Disputa por 17 elementos estratégicos reposiciona o país entre Estados Unidos e China, enquanto Washington articula frente internacional para redefinir mercado controlado por Pequim
O governo dos Estados Unidos formalizou, em 4 de fevereiro de 2026, convite ao Brasil para integrar uma articulação internacional voltada ao comércio de terras raras. A iniciativa busca reunir cerca de 20 países em reunião prevista para esta semana na Casa Branca, sob liderança do secretário de Estado Marco Rubio. O objetivo central é criar mecanismo de preço mínimo de importação para esses recursos, atualmente dominados pela China no mercado global. O Brasil ocupa a segunda maior reserva mundial de terras raras, atrás apenas da China.
O que diz a versão dominante
A narrativa predominante apresenta a iniciativa norte-americana como resposta necessária ao controle chinês sobre recursos críticos para tecnologia avançada, defesa e transição energética. Segundo essa perspectiva, a China utiliza sua posição dominante para manipular preços e exercer influência geopolítica, o que justificaria a formação de uma coalizão ocidental para diversificar fontes de fornecimento e estabelecer preços mais estáveis.
O discurso enfatiza a dependência tecnológica das economias desenvolvidas em relação a esses 17 elementos químicos, essenciais para fabricação de smartphones, turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, satélites e sistemas de defesa. Nessa leitura, países como o Brasil teriam interesse natural em participar de um sistema de comércio mais equilibrado, que reduziria vulnerabilidades estratégicas compartilhadas.
Contextos e dados frequentemente omitidos
A China não apenas possui as maiores reservas, mas desenvolveu ao longo de décadas capacidade industrial completa de processamento e refino de terras raras — etapa tecnicamente complexa, ambientalmente impactante e economicamente custosa. Enquanto diversos países possuem reservas minerais, poucos construíram infraestrutura industrial para transformá-las em produtos utilizáveis.
O Brasil mantém relação comercial sólida com a China, que representa o principal destino de exportações brasileiras. Em 2024, o comércio bilateral superou US$ 157 bilhões, com a China importando principalmente soja, minério de ferro e proteínas animais. A participação brasileira em mecanismos anti-China poderia gerar retaliações comerciais em setores já consolidados.
Documentos oficiais revelam que a Casa Branca orientou a CIA, ainda em 2025, a mapear reservas de terras raras em toda América Latina. Autoridades norte-americanas enfrentaram dificuldades para acessar decisores do Ministério de Minas e Energia brasileiro, recorrendo então a canais diplomáticos e governos estaduais. Esse movimento indica estratégia de longo prazo que transcende cooperação comercial convencional.
Versões alternativas e contrapontos oficiais
O governo brasileiro mantém postura cautelosa. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, não participará da reunião em Washington devido a compromissos previamente assumidos. Brasília conduz consultas internas sem anunciar decisão formal, postura compatível com tradição diplomática de autonomia e não alinhamento automático.
Analistas apontam que mecanismos de preço mínimo podem beneficiar países produtores ao evitar dumping chinês, mas também podem engessar relações comerciais e limitar margens de negociação bilateral. Há ainda questionamentos sobre a capacidade efetiva de implementação de tais mecanismos sem adesão de economias asiáticas e africanas que mantêm vínculos estreitos com Pequim.
O Serviço Geológico Brasileiro confirma reservas significativas, mas o país ainda não desenvolveu cadeia industrial completa para processamento. Investimentos necessários demandariam bilhões de dólares, tecnologia especializada e gestão ambiental rigorosa — recursos que poderiam vir condicionados a alinhamentos geopolíticos.
A disputa por terras raras redefine o mapa geoeconômico global, posicionando o Brasil simultaneamente como alvo de articulações norte-americanas e parceiro comercial consolidado da China. A decisão brasileira sobre participação na iniciativa de Washington envolve cálculo complexo entre ganhos potenciais em diversificação de mercados, riscos de retaliação comercial e preservação de autonomia estratégica sobre recursos minerais críticos. O desfecho dessa articulação pode determinar não apenas fluxos comerciais, mas também o grau de inserção do país em disputas tecnológicas e de segurança que estruturam o século XXI.
Via Correio de Minas, 5 de fevereiro de 2026