cobalto global; China processa mais de 80% das terras raras. Uma usina eólica onshore demanda nove vezes mais recursos minerais que uma termelétrica a gás; um carro elétrico consome seis vezes mais minérios que um veículo convencional.
Essa nova dependência está gerando o que analistas chamam de “colonialismo verde”. A Climate Action Network documentou 47 denúncias de violações de direitos humanos por mineradoras canadenses e 18 por australianas entre 2021 e 2024, metade localizadas na América Latina. Alemanha e Japão assinam acordos de fornecimento com países do Leste Europeu e Sudeste Asiático, mesmo diante de alertas sobre desmatamento e contaminação. Projetos como o Hyphen na Namíbia — megaempreendimento de hidrogênio verde com capital alemão — são descritos como “símbolos da nova dependência verde”, gerando endividamento público enquanto os lucros fluem para investidores estrangeiros.
A Union Europeia projeta seu Green Deal — descarbonização até 2050 — mas seus requisitos de fornecimento de materiais estratégicos repousam sobre a intensificação da mineração em territórios periféricos. Emirados Árabes administram 51 gigawatts de capacidade renovável internacional — oito vezes sua capacidade doméstica — mantendo consumo per capita de fósseis entre os mais altos do planeta. A transição energética, portanto, não está dissolvendo hierarquias globais; está as reconfigurando sob novas justificativas ambientais.
América Latina e África: Entre a Promessa de Protagonismo e a Realidade da Extração
Para regiões historicamente subordinadas na divisão internacional do trabalho, a narrativa da transição energética oscila entre promessa emancipatória e ameaça de subordinação renovada. De um lado, potenciais solares, eólicos e hídricos colossais — América Latina possui matriz energética menos dependente de fósseis que economias centrais. Do outro, pressões sistêmicas para que essa capacidade seja mobilizada não para soberania energética regional, mas para exportação destinada aos mercados do Norte.
O caso brasileiro exemplifica essas tensões. Com 82% de energia renovável — contrastando com a média global de 87% de emissões oriundas de fósseis —, o Brasil é frequentemente apresentado como “líder da transição”. Mas essa liderança se sustenta sobre contradições profundas: expansão desordenada de energia solar fotovoltaica residencial, construção compulsória de termelétricas a gás (viabilizada pela privatização da Eletrobras), falta de planejamento estatal e subordinação das diretrizes energéticas aos interesses privados de geração.
Enquanto isso, países como Bolívia aprovam decretos permitindo exploração de petróleo em áreas protegidas da Amazônia; Equador realiza plebiscito sobre extração no Parque Nacional Yasuní; Brasil mantém planos de retomar investimentos em gás boliviano. A retórica da transição convive com a realidade de que América Latina detém a segunda maior reserva de petróleo do mundo (19,5%) — e governos regionais, pressionados por dívidas e demandas de desenvolvimento, resistem em abandonar essas fontes de receita.
A lógica é familiar: ceder recursos naturais e soberania em troca de financiamento externo para “desenvolvimento”. Como observa análise no Brasil de Fato, “a ideia de que ‘o mundo precisa da América Latina’ parece reproduzir o clássico modus operandi imediatista que tem levado a região a ceder recursos naturais em troca de ‘soluções’ para desenvolvimento pela via do financiamento externo, renunciando a autonomia estratégica no longo prazo”. A transição energética, sem ruptura estrutural com o modelo extrativista, corre o risco de ser apenas extrativismo com pintura verde.
IMAGEM; meta-descrição: Mina de lítio na América Latina com impactos ambientais visíveis; legenda: A extração de materiais críticos para baterias e painéis solares intensifica pressões sobre territórios latino-americanos e africanos [Fonte: Ilustração baseada em relatórios ambientais]
A Armadilha da Transição Mercantilizada
O que o choque energético russo-ucraniano revelou não foi apenas a fragilidade europeia diante de fornecedores hostis, mas uma verdade mais incômoda: a transição energética, tal como está sendo conduzida, não questiona a estrutura que produziu a dependência fóssil — apenas troca seus termos. A Europa busca “autonomia estratégica” diversificando importações de GNL e acelerando renováveis domésticas, mas essa autonomia permanece ancorada na capacidade de extrair valor — financeiro, material, territorial — das periferias globais.
A disputa sino-americana pela hegemonia tecnológica em semicondutores, digitalização e infraestrutura verde torna essa transição inseparável da competição entre blocos. China domina cadeias de processamento de terras raras e produção de painéis solares; Estados Unidos respondem com Inflation Reduction Act, subsidiando empresas nacionais. América Latina e África observam essa disputa como espectadores — ou, pior, como territórios a serem instrumentalizados.
A questão fundamental permanece sem resposta: transição energética para quem? Se a descarbonização se resume a substituir petrodólares por “lítio-dólares” e “hidrogênio-euros”, mantendo intactas as relações de subordinação que estruturam o capitalismo global, então o resultado será meramente cosmético. A transição pode gerar resiliência, segurança energética e prosperidade local, mas, como alerta a Climate Action Network, “na prática, esses benefícios raramente se materializam” enquanto o processo permanecer sob controle das mesmas forças que lucraram com os fósseis.
Além da Armadilha: Transição Energética como Projeto de Soberania
Se há lição a ser extraída do colapso energético europeu pós-2022, é que segurança energética não é função de mercado — é construção política e estratégica. A Ucrânia, sob bombardeios sistemáticos que destruíram mais de 220 instalações da DTEK, respondeu investindo em fontes distribuídas — solar, eólica, armazenamento descentralizado — mais difíceis de atacar, rápidas de reparar, resilientes. Descentralização energética, nesse contexto, não é apenas ambientalismo: é estratégia de sobrevivência.
Para América Latina e África, a implicação é clara: a transição energética só se torna ferramenta de soberania se for desenhada a partir de dentro, priorizando necessidades locais sobre demandas de exportação. Isso significa:
- Propriedade e controle público sobre recursos estratégicos e infraestrutura energética, não privatização em favor de capitais estrangeiros.
- Beneficiamento local de minerais críticos, desenvolvendo cadeias industriais completas em vez de exportar matérias-primas brutas.
- Planejamento energético integrado que subordine decisões de geração e distribuição a objetivos de desenvolvimento nacional, não a sinais de preço de mercados financeirizados.
- Democracia energética, com participação efetiva de comunidades afetadas por projetos de extração e geração, impedindo que “consultas” sejam formalidades vazias.
- Cooperação sul-sul para compartilhamento tecnológico, transferência de capacidades e defesa coletiva contra imposições de condicionalidades verdes por financiadores internacionais.
O Movimento pela Soberania Popular na Mineração, organizações como o Instituto Terramar e experiências como o plebiscito equatoriano sobre Yasuní demonstram que resistência e alternativas existem. O desafio está em converter essas experiências localizadas em projetos nacionais e regionais coerentes, capazes de enfrentar pressões financeiras, diplomáticas e midiáticas pela continuidade do modelo extrativista.
Soberania Energética ou Subordinação Verde?
A guerra russo-ucraniana acelerou a transição energética — mas não definiu seu conteúdo político. Europa busca substituir gasodutos russos por importações diversificadas e renováveis domésticas, mantendo acesso privilegiado a materiais críticos extraídos alhures. China avança em capacidade produtiva verde enquanto Estados Unidos subsidiam sua indústria nacional. Ambos competem por controle sobre cadeias de fornecimento que atravessam territórios latino-americanos e africanos.
Para as periferias do sistema internacional, o momento é simultaneamente de ameaça e oportunidade. Ameaça porque a transição energética, conduzida pelas mesmas lógicas que organizaram a era fóssil, pode simplesmente reeditar dependências estruturais sob novas justificativas climáticas. Oportunidade porque choques sistêmicos — como o colapso europeu de 2022 — abrem janelas para contestação de hierarquias aparentemente consolidadas.
A questão que permanece é se governos, movimentos sociais e organizações populares na América Latina, África e Ásia conseguirão articular a transição energética como projeto de soberania estrutural — ou se, mais uma vez, recursos naturais serão mobilizados para sustentar acumulação de capital e poder nos centros hegemônicos. Como alertou Jean-Baptiste Fressoz, nunca houve transição energética na história — apenas adições. Transformar essa lógica aditiva em ruptura efetiva exige não apenas tecnologias limpas, mas reorganização radical das relações de poder que determinam quem produz energia, para quem, e sob quais termos.
O choque energético russo-ucraniano demonstrou que vulnerabilidade estratégica tem custos concretos. Resta saber se as lições serão aprendidas no sentido de construir autonomias regionais — ou se servirão apenas para ajustar dependências a um capitalismo verde igualmente subordinante.
Referências
- Taylor & Francis Online – The Geopolitics of Energy after the Invasion of Ukraine
- ScienceDirect – Russia’s war on Ukraine, European energy policy responses & implications
- Wilson Center – Russia’s War in Ukraine: Green Policies in a New Energy Geopolitics
- Columbia Journal of International Affairs – Emerging from the War in Ukraine into a Secure Energy Transition
- IEA – Russia’s War on Ukraine
- World Economic Forum – How Ukraine is building resilience through energy security
- Brasil de Fato – Transição energética em disputa
- Intercept Brasil – Países ricos querem impor transição energética
- Brasil de Fato – Emergência ecológica, transição energética e dependência
- Outras Palavras – Brasil: A transição energética sabotada
- Observatório do Clima – América Latina insiste em combustíveis fósseis
- Agência Cenarium – Transição energética global repete injustiças
- Brasil Energia – Transição Energética no Mundo e na América Latna
- Enel Green Power – A transição energética na Europa e na América Latina



Você precisa fazer login para comentar.