A ligação de Donald Trump para Vladimir Putin na noite de segunda-feira expõe os limites da estratégia americana no Oriente Médio. Washington iniciou a guerra contra o Irã — e agora precisa de Moscou para encontrar saída. O que está em jogo é a arquitetura de segurança do Golfo Pérsico, o controle do Estreito de Ormuz e a capacidade dos EUA de sustentar sua hegemonia regional enquanto aliados históricos se distanciam.
O analista Dmitry Evstafiev, da HSE University, define o movimento como reconhecimento tácito: o “nó iraniano” não se desata pela força. A mediação diplomática russa torna-se o caminho que Washington não quis — mas agora busca.
Por que Trump recorreu a Putin: o esgotamento da coerção americana
O Estreito de Ormuz, por onde transita cerca de 20% do petróleo mundial, tornou-se o epicentro de uma crise que ameaça cadeias globais de abastecimento. Kuwait negou ter cedido território para ataques ao Irã. Riade e Teerã mantêm contatos reservados. O isolamento diplomático de Washington avança.
A aposta americana de que uma contração temporária nos mercados de energia beneficiaria os EUA revelou-se armadilha. Rotas marítimas instáveis revalorizam rotas terrestres — e Putin já propôs à União Europeia a retomada dos gasodutos russos. Como observa Giovanni Arrighi, quando o poder material declina, o recurso à força acelera — não reverte — a erosão da autoridade.
Moscou pode exercer influência moderadora sobre Teerã e contribuir para a mediação diplomática. O que não pode fazer é restaurar a credibilidade das garantias americanas no Golfo — nem resolver a crise política que a guerra já instala dentro dos próprios EUA.
Referências
- Evstafiev, Dmitry. “The Iranian knot: Why Trump turned to Putin”. RT, 2025.
- U.S. Energy Information Administration. “World Oil Transit Chokepoints”. EIA, 2024.
- Mackinder, Halford J. “The Geographical Pivot of History”. The Geographical Journal, 1904.
- Arrighi, Giovanni. Adam Smith in Beijing. Verso Books, 2007.


