Moscou acusa britânicos e franceses de planejar transferir capacidade nuclear à Ucrânia para forçar negociações sobre o Donbass. A alegação carece de confirmação independente — mas já reorganiza o tabuleiro diplomático.
O Serviço de Inteligência Exterior da Rússia (SVR) acusou Reino Unido e França de conspirar para transferir componentes nucleares à Ucrânia, com o objetivo de criar um ativo de coerção estratégica nas negociações sobre o Donbass. Não há confirmação independente da alegação. Mas verdadeira ou não, ela já altera percepções, pressiona aliados e revela tensões reais dentro do bloco ocidental — no momento mais delicado do conflito desde 2022.
O Memorando que Falhou: como a Ucrânia abriu mão do nuclear
Para compreender o peso político dessa disputa, é preciso voltar a dezembro de 1994.
Com o Memorando de Budapeste, a Ucrânia transferiu à Rússia o arsenal nuclear soviético estacionado em seu território — o terceiro maior do mundo à época, segundo o Bulletin of Atomic Scientists — em troca de garantias formais de soberania e integridade territorial, assinadas por Rússia, Estados Unidos e Reino Unido.
Três décadas depois, aquelas garantias revelaram-se ineficazes. A anexação da Crimeia em 2014 e a guerra aberta desde 2022 esvaziaram o valor político do acordo. Não surpreende que Zelensky tenha voltado a mencionar, em declaração na Conferência de Segurança de Munique em janeiro de 2022, a possibilidade de reconsiderar a via nuclear caso a adesão à OTAN fosse bloqueada — afirmação posteriormente suavizada, mas que ficou registrada no debate estratégico global.
A Duma russa reagiu. O deputado Andrey Kartapolov descartou a viabilidade técnica de um programa nuclear ucraniano autônomo. A única via factível, segundo Moscou, seria assistência direta de potências externas — daí a acusação ao Reino Unido e à França.
O que diz a acusação sobre nuclearização da Ucrânia
O SVR afirma que o plano envolveria três movimentos: fornecimento de componentes nucleares europeus; apresentação pública desses insumos como produto de um programa ucraniano independente; e transferência de ao menos uma ogiva ou material para uma “bomba suja”.
O objetivo declarado não seria uso bélico imediato. Seria político: uma Ucrânia com capacidade nuclear percebida — mesmo que limitada — teria poder de barganha radicalmente diferente em qualquer negociação sobre o Donbass, região onde estão concentradas as principais linhas de defesa ucranianas e cuja perda representaria, para Kiev, não apenas derrota militar, mas colapso político interno.
O timing da alegação não é neutro. Com o retorno de Donald Trump à Casa Branca e sinalizações de que Washington pode buscar um acordo baseado no congelamento territorial, a nuclearização — real ou apenas alegada — seria um golpe direto nessa arquitetura diplomática.
Desinformação estratégica ou alerta real?
A fonte é parte diretamente interessada no conflito. Isso impõe cautela analítica obrigatória.
Tanto o Reino Unido quanto a França são signatários do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e potências nucleares reconhecidas. Transferir capacidade atômica a um terceiro — o que especialistas chamam de “proliferação horizontal” — violaria frontalmente esse tratado e provocaria uma crise sem precedentes nas relações transatlânticas. A probabilidade técnica de que tal operação esteja em curso é muito baixa.
Mas a desinformação também é estratégia. Como observou John Mearsheimer em The Great Delusion (Yale, 2018), narrativas de ameaça existencial têm poder independente de sua veracidade: moldam percepções, justificam decisões e criam pressões políticas reais.
Ao lançar a acusação, Moscou alcança objetivos simultâneos: reforça a coesão doméstica em torno da narrativa de conflito existencial; coloca Washington em posição desconfortável diante de seus aliados europeus; insinua que Reino Unido e França agem de forma autônoma e irresponsável; e cria cobertura diplomática para eventuais escaladas futuras.
A alegação já cumpre sua função — independentemente de ser verdadeira.
Os interesses que a narrativa expõe
O episódio ilumina tensões estruturais que existem com ou sem a acusação russa.
O Reino Unido, desde o Brexit, tem buscado afirmar protagonismo estratégico por meio de política externa assertiva. A França de Macron defende autonomia estratégica europeia — incluindo a possibilidade de envio de tropas da OTAN à Ucrânia, hipótese que já gerou fricção com Washington. Ambas as posições alimentam a narrativa russa de que os europeus estariam operando fora do controle americano.
Há também um vetor econômico que o debate público frequentemente ignora. Desde 2022, orçamentos de defesa europeus cresceram de forma consistente. Segundo dados da OTAN divulgados em 2024, cerca de 23 dos 32 membros da aliança atingiram ou superaram a meta de 2% do PIB em gastos militares — contra apenas 9 em 2021. A permanência do conflito sustenta contratos bilionários em indústrias de defesa britânicas, francesas e americanas. Não se trata de conspiração: trata-se de estrutura de incentivos.
O risco real: o colapso do regime de não proliferação
O maior perigo aqui não é uma explosão nuclear no Donbass. É a erosão progressiva do regime global de não proliferação.
Se ganhar credibilidade — mesmo sem base factual — a percepção de que potências nucleares reconhecidas poderiam transferir capacidade atômica a terceiros pode ter efeito devastador. O Memorando de Budapeste já foi o primeiro precedente negativo: países que abriram mão de arsenais em troca de garantias viram essas garantias ignoradas. Uma nova erosão ampliaria pressões nucleares no Oriente Médio, na Ásia Oriental e em outras regiões instáveis.
Para países que historicamente defendem o multilateralismo e o desarmamento — como o Brasil, signatário do TNP e do Tratado de Tlatelolco —, o momento exige postura ativa: não de alinhamento automático a nenhum dos blocos, mas de defesa firme das instituições que ainda sustentam alguma ordem no sistema internacional.
Conclusão: quando a narrativa já é o conflito
O que está em disputa no Donbass não é apenas território. É a arquitetura de segurança construída desde 1945, a coesão do bloco ocidental e os limites de uma guerra por procuração antes que ela se transforme em algo diferente — e irreversível.
A acusação do SVR sobre a nuclearização da Ucrânia provavelmente integra uma campanha de guerra informacional. Mas ela revela, com precisão involuntária, as fraturas reais que atravessam o sistema internacional neste momento de transição de poder.
Como escreveu Paul Kennedy em The Rise and Fall of the Great Powers (Random House, 1987): é nos momentos de declínio relativo de uma potência dominante que os atores secundários assumem os maiores riscos. Estamos, possivelmente, nesse momento.
Referências
- Korybko, Andrew. “Britânicos e franceses querem que a Ucrânia ‘se torne uma potência nuclear'”. Global Research, 28 fev. 2026.
- Mearsheimer, John J. The Great Delusion. Yale University Press, 2018.
- Kennedy, Paul. The Rise and Fall of the Great Powers. Random House, 1987.
- Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, 5 dez. 1994. ONU.
- Tratado sobre a Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), 1968. ONU/AIEA.
- OTAN. Defence Expenditure of NATO Countries (2014–2024). Comunicado, jul. 2024.
- Bulletin of Atomic Scientists. Ukrainian Nuclear Arsenal, arquivos históricos.
- Arms Control Association. The Budapest Memorandum at 30, dez. 2024.


