A diplomacia das grandes potências voltou a se movimentar por canais diretos. Em 11 de fevereiro de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping conversaram por telefone — horas depois de Xi ter mantido diálogo similar com Vladimir Putin, da Rússia. A sequência não é fortuita: revela o funcionamento prático de uma ordem internacional em disputa, na qual a gestão bilateral de crises substitui cada vez mais os fóruns multilaterais. O que está em jogo não é apaziguamento, mas a calibragem de rivalidades estruturais que seguem abertas — Taiwan, tarifas comerciais, expansão da OTAN, fornecimento de armas à Ucrânia. Essas conversas expõem tanto a fragilidade dos mecanismos institucionais de governança global quanto a ausência de um projeto comum entre os polos que desafiam a hegemonia ocidental.
O que aconteceu: três ligações, um mesmo dia, contextos distintos
Segundo comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores da China, Xi Jinping e Donald Trump discutiram temas como cooperação econômica, política comercial e estabilidade regional. O diálogo ocorreu em meio à escalada tarifária promovida pela administração Trump, que ameaça impor sobretaxas a produtos chineses como parte de sua estratégia de “desacoplamento seletivo”. Horas antes, Xi havia conversado com Putin, em ligação que abordou a guerra na Ucrânia, a coordenação bilateral no âmbito dos BRICS e a oposição conjunta à expansão da influência ocidental na Eurásia.
A proximidade temporal das três conversas não configura, necessariamente, uma articulação triangular coordenada. Mas evidencia que as três capitais operam dentro de uma mesma lógica: a de que a estabilidade internacional depende menos de consensos multilaterais e mais de pactos bilaterais ad hoc, negociados fora das estruturas formais criadas no pós-Guerra Fria.

Pragmatismo sem projeto: quando rivalidade vira gestão de risco
O triplo eixo de conversas não representa reconciliação, mas reconhecimento mútuo de interdependência perigosa. Trump busca evitar uma ruptura econômica total com Pequim, que ainda é o maior credor estrangeiro dos EUA e principal parceiro comercial de dezenas de países. Xi, por sua vez, precisa estabilizar as relações com Washington para garantir acesso a mercados e tecnologias essenciais, ao mesmo tempo em que aprofunda laços com Moscou como parte de sua estratégia de contenção à hegemonia norte-americana.
Putin, isolado diplomaticamente no Ocidente, depende da China para contornar sanções e manter funcionamento mínimo de sua economia de guerra. Mas Pequim evita comprometer-se plenamente com Moscou: fornece apoio econômico indireto, mas não armas letais; critica a OTAN, mas não reconhece a anexação de territórios ucranianos; defende a “integridade territorial”, mas sem pressionar pela retirada russa.
Essa ambiguidade não é fraqueza — é cálculo. A China não quer ser arrastada para um confronto direto com o Ocidente por causa da Ucrânia, mas tampouco deseja ver a Rússia derrotada, o que consolidaria a primazia norte-americana na Eurásia. O resultado é uma diplomacia de gerenciamento de crises, não de resolução estrutural.
Taiwan, tarifas e Ucrânia: os temas intocáveis que seguem como linhas vermelhas
Nenhuma das conversas alterou posições de fundo. Washington mantém apoio militar a Taiwan e pressão tarifária sobre Pequim. A China segue reivindicando soberania sobre a ilha e expandindo sua presença no Mar do Sul da China. Moscou continua exigindo garantias de segurança que implicam desmembramento da arquitetura de defesa europeia. E a OTAN, longe de recuar, consolida sua presença no Báltico e no Mar Negro.
O que muda, então? A forma de administrar essas contradições. Em vez de rupturas abruptas ou confrontos diretos, as potências optam por canais bilaterais que permitem calibrar pressões, testar limites e evitar escaladas acidentais. Trata-se de uma espécie de “gerenciamento de rivalidade” — um conceito que emerge como substituto prático da governança multilateral, cada vez mais incapaz de arbitrar disputas entre grandes potências.
Mas essa lógica tem limite. Ela funciona enquanto os atores principais têm interesse em evitar guerra aberta. Não oferece, porém, mecanismos de resolução de conflitos estruturais, nem promove redistribuição de poder ou reformulação de regras. Pelo contrário: congela assimetrias, perpetua zonas cinzentas e transfere para potências regionais — Ucrânia, Taiwan, países do Golfo, nações africanas — o custo da indefinição estratégica.
O Sul não governa: apenas sofre as consequências da ausência de ordem
Enquanto Washington, Pequim e Moscou negociam diretamente suas esferas de influência, o restante do sistema internacional permanece como espectador ou, pior, como arena de disputa. A guerra na Ucrânia desestabilizou mercados de grãos e energia, afetando diretamente África e Oriente Médio. A competição sino-americana por influência tecnológica e comercial pressiona países latino-americanos e asiáticos a escolherem lados em um jogo que não ajudaram a desenhar.
A ausência de voz institucional para essas regiões não é acidental. O multilateralismo liberal, tal como estruturado no pós-1945, nunca foi desenhado para distribuir poder — foi criado para legitimá-lo sob aparência de universalidade. E o chamado “multipolarismo”, defendido por Rússia e China, ainda não gerou estruturas que redistribuam capacidade de decisão. Os BRICS, por exemplo, seguem como plataforma de coordenação política, não como instância deliberativa com poder vinculante.
O resultado é um sistema internacional que opera por gestão de crises bilaterais entre poucos atores, sem regras previsíveis, sem mecanismos de accountability e sem espaço para vozes que não controlem arsenais nucleares ou PIBs trilionários.
Entre a fragmentação e o pragmatismo: o que vem depois?
As conversas entre Trump, Xi e Putin não inauguram nova era de cooperação. Tampouco significam retorno à Guerra Fria clássica, marcada por blocos ideológicos rígidos. O que está em curso é uma fragmentação gerenciada: um sistema no qual grandes potências negociam diretamente, sem mediação institucional robusta, mas também sem projeto comum de reorganização da ordem global.
Essa dinâmica levanta questões estruturais. Pode haver estabilidade internacional sustentável sem instituições multilaterais eficazes? É possível evitar conflitos armados apenas por meio de pragmatismo bilateral? E, sobretudo: quem governa, de fato, em uma ordem internacional na qual poder de veto se multiplica, mas capacidade de construção coletiva desaparece?
A diplomacia direta entre grandes potências é, simultaneamente, sintoma de falência institucional e tentativa de evitar seu pior desdobramento — a guerra generalizada. Mas gestão de crises não substitui governança. E, na ausência desta, o risco não é apenas de conflito aberto. É de perpetuação da instabilidade como condição estrutural — com consequências duradouras para todos os que não têm assento à mesa onde se decide o futuro do sistema internacional.
Referências
- InfoMoney. Xi e Trump conversam por telefone horas após presidente chinês ter falado com Putin. 11 fev. 2025.
- Ministério das Relações Exteriores da China. Comunicados oficiais sobre conversas telefônicas. Fevereiro de 2025.
- Mearsheimer, John J. The Tragedy of Great Power Politics. W. W. Norton & Company, 2001.
- Acharya, Amitav. The End of American World Order. Polity Press, 2018.



Você precisa fazer login para comentar.