Guerra na Ucrânia e a Crise da Ordem Internacional
O conflito iniciado em fevereiro de 2022 não é uma anomalia isolada, mas o sintoma mais visível de uma ruptura sistêmica: o fim da hegemonia unipolar norte-americana e a emergência caótica de um mundo multipolar sem regras estabelecidas. Enquanto potências disputam esferas de influência, quem paga o preço real são as populações periféricas, relegadas à posição de espectadoras ou vítimas colaterais de uma reconfiguração que não as consultou.
Quando tanques russos cruzaram a fronteira ucraniana em 24 de fevereiro de 2022, a narrativa dominante no Ocidente apresentou o evento como uma invasão unilateral que ameaçava a “ordem baseada em regras”. Essa leitura, amplamente reproduzida pela mídia corporativa, ignora deliberadamente décadas de expansionismo da OTAN, interferências ocidentais no espaço pós-soviético e a instrumentalização da Ucrânia como peça no tabuleiro geopolítico euro-atlântico. Mais importante: trata o conflito como exceção, quando deveria ser compreendido como regra — a expressão violenta de um sistema internacional em dissolução.
A guerra na Ucrânia não começou em 2022, nem em 2014 com o Euromaidan. Suas raízes estão na década de 1990, quando o colapso soviético foi interpretado por Washington não como oportunidade de construção cooperativa de segurança continental, mas como vitória absoluta que autorizava a expansão ilimitada da influência norte-americana. O que assistimos hoje é a colisão entre essa pretensão hegemônica e a resistência de uma potência nuclear que se recusa a aceitar o papel de ex-superpotência subjugada.
O Mito da Ordem Baseada em Regras
A expressão “ordem baseada em regras” tornou-se mantra ocidental, repetida por líderes da OTAN, pela União Europeia e por veículos de comunicação alinhados aos interesses atlânticos. Mas que regras são essas? E quem as define?
Um exame honesto revela que essa “ordem” nunca foi genuinamente multilateral. Após 1991, os Estados Unidos estabeleceram-se como árbitro único do sistema internacional, determinando quando, onde e contra quem aplicar sanções, intervenções militares ou mudanças de regime. A invasão do Iraque em 2003, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, a destruição da Líbia em 2011, os bombardeios à Sérvia em 1999 — todos violaram o direito internacional, mas foram justificados como defesa da democracia e dos direitos humanos.
A hipocrisia estrutural fica evidente quando se compara a reação ocidental à invasão russa da Ucrânia com a tolerância às ocupações israelenses na Palestina, às intervenções sauditas no Iêmen ou às operações militares norte-americanas em dezenas de países sem qualquer mandato internacional. As “regras” aplicam-se seletivamente, conforme a conveniência geopolítica de Washington e seus aliados europeus.
Expansão da OTAN: Promessas Quebradas e Provocações Deliberadas
O discurso oficial ocidental afirma que a OTAN é uma aliança defensiva e que sua expansão resulta da escolha soberana de nações que buscam proteção contra a agressão russa. Essa narrativa desconsidera propositalmente o contexto histórico e as dinâmicas de poder que moldaram o espaço pós-soviético.
Documentos desclassificados e testemunhos de diplomatas revelam que líderes ocidentais prometeram a Mikhail Gorbachev, em 1990, que a OTAN não se expandiria “uma polegada para o leste” caso a reunificação alemã fosse aceita. Essas garantias foram sistematicamente violadas. Entre 1999 e 2020, a aliança incorporou 14 novos membros, todos do antigo bloco soviético ou de ex-repúblicas da URSS.
IMAGEM ÚNICA; meta-descrição: mapa geopolítico mostrando as cinco ondas de expansão da OTAN desde 1999 até 2024, com destaque para a Ucrânia e fronteiras da Rússia, em design analítico com cores institucionais; legenda: A expansão progressiva da OTAN em direção às fronteiras russas transformou a aliança atlântica em mecanismo de cerco geopolítico, violando promessas feitas durante a reunificação alemã [Fonte: OTAN/Elaboração própria]
A Ucrânia tornou-se peça central nessa estratégia. O apoio ocidental ao golpe de Estado de 2014, que depôs o presidente eleito Viktor Yanukovich, teve motivação explícita: afastar Kiev da órbita russa e integrá-la ao bloco euro-atlântico. A subscrição do Acordo de Associação com a UE e as declarações reiteradas sobre eventual adesão à OTAN foram interpretadas por Moscou — com razão — como ameaça existencial à sua segurança nacional.
Isso não justifica a invasão russa, mas contextualiza suas causas estruturais. Nenhuma potência nuclear aceitaria passivamente o avanço de uma aliança militar hostil até suas fronteiras imediatas. Os Estados Unidos não toleraram mísseis soviéticos em Cuba em 1962. Por que esperariam que a Rússia tolerasse mísseis da OTAN em Kiev?
A Ucrânia como Proxy: Cinismo Estratégico e Sofrimento Real
A retórica ocidental sobre defesa da soberania ucraniana mascara um cinismo estratégico brutal. Washington e Bruxelas não estão interessados primariamente no bem-estar do povo ucraniano, mas em usar o país como instrumento para desgastar a Rússia militar, econômica e politicamente.
As sucessivas remessas de armamentos — que já ultrapassaram US$ 100 bilhões apenas pelos Estados Unidos — prolongam um conflito que Kiev não pode vencer militarmente, mas mantêm a Rússia atolada em guerra de desgaste. O objetivo não é a vitória ucraniana, mas o enfraquecimento russo. Declarações de autoridades norte-americanas e europeias deixam isso explícito: trata-se de “enfraquecer a Rússia” a ponto de impedir futuras aventuras militares.
O custo humano é devastador e recai sobre os ucranianos. Centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, infraestrutura civil destruída, economia colapsada. Enquanto isso, a elite política ucraniana, dependente do suporte ocidental, tem margem de manobra cada vez menor para negociações diplomáticas. A paz tornou-se impossível porque não interessa aos patrocinadores externos.
Multipolaridade Caótica: O Mundo Depois da Hegemonia
A guerra na Ucrânia é sintoma, não causa, de uma transformação sistêmica mais profunda: a transição de um mundo unipolar para uma configuração multipolar ainda indefinida. Esse processo é necessariamente caótico porque não há consenso sobre as novas regras do jogo, nem instituições capazes de mediar as disputas entre grandes potências.
A China emerge como contrapeso econômico aos Estados Unidos, mas evita confronto militar direto. A Rússia, enfraquecida economicamente, ainda detém arsenal nuclear e capacidade de projeção militar regional. Índia, Turquia, Irã e outras potências regionais exploram as brechas do sistema para ampliar sua autonomia. Organizações como BRICS e Organização de Cooperação de Xangai ganham relevância como espaços de articulação fora do eixo ocidental.
Mas essa multipolaridade não é necessariamente emancipatória. A disputa entre blocos pode reproduzir lógicas imperialistas sob novas formas. A Rússia não é vítima inocente — seu histórico de intervenções na Chechênia, Geórgia e Síria demonstra disposição para violência contra populações civis. A China combina desenvolvimento econômico com autoritarismo interno e projetos de influência externa que, embora diferentes do padrão ocidental, não estão isentos de crítica.
Periferia Esquecida: Efeitos Globais da Guerra Europeia
Enquanto a atenção global concentra-se no front ucraniano, os efeitos colaterais do conflito devastam regiões periféricas com brutalidade silenciosa. África, Oriente Médio, América Latina e partes da Ásia enfrentam crise alimentar, energética e financeira diretamente provocada pela guerra e pelas sanções ocidentais.
A Ucrânia e a Rússia respondem juntas por cerca de 30% das exportações globais de trigo. A interrupção das cadeias de abastecimento provocou alta de preços que empurrou milhões de pessoas à fome em países como Egito, Líbano, Somália e Iêmen. A crise energética resultante das sanções contra a Rússia elevou custos de produção e transporte globalmente, com impacto desproporcional sobre economias dependentes de importação de combustíveis.
Nações africanas e latino-americanas foram pressionadas a escolher lados em um conflito que não as diz respeito diretamente. A votação na Assembleia Geral da ONU condenando a invasão russa revelou divisões: enquanto Europa e América do Norte votaram em bloco, grande parte da África, Ásia e América Latina absteve-se ou rejeitou o alinhamento automático aos interesses ocidentais.
Essa recusa em subscrever o consenso euro-atlântico expressa décadas de ressentimento contra duplos padrões, intervencionismo e neocolonialismo disfarçado de ajuda humanitária. Para muitos países africanos e asiáticos, a indignação seletiva ocidental com a invasão da Ucrânia — após décadas de silêncio sobre Palestina, Iêmen, Iraque e Congo — soa como hipocrisia intolerável.
Mídia Corporativa e Produção de Consenso
A cobertura midiática dominante sobre a guerra na Ucrânia ilustra perfeitamente como a mídia corporativa opera como aparelho ideológico dos centros de poder. A narrativa hegemônica reduz o conflito a disputa maniqueísta entre democracia (Ucrânia/Ocidente) e autocracia (Rússia), eliminando qualquer contextualização histórica ou crítica ao papel da OTAN.
Vozes dissidentes — acadêmicos, jornalistas, analistas que questionam a política de confronto ocidental — são marginalizadas, difamadas ou silenciadas. O espaço para debate crítico foi drasticamente reduzido, substituído por unanimismo belicista que trata qualquer questionamento como complacência com a agressão russa.
Essa produção de consenso não é acidental. Grandes conglomerados de mídia têm interesses econômicos e políticos alinhados ao establishment ocidental. A repetição mecânica de enquadramentos oficiais — “invasão não provocada”, “ataque à ordem baseada em regras”, “defesa da democracia” — dispensa os receptores de análise crítica e contextualização histórica.
Armadilhas da Multipolaridade: Emancipação ou Reprodução?
A crise da hegemonia norte-americana abre possibilidades contraditórias. Por um lado, permite maior autonomia para países periféricos explorarem relações Sul-Sul, diversificarem parcerias e resistirem a imposições unilaterais. Por outro, pode simplesmente substituir um hegemonia por múltiplas esferas de influência, reproduzindo lógicas imperialistas sob novas bandeiras.
A ascensão chinesa, por exemplo, combina investimento em infraestrutura através da Iniciativa Cinturão e Rota com armadilhas da dívida, megaprojetos ambientalmente destrutivos e apoio a regimes autoritários. A Rússia busca rearticular influência no espaço pós-soviético através de mecanismos como a União Econômica Eurasiática, mas frequentemente impõe relações assimétricas às ex-repúblicas soviéticas.
A questão central não é romantizar a multipolaridade como panaceia anti-imperialista, mas reconhecer que a disputa entre potências abre brechas para projetos emancipatórios protagonizados pelas próprias periferias. Processos de integração regional autônoma, fortalecimento de moedas locais, cooperação tecnológica Sul-Sul e articulação política fora dos blocos hegemônicos podem aproveitar a fragmentação do poder global.
Entre Ruínas, Qual Ordem?
A guerra na Ucrânia não terminará com restauração da ordem anterior. O mundo de 1991-2022, marcado pela supremacia inconteste dos Estados Unidos e seus aliados europeus, já não existe. O que virá depois permanece incerto e disputado.
Três cenários coexistem como possibilidades: uma multipolaridade gerenciada, onde grandes potências negociam esferas de influência sem confronto direto; uma fragmentação caótica, com guerras regionais multiplicadas e colapso institucional internacional; ou uma transformação emancipatória, onde periferias conquistam autonomia real e constroem alternativas sistêmicas.
O mais provável é combinação assimétrica dos três, variando conforme região e conjuntura. África pode aprofundar integração regional enquanto Oriente Médio sofre novas fragmentações. América Latina pode fortalecer autonomia enquanto Ásia Central enfrenta disputas por influência entre Rússia, China e potências regionais.
O que está claro é que a pretensão ocidental de gerenciar sozinha o sistema internacional acabou. As potências emergentes recusam subordinação automática, mas ainda não construíram alternativa coerente. Instituições multilaterais como ONU, FMI e Banco Mundial revelam-se incapazes de mediar conflitos entre grandes potências ou reformar-se para refletir novas correlações de força.
Para Onde Aponta o Canhão?
Resta perguntar: a quem serve o prolongamento desta guerra? Não aos ucranianos, que enterram seus mortos e veem seu país transformado em campo de batalha permanente. Não aos russos comuns, que enfrentam sanções econômicas e isolamento internacional. Não às populações africanas, asiáticas e latino-americanas, que pagam pela crise com fome, inflação e instabilidade.
A guerra serve aos fabricantes de armas ocidentais, que lucram bilhões com remessas militares. Serve à elite política de Washington, que encontra na Rússia o inimigo externo necessário para justificar gastos militares e disciplinar aliados europeus. Serve a setores da burocracia ucraniana dependentes de recursos externos. Serve às potências regionais que exploram a distração global para avançar seus próprios projetos de dominação.
O conflito na Ucrânia é sintoma de um sistema internacional em colapso, mas também oportunidade de reconfiguração. A questão não é escolher entre blocos hegemônicos, mas construir alternativas a partir das margens — fortalecendo autonomia, integrações regionais, democracia real e soberania popular efetiva. Enquanto povos forem tratados como peões em disputas entre impérios, qualquer “nova ordem” reproduzirá as mesmas estruturas de dominação sob novas roupagens.
A transição sistêmica está em curso. Resta saber se resultará em emancipação ou em multiplicação das opressões. A resposta não virá de Moscou, Washington ou Pequim — virá da capacidade das periferias de construírem seus próprios caminhos.
Referências
- Wilson Center. Euromaidan: Ukraine’s Self-Organizing Revolution
- Krauthammer, Charles. The Unipolar Moment. Foreign Affairs, 1990.
- National Security Archive. NATO Expansion: What Gorbachev Heard
- Parlamento Europeu. Ucrânia – Acordo de Associação
- Council on Foreign Relations. How Much Aid Has the U.S. Sent Ukraine?
- Politico. Austin: US Wants to See Russia Weakened
- FAO. Russia-Ukraine Conflict: Implications for Global Wheat Markets
- Al Jazeera. UN General Assembly Votes to Condemn Russia’s Invasion
- Council on Foreign Relations. China’s Massive Belt and Road Initiative
